 

Christie Ridway
Um amor de beb

 
Ttulo: Um amor de beb
Autor: Christie Ridway 
Ttulo original: The millionaire and the pregnant pauper
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1999
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo:  Nina
Estado da Obra: Corrigida


O beb do Ano-Novo!
Quando o relgio marcou meia-noite, em vez de comemorar, o rico playboy     Michael Wentworth estava olhando com ternura para o recm-nascido de uma desconhecida. Pior ainda, todos pareciam pensar que ele era o orgulhoso papai do filho de Beth Masterson. E s conhecera a mulher porque ela fora bater na porta de sua casa com informaes sobre o herdeiro desaparecido dos Wentworth! Bem... Para receber sua herana, Michael precisava de uma esposa temporria, e a pobre me solteira certamente precisava de um homem com quem pudesse contar... e talvez at viver um final feliz. Mas o resistente solteiro Michael estaria preparado para ser esse homem?

Poderosos, proeminentes, orgulhosos... a maior
fortuna dos Wentworth de Oklahoma era a
famlia. Assim, quando eles descobriram que
Sabrina Jensen esperava o mais novo herdeiro
Wentworth, e havia desaparecido sem deixar
traos, juraram... Seguir Aquele Beb!

Michael Wentworth: Para um homem que 
tinha tudo, o milionrio Michael carecia 
das duas coisas importantes: uma noiva 
conveniente e uma passagem de mo nica
para fora da Wentworth Oil Works. Mas 
quando uma futura me praticamente 
aterrissa em sua porta, Michael tem de 
descobrir se ela est preparada para assumir 
o compromisso do matrimnio.

Beth Masterson: Depois de praticar exerccios 
de ginstica e respirao nas aulas de
preparao para o parto com a evasiva Sabrina 
Jensen, Beth sentia-se no dever de revelar aos 
Wentworth o paradeiro da mulher. Mas quando 
sua boa sorte a brinda com um atraente e
promissor futuro marido, e um perfeito caso de 
amor, ela reflete melhor suas boas intenes...

Sabrina Jensen: A pista fornecida por Beth torna 
o esconderijo da jovem grvida mais
prximo de ser descoberto. Mas os Wentworth 
seriam os primeiros a chegarem... ou o beb 
de Sabrina seria mais rpido?

CAPTULO I

O relgio de duzentos anos marcou a passagem de mais uma hora. Michael Wentworth contou as badaladas na cadeira de couro da biblioteca. Sete... oito... nove...
Maldio! Mais trs horas at a meia-noite.
Vspera de Ano-Novo. A noite de Reveillon de um playboy. Quem poderia acreditar que justamente essa noite ele estaria contando as badaladas de um velho relgio, em vez de beber champanhe e danar com belas mulheres? E esperava ansioso pela chegada de um novo ano.
Um som diferente sobreps-se ao do relgio, e Michael gemeu desanimado. Era a campainha da porta.
	No h ningum em casa!  gritou.
Todos os empregados estavam de folga, e esperava passar a noite na mais completa solido.
A campainha soou mais uma vez. Devia ser Elijah, acompanhado por LeAnne ou Vai, fingindo no ter recebido o recado de ltima hora sobre sua deciso de no sair naquela noite.
Aborrecido, foi abrir a porta e abriu mais um boto da camisa que usava sob o fraque, tentando deixar claro que decidira no ir  festa no Route 3 Club. Havia acabado de tocar a maaneta quando a campainha soou mais uma vez.
	V com calma, Elijah  resmungou, puxando a pesada porta de ao e vidro fosco.
Mas no era Elijah quem esperava do outro lado. Nem LeAnne ou Vai. No era ningum que conhecesse. A jovem usava cala jeans sob um casaco impermevel e exibia uma expresso assustada.
	Sou Beth Masterson  apresentou-se com voz ofegante. Os punhos estavam cerrados e ela parecia ter dificuldade para controlar-se. Depois de um momento ela soltou o ar lentamente e relaxou.  Lamento incomod-lo, mas vou ter um beb.
Devia estar com algum problema de audio.
	O que disse?  Michael perguntou. A luz amena do hall era a nica iluminao disponvel, porque no se havia dado ao trabalho de acender as luzes externas, e os cabelos prateados da jovem brilhavam como o luar em contraste com o casado escuro.
Ela mudou de posio.
	Eu...  Os punhos se cerraram novamente e um arrepio sacudiu seu corpo.
	Pelo amor de Deus...  Michael segurou-a pelos ombros e puxou-a para dentro de casa, fechando a porta em seguida. O tecido impermevel do casaco era gelado sob seus dedos, e ele acionou o interruptor para aumentar a intensidade da iluminao.
Perturbada pelas luzes brilhantes, ela virou o rosto e franziu a testa. Olhos azuis. E lbios azuis, tambm, consequncia do frio que devia estar sentindo.
	Veio andando at aqui?  Michael olhou para os ps protegidos por botas de inverno. Talvez o carro dela houvesse quebrado na estrada.
A jovem balanou a cabea, como se fosse incapaz de falar, e ficou quieta por alguns instantes. Aos poucos a tenso deu lugar a uma expresso cansada.
	Dirigia meu carro, mas o aquecedor quebrou...
	E voc teve de caminhar da entrada da propriedade at aqui.  Sem saber o que fazer, Michael convidou-a a segui-lo at a biblioteca, onde estivera sentado.  Ouvi algum buzinando no porto, mas pensei que fossem... amigos tentando me convencer a sair e comemorar.  A distncia entre o porto e a porta era de quinhentos metros, mais ou menos.
Apesar de ter repetido o convite silencioso duas vezes, a jovem permanecia parada no hall. Michael ps as mos nos bolsos da cala.
	Bem, eu... H algo que possa fazer para ajud-la?
Quer que eu chame um txi, ou um guincho para o carro?
	Um telefonema e poderia voltar  viglia solitria de Ano-Novo.
Mos pequenas e sem anis pousaram sobre o ventre escondido pelo casaco.
	Sinto muito, mas... j disse que vou ter um beb.
Dezenas de pensamentos se formaram na mente de Michael enquanto ele a conduzia para a cadeira mais prxima.
O que uma mulher jovem e solitria estava fazendo na soleira dos Wentworth?
No podia ser a mesma jovem que carregava no ventre o filho de seu finado irmo. A famlia Wentworth procurava Sabrina Jensen. Vira um retrato dela, conhecera sua irm gmea, e sabia que no havia nenhuma semelhana entre Sabrina e aquela jovem delicada sentada diante dele.
E tambm no podia ser algum com quem sara e depois esquecera. Jamais se relacionava sem proteo, e no teria sido capaz de esquecer cabelos daquela cor.
Ento...
Os dedos dela se fecharam em torno de seu pulso.
	Acho... que preciso ir para o hospital  ela gemeu.
	Agora!
O anncio o atingiu com um balde de gua gelada. E o encheu de pavor.
Depois de rejeitar suas sugestes de chamar o mdico da famlia ou providenciar um helicptero equipado com UTI, ela pediu uma carona at o hospital.
Oh, sim, e poderiam at usar o carro dela.
Michael nem respondeu  sugesto absurda. Depois de telefonar para o hospital e preveni-los sobre sua chegada, acomodou-a em sua caminhonete e, com o aquecedor ligado e a jovem desconhecida reclinada no banco do passageiro, seu casaco de pele de carneiro jogado sobre ela para proporcionar calor extra, Michael finalmente teve alguns segundos para pensar em detalhes.
	Trouxe meu celular  disse.  Quer que eu avise o pai do beb? S precisa me dar o nmero e...
	O pai do beb no est interessado no que vai acontecer conosco  ela cortou com um sorriso forado.  Mas se puder ligar para Bea e Millie da Padaria Freemont Springs e avisar que no irei trabalhar amanh...  A voz tremeu e ele soube que outra contrao a castigava.
Michael tentou distra-la.
	Padaria Freemont Springs? No como um daqueles bolos de rum h anos! Eles ainda fazem biscoitos de aveia com cobertura de chocolate? Minha irm Josie adora as roscas de leite. Millie faz os melhores pes doces que j provei e...
	Pode parar.
Michael fitou-a e viu um sorriso doce, apesar do cansao estampado no rosto delicado. Era um sorriso encantador, cheio de uma ternura que...
Felizmente estavam chegando ao hospital. Aquela jovem e seus sorrisos no eram de sua conta. S precisava conduzi-la  sala de parto a tempo, e depois trataria de esquecer que um dia a encontrara em sua porta.
Enquanto percorria o longo corredor que levava  entrada de emergncia, notou que ela agarrava o casaco estendido sobre suas pernas. Quando a jovem mordeu o lbio e fechou os olhos, sentiu que algo oprimia seu peito.
O que poderia fazer por ela?
De repente no pde conter o mpeto de tocar o pequeno punho cerrado.
Pele fria. Afagou-a com delicadeza at finalmente brecar na entrada da emergncia.
Protegendo os olhos contra as luzes brilhantes, desceu da caminhonete no mesmo instante em que algum passou pela porta empurrando uma cadeira de rodas.
Parto?
Michael assentiu, mas conseguiu chegar antes da cadeira  porta do passageiro. A jovem encarou-o e ele a tomou nos braos, depositando-a delicadamente na cadeira de rodas. Depois recuou um passo. Muito bem, agora ela era responsabilidade de outra pessoa.
A cadeira entrou em movimento.
	Espere!  Como se uma fora estranha o dominasse, pegou o casaco de pele de carneiro e correu para coloc-lo sobre as pernas da jovem grvida.
Enquanto agia, a mo tocou seu ombro.
Michael levantou a cabea.
O brilho intenso das luzes do hospital apagava a cor de seu rosto, mas os cabelos brilhavam como a lua e os olhos, azuis como enormes turquesas, o perturbavam.
	Obrigada.  Um dedo gelado deslizou por seu rosto.
Em seguida a cadeira de rodas entrou novamente em movimento e ela desapareceu alm da porta.
Sentado diante do volante, Michael respirou fundo e tentou relaxar.
Mas era impossvel.
O ar no interior do automvel retinha o perfume suave e fresco da jovem que acabara de transportar. Abriu a janela para permitir a entrada do ar frio de Oklahoma, mas isso o fez lembrar do dedo gelado em seu rosto e do brilho prateado dos cabelos claros.
Sabia que ela ficaria bem.
Ligou o motor e pisou fundo no acelerador para afogar os pensamentos no ronco de oito cilindros. Os problemas que tinha de enfrentar no momento eram mais que suficientes. No precisava inventar novas dificuldades.
Culpa de Jack... Irmos mais velhos no deviam morrer aos trinta e cinco anos. No num ataque terrorista, numa exploso de um navio petroleiro na costa de Qatar.
Culpa do av. Disposto a descobrir os detalhes em torno da morte de Jack, Joseph Wentworth seguira para Washington, e nesse momento devia estar destruindo as ltimas partculas de alegria natalina dos infelizes membros do governo que no haviam sido sensatos o bastante para escapar antes de serem encontrados por ele.
Culpa de Josie. Por precauo, Michael incluiu o nome da irm recm-casada na lista dos responsveis por sua infelicidade. Juntos, todos haviam permitido que a responsabilidade pela companhia de petrleo da famlia casse sobre seus ombros.
Depois da morte de Jack, Michael tentara afastar-se definitivamente da empresa, mas o av conseguira manipul-lo mais uma vez. Alguns comentrios sobre "os poucos anos de vida que lhe restavam" e a "falta que Jack fazia  famlia", e Michael descobrira-se novamente sentado atrs daquela maldita escrivaninha.
O pior de tudo era que todos sabiam que Joseph ainda dispunha de pelo menos vinte e cinco anos de vida, e todos seriam dedicados  Wentworth Oil Works. E se nunca descobrissem a razo da morte de Jack, se nunca localizassem o beb que ele havia concebido antes de morrer, Joseph precisaria da empresa para sobreviver.
E Michael precisava escapar dela. Com Jack morto, e Josie casada com o rancheiro Max Crter, a nica coisa que queria era cuidar da prpria vida e perseguir seu sonho. Um homem no podia construir um estbulo cheio de quartos de milha campees de um escritrio na cobertura do Edifcio Wentworth.
Michael manobrou a caminhonete para sair do hospital e consultou o relgio. Nove e quarenta e cinco. Pelo menos estava mais perto da meia-noite. Dentro de pouco mais de duas horas comearia um novo ano, e nesse ano novo esperava que o av voltasse a se concentrar nos negcios da famlia, em vez de viver em funo de uma tragdia.
Se ao menos Sabrina, a tal grvida, aparecesse...
Grvida.
Beth invadiu sua mente com aquele sorriso doce, o rosto delicado marcado pela dor e os olhos azuis cheios de medo e esperana.
No era de sua conta.
O problema no era dele.
Seu lugar era em casa com um copo de usque na mo e o controle remoto da tev na outra.
Mas o crebro se recusava a assumir o controle de suas aes, e quando percebeu j estava voltando para perto da entrada de emergncia.
Alguma inteligncia rara no Travis County Hospital pintara faixas coloridas no cho para guiar os visitantes pelo labirinto de corredores que levava s diversas alas. A caminho da maternidade, Michael passou diante da lanchonete pela quarta vez e acabou encontrando a psiquiatria.
Mantenha a cabea baixa, disse a si mesmo, desviando os olhos da enfermeira que o observava com curiosidade e concentrando-se nas tiras coloridas que cobriam o cho. Era loucura seguir a desconhecida daquela maneira. Desafiar o destino no era uma prova de bom senso.
As paredes pintadas em rosa e azul indicaram que finalmente havia encontrado o lugar certo. Uma mulher vestida de branco permanecia sentada atrs de uma mesa, e ela ergueu as sobrancelhas ao v-lo entrar na rea deserta. Constrangido, Michael sentou-se em uma das cadeiras da recepo e abriu um exemplar da Sports Illustrated.
	Estou esperando algum  disse.  Quero estar por perto, caso ela necessite de alguma coisa.  Ou at recuperar a sensatez e voltar para casa, onde era seu lugar.
Segundos mais tarde, uma mulher num avental imaculado surgiu de uma porta e apontou na direo de Michael.
	Ah, a est voc!  exclamou a enfermeira.
O instinto de luta e sobrevivncia fez com que ele se levantasse de um salto.
	Est falando comigo?
	Um homem de fraque! Disseram que ela havia sido trazida por um homem vestindo um fraque.
Sem parar para respirar, a enfermeira agarrou-o pelo pulso e puxou-o para um corredor lateral com portas amplas dos dois lados. De repente a voz estridente transformou-se
em um sussurro.
	Lamento arruinar sua noite, querido, mas estamos indo para uma sala de parto onde voc logo se tornara pai.
	Mas...
Antes que pudesse explicar-se, a enfermeira o empurrou para uma saia dominada pela penumbra. A msica suave contribua para a tranquilidade que reinava no ambiente.
	Beth, veja s quem encontrei!  ela anunciou para a mulher deitada na cama.
Aparentemente aquecida, mas to delicada quanto antes, a jovem grvida solitria no respondeu. Michael notou que as mos sobre o cobertor permaneciam cerradas. Mais uma contrao. Queria mover-se... para a frente, para fora, para qualquer lugar, mas a enfermeira continuava segurando seu brao.
Depois de um momento Beth relaxou e olhou em sua direo. Uma mecha de cabelos claros caa sobre a testa ensopada de suor.
Michael encarou-a e sentiu algo estranho, uma espcie de calor que brotava da nuca e se espalhava por todo o corpo. Que diabos est&acontecendo aqui1? Apesar da camisola e do cobertor esconderem o corpo feminino, algo no ambiente hospitalar e no equipamento mdico faziam-no sentir que havia invadido a privacidade da desconhecida.
Sorrindo, tentou esconder o mal-estar.
	Creio que  melhor...
A enfermeira cravou as unhas em seu brao.
	Preciso ir verificar como est outra paciente, meu rapaz. E voc no vai sair daqui enquanto eu no voltar.  A porta se fechou com um clique metlico definitivo e assustador.
Michael sorriu mais uma vez e apontou para a porta.
	Parece que est havendo um mal-entendido...
O sorriso com que ela respondeu foi doce, ainda mais envolvente que aquele que ele tentava esquecer.
	Desculpe. Parece que esto pensando...
	No se preocupe com isso.  E comeou a caminhar para a porta. A jovem estava em boas mos. Era hora de voltar para sua solitria contagem regressiva de Ano-Novo... o que devia ter feito h muito tempo, logo depois de t-la deixado na entrada da emergncia.
	Eu... bem...  Abriu a porta e preparou-se para escapar.
Ento aquele estranho instinto de sobrevivncia o fez olhar para o corredor. A enfermeira aproximava-se com passos apressados e firmes.
Michael voltou para o interior do quarto e fechou a porta.
	Ela est voltando  disse.
	Oh, eu...  O rosto de Beth contraiu-se numa mscara de dor e ela cerrou os punhos.
	Mais uma?  Michael perguntou, apesar de conhecer a resposta.
Sem pensar, estendeu a mo para a porta.
	Vou chamar a enfermeira.  Devia haver algum ali, uma pessoa com mais experincia e preparo que ele.
Mas a jovem o deteve com um rpido movimento de cabea. Parado, sem saber o que fazer, esperou que ela superasse a onda de dor e s voltou a respirar quando a viu relaxar.
	Tudo bem?
Ela assentiu.
	Nesse caso, acho que posso- ir embora.  Devia ir. A pobre mulher devia estar ansiosa por um pouco de privacidade.
O movimento afirmativo de cabea repetiu-se.
Mas antes que pudesse abrir a porta Michael identificou os sinais de mais uma contrao. Era um movimento involuntrio que comeava em algum lugar perto dos joelhos, um espasmo to intenso que podia ver as pernas se enrijecerem mesmo sob o cobertor, e depois seguia at os ombros dominando todos os msculos que encontrava pelo caminho. De repente estava ao lado dela, mais perto do que estivera quando a carregara do carro para a cadeira de rodas.
Uma das mos segurou o pequeno punho cerrado, e com o passar dos minutos, a dor diminuiu e os dedos relaxaram sob seu toque.
Percebeu que estava sentado na beirada da cama. A nuca foi novamente tomada por um calor intenso quando viu uma gota de suor brotando de sua testa, escorrendo ate o queixo. No a tocou; apenas acompanhou o trajeto na pele translcida do rosto cansado.
	Voc est bem?  Assim que tivesse certeza de que tudo corria de acordo com o previsto poderia deix-la. Por favor, diga que est tudo bem  sussurrou.
	Odeio admitir, mas... estou com medo.
Ningum mais saiu do quarto depois disso. Vrias pessoas entraram, algumas carregando equipamentos, outras exibindo os trajes verdes do centro cirrgico.
A cada passo do procedimento Michael fitava os olhos de Beth. Esperava que ela pedisse para ficar sozinha com o mdico e os enfermeiros, mas a jovem no soltava sua mo. Em vez de cerrar os punhos, passou a enfrentar as contraes agarrando seus dedos como se ali estivesse sua nica chance de sobrevivncia, em pouco tempo Michael deixou de sentir os dedos.
E da? Quem precisava de dedos, quando uma nova vida estava prestes a chegar ao mundo?
Manteve os olhos IXQS no rosto de Beth. O que acontecia do pescoo para baixo s dizia respeito a ela e ao mdico. O que ocorria entre ela e Michael era algo restrito ao olhar. E foi com o olhar que tentou dizer que acreditava nela, que confiava em sua fora e em seu poder feminino.
E enquanto aquela criana chegava ao mundo, Michael a viu transformar-se de mulher em me, e sentiu-se to pequeno diante daquilo quanto um homem de vinte e sete anos sem nenhuma experincia no assunto poderia se sentir.
Pouco depois da meia-noite, o quarto ficou praticamente deserto e silencioso. A maior parte do equipamento havia desaparecido, mas a cama ainda estava l, e um pequenino bero de plstico transparente, e Beth e sua minscula coisinha avermelhada que mais parecia um amendoim com pernas e braos.
O menino que ela acabara de dar  luz.
O beb dormia aninhado em seu peito. Ela tambm mantinha os olhos fechados, exausta. Michael perdera o contato com ela h algum tempo, desde que algum pusera o beb em seus braos.
Algo na viso da mulher com o filho no colo o fez sorrir. E algo naquele sorriso despertou o instinto de autopreservao, como se tivesse de defender sua condio de homem solteiro.
	Preciso sair daqui  disse em voz alta.
Bateu as mos abertas sobre as coxas e levantou-se da cadeira que havia colocado bem perto da cama. Era hora de partir.
	Bem... parabns.
Ela resmungou alguma coisa com voz sonolenta.
Aliviado, comeou a mover-se. Beth devia estar feliz por poder finalmente ver-se livre dele.
O que era compreensvel. Afinal, no tinha o direito de estar ao lado dela num momento to ntimo.
A porta se abriu e a enfermeira entrou no quarto.
	No v embora.
O tom autoritrio o irritou e Michael reagiu de maneira automtica.
	Escute aqui, s vim at ao hospital porque dei uma carona a essa mulher. No sou...
	Espere um minuto.  Beth abriu os olhos e encarou-o. Era como se o estivesse vendo pela primeira vez.
	S mais um detalhe  a enfermeira anunciou sorridente.  Um detalhe excitante.
A porta havia sido deixada aberta, e havia uma multido suspeita no corredor.
	No tenho tempo para mais nada  Michael respondeu.
	S um minuto  Beth repetiu, ignorando as mos da enfermeira ajustando o cobertor sobre seu corpo e a manta em torno do beb.  Wentworth, no ? Voc  um Wentworth?
Ele assentiu, percebendo que o pequeno grupo se aproximava da porta.
	Vamos deixar para conversar em outra...
	S preciso de um segundo.  Sustentando o beb com um brao, ela usou a outra mo para acionar o controle eletrnico da cama, e pouco depois alcanava uma posio reclinada.  Fui  sua casa esta noite para lhe dizer algo muito importante.
Uma das pessoas estava quase alcanando a cama de Beth. Era um homem, e no lugar do avental branco e da prancheta comum entre os mdicos, ele segurava uma c-mera fotogrfica. Um arrepio gelado percorreu o corpo de Michael, uma espcie de pressentimento assustador.
	Outra hora  disse.  Preciso mesmo...
	Por favor.  importante.
Anos de educao obrigaram-no a parar. Era um solteiro convicto e inveterado, mas nem por isso deixava de ser um cavalheiro. A enfermeira aproveitou o momento de indeciso para empurr-lo para perto da cama.
	O que  isso?  perguntou perturbado.
O homem com a cmera tentava focaliz-los. A enfermeira fez um gesto grandioso na direo da cama.
	Este  o primeiro beb do ano em Travis County!
	No...  Michael gemeu. De repente sabia como aquilo tudo acabaria. Apressado, tentou sair da rea de alcance da cmera.
	Sei onde est Sabrina  Beth anunciou.
	O qu?  A surpresa levou-o a chegar mais perto da cama.  Sabrina?  A luz do flash invadiu o quarto.
E foi essa a imagem que toda a cidade encontrou na primeira pgina do Springs Daily Post do dia seguinte. A manchete dizia: Freemont Springs d as boas-vindas ao primeiro bebe do ano! A foto era enorme. O beb era protegido por um cobertor com o logotipo do Travis County Hospital. A me parecia exausta, porm feliz. E no lugar do pai estava o mais cobiado e inatingvel solteiro de Freemont Springs. Sim, l estava Michael Wentworth, os olhos arregalados e a boca aberta numa expresso estpida e assustada.

CAPITULO II

Beth Masterson segurava o filho junto ao peito e emanava alegria. Pousando os lbios sobre a pequena cabea do recm-nascido ela olhou pela janela para o sol matinal.
	Um novo ano  um recomeo  sussurrou.
Alice Dobson, a mulher que a criara, pronunciara as mesmas palavras no primeiro dia de todos os anos e ainda devia diz-las. Embora Beth s houvesse trocado algumas cartas com Alice desde que deixara o Lar Thurston para Meninas cinco anos atrs, nunca esquecera os ensinamentos que aprendera com a mulher mais velha.
	E tambm no vou deix-lo esquecer as lies  disse ao beb.  Transmitirei a voc tudo que aprendi.
O que no era muito, admitiu. O menino franziu a testa enquanto dormia. Ela sorriu e tentou apagar a pequena ruga com a ponta do indicador.
	No se preocupe, beb. Mame est ficando mais esperta a cada dia.
Suspirando, lamentou no ter sido to sbia meses antes. Talvez ento houvesse percebido que Evan no era o tipo de homem capaz de am-la eternamente... se  que um dia a amara.
	Mas ento eu no teria voc  disse, traando o contorno da pequenina orelha com um dedo. Nada a faria lamentar a existncia do filho.
Com um mnimo de esforo, conseguiu descer da cama e colocar o filho no bero. Tinha coisas mais importantes para desejar. Com a chegada do beb quase um ms antes da data prevista, dispunha de uma quantia menor do que havia planejado. E tambm devia estar procurando um apartamento novo e barato. Bea e Millie haviam concordado em alugar o quarto sobre a padaria em carter temporrio, e dentro de quatro semanas a me de Millie estaria se mudando para l.
Beth mordeu o lbio.
	Mas desejos no pagam contas  sussurrou, repetindo mais um dos muitos lemas de Alice.
Determinada a no se render s preocupaes, deslizou a mo pelos cabelos despenteados. Uma enfermeira estivera no quarto minutos antes e havia sugerido que ela tomasse uma ducha no banheiro adjacente. Alguns minutos sob a gua morna e se sentiria uma nova mulher.
Algum bateu na porta. Esperando ver a enfermeira que prometera voltar para ajud-la, ela disse:
	Entre.
A porta se abriu e um homem entrou no quarto.
Um rubor tingiu o rosto de Beth e ela ajeitou a camisola do hospital com gestos constrangidos. Droga! Pensara em sentir-se uma nova mulher? Ficaria satisfeita em ser apenas uma mulher diferente. Porque o homem alto, moreno e atraente que se aproximava devagar passara boa parte da noite segurando sua mo, compartilhando do momento mais ntimo e miraculoso de toda sua vida.
	Beth?
Lembrava-se da voz profunda e mscula. E lenta, como soavam todas as vozes em Oklahoma, diferentes do discurso rpido com que habituara-se em Los Angeles.
Ele deu mais trs passos em sua direo e estendeu a mo.
Beth aceitou o cumprimento por cima do bero do beb. Lembranas da noite anterior desfilavam por sua mente. Os olhos castanhos eram srios, mas eloquentes.. Os dedos haviam segurado os dele como se pudesse extrair fora daquelas mos. Um novo rubor coloriu seu rosto e, embaraada, ela interrompeu o contato.
Meu nome  Michael Wentworth.
No havia esquecido. Ele dissera seu nome logo depois do reprter ter batido a foto do primeiro beb do ano. Depois Michael havia desaparecido. Para ser honesta, estivera to envolvida pela chegada do filho que no pensara muito no assunto desde ento.
At aquele momento.
E de repente, tudo que conseguia pensar era em como ele a vira na noite anterior, como devia parecer essa manh, como lamentava no ter tomado aquele banho minutos antes... e em como poderia livrar-se dele imediatamente sem parecer grosseira.
Michael quase deixou escapar uma gargalhada. A expresso de Beth era quase to legvel quanto a manchete da primeira pgina de um jornal. Sabia exatamente em que ela estava pensando.
Queria se livrar dele.
Bem, era uma pena. Fora buscar explicaes detalhadas e no sairia dali enquanto no as conseguisse. Era o mnimo que podia esperar depois de ter visto seu rosto estampado no jornal daquela manh e recebido os telefonemas de congratulaes mais absurdos que j .havia imaginado receber.
Ofereceu um sorriso radiante, o mesmo que aperfeioara ainda no ginsio, nas aulas de religio.
Ela reagiu com o mesmo olhar desconfiado que a sra. Walters exibia quando o ouvia jurar que no copiara a lio sobre os versculos da Bblia.
	Estava pensando em...  Beth apontou para a porta  esquerda e torceu o tecido da camisola. Preciso realmente...
	S quero fazer algumas perguntas  ele cortou com tom suave. Algum usara um fax para enviar a Washington a primeira pgina do Freemont Daily Post daquela manh, e o primeiro telefonema que recebera fora do av, para quem tivera de jurar que os Wentworth no seriam surpreendidos por mais um herdeiro misterioso.  Conversei com meu av h algumas horas e ele se mostrou ansioso por novas informaes quanto ao paradeiro de Sabrina.
Beth mordeu o lbio.
	 Escute, ontem eu no estava muito bem. Limpei o porta-malas do meu carro, e encontrei trinta e sete centavos quando fiz uma faxina completa no porta-luvas e nos bancos traseiros. Depois foi a vez do meu apartamento.
Michael notou a cor que tingia seu rosto e no conseguiu desviar os olhos do quadro fascinante. Na noite anterior ela estivera muito plida. Cabelos prateados, pele clara, lbios azulados... Mas agora um rubor acentuava as faces delicadas. Os lbios tambm haviam recuperado o tom normal. Os olhos azuis pareciam ainda mais cintilantes em contraste com a pele de porcelana.
Sacudindo a cabea, percebeu que ela havia parado de falar.
	Desculpe. Estava falando sobre... trinta e sete centavos?
Ela mordeu o lbio novamente, acentuando a colorao da boca carnuda.
	Dizem que  uma atitude normal entre as grvidas. Li muito a respeito, mas nem percebi que estava acontecendo comigo. Era como se estivesse preparando o ninho.
Ele ergueu as sobrancelhas.
	Deixando tudo pronto, entende? Fui dominada por uma compulso de limpar e arrumar, realizar tarefas pendentes. Conheo duas pessoas que fazem aniversrio em maro, e ontem fui tomada por uma inexplicvel urgncia de comprar cartes de felicitaes e coloc-los no correio.
Nada do que ela dizia se relacionava ao paradeiro de Sabrina, e no queria saber mais nada sobre essa mulher. Nem sobre seus amigos, nem sobre o impulso de preparar o ninho, nem sobre o formato intrigante da boca rosada.
	Quanto a Sabrina...
A entrada de trs funcionrias do hospital obrigou-o a parar. Duas delas usavam aventais com as cores da maternidade, e uma terceira vestia um traje elegante. Fitou-as com alguma irritao e descobriu que conhecia duas delas.
	Ol, Deborah. Eve.  Havia namorado Deborah, a que vestia saia e jaqueta, cerca de dois anos antes. Eve fora sua acompanhante no ltimo Halloween.
	Michael!  Eve no escondia a surpresa.
Deborah reagiu mais depressa.
	Pensamos t-lo visto entrando neste quarto.
	Estava conversando com a srta. Masterson.
	Srta. Masterson?  Deborah riu.  Tenha d! Vimos a foto no jornal.
De repente lembrou-se por que desistira do namoro com Deborah. Ela sempre repetia aquela mesma expresso, tenha d, quando queria iniciar uma discusso. Um olhar para Beth foi suficiente para descobrir que estava to incomodada quanto ele com a conversa.
	Veio falar comigo ou com a paciente?
As trs mulheres pareciam embaraadas. Deborah tomou a iniciativa.
	Vim buscar os papis da internao.  E encarou a paciente.  J terminou de preencher todos os formulrios que deixei h algumas horas?
Michael esperou impaciente enquanto Beth apanhava uma pasta sobre a mesa-de-cabeceira. Precisava concluir o interrogatrio e sair dali o mais depressa possvel. Ser surpreendido no quarto da jovem me poria em movimento as lnguas mais ferinas de Freemont JSprings, e no queria pensar no contedo dos boatos que circulariam pela cidade.
Como se precisassem de incentivo depois da foto publicada pelo jornal naquela manh.
De posse dos documentos, as trs mulheres aproxima-ram-se da porta. Michael s esperou que elas sassem para retomar o assunto.
	Quanto a Sabrina?  Quanto mais cedo obtivesse a informao, mais cedo poderia sair dali e reconstruir sua reputao de solteiro inabalvel.  Prometo que a deixarei em paz assim que contar-me tudo que sabe sobre essa mulher.
Beth apoiou-se na cama.
	Vi a foto e o artigo sobre a pesquisa que sua famlia est fazendo em um jornal de Tulsa na semana passada. No soube exatamente o que fazer...  Encolheu os ombros.  Mas ontem  noite decidi que .tinha de lhe contar tudo que sei.
Michael prendeu o flego. Estava prestes a obter a informao de que a famlia necessitava para localizar a me do filho que seu irmo no veria nascer.
	E ento?
Beth hesitou, mordeu o lbio e ergueu os ombros como se houvesse tomado uma deciso.
	Sabrina est aqui em Freemont Springs. Ou pelo menos estava, h duas semanas. Participamos juntas do curso pr-natal. 
Na cidade!
	Obrigado, Beth.  Uma onda de alvio o invadiu.  No tem ideia do que isso significa para ns... para meu av.  Se estivesse realmente no caminho certo...  Seria capaz de beij-la por isso.
	E talvez por isso tambm  Deborah opinou ao passar pela porta aberta.
O sorriso desapareceu dos lbios de Michael, que se virou para encar-la.
	S vim confirmar as informaes fornecidas para o preenchimento da certido de nascimento de seu filho, srta. Masterson.  Debrah mostrou os papis em sua mo.  Sua caligrafia est um pouco trmula, o que  compreensvel para algum que deu  luz h poucas horas.
Michael olhou para Beth e viu que seu rosto estava vermelho como um tomate.
	 M-I-C-H-A-E-L. Michael, certo?  Deborah perguntou sorridente.  Quer chamar seu filho de Michael Freemont Masterson?
Michael apertou o boto luminoso do elevador como se quisesse afund-lo no painel. Michael Freemont Masterson. Sara do quarto de Beth como se mil demnios o perseguissem depois de ouvir isso. Michael. Ela dera seu nome ao beb!
Esperou sentir raiva, ou pelo menos alguma irritao. Quando um solteiro convicto era aprisionado em uma situao delicada como aquela diante dos olhos de toda uma cidade, a ltima coisa que desejava era que a criana em questo recebesse seu nome. V em frente, Wentworth, disse a si mesmo. Tem todo o direito de estar furioso.
As portas do elevador se abriram e Michael passou ao saguo do hospital. No caminho para a sada havia um balco com os jornais do dia. USA Today. Wall Street Journal. Freemont Springs Daily Post.
Seu melhor amigo Elijah Hill comprava uma cpia da publicao local.
Maldio!
	Michael, Michael, Michael.
Perdeu a esperana de sair sem ser visto. Usando jeans, botas e chapu de caubi, Elijah era a imagem do rancheiro de Oklahoma... exatamente o que ele era.
	No devia estar em casa cuidando dos animais?  Michael perguntou. Se no desse uma abertura ao amigo, talvez conseguisse evitar o interrogatrio.
	O velho Gus cortou a mo esta manh. Tive de traz-lo para levar alguns pontos.
Michael encarou-o desconfiado. O velho Gus tinha mos mais duras que couro de sapato.
	Pensei que houvesse montado toda a estrutura mdica para cuidar dos acidentes no rancho.
	Gus precisava de uma vacina contra ttano.  Elijah riu.
- Por acaso est pensando que o segui at a cena do crime?
Michael no ficaria espantado com isso.
	Sem o velho Gus, deve estar com falta de mo-de-obra. E melhor voltar para casa.
O sorriso de Elijah tornou-se mais amplo.
	E perder essa chance de parabeniz-lo? Podia ter confiado em um velho amigo. No precisava ter deixado aquele recado mentiroso sobre preferir ficar em casa na noite do Ano-Novo.
Michael suspirou.
	Foi uma coincidncia, est bem?
	Quer dizer que o destino traou planos para voc? Michael respirou fundo.
	Quero dizer que ajudei algum em apuros. Deixe-me em paz, est bem? Meu av j fez todas as perguntas que podia suportar esta manh. Elijah riu e mostrou o jornal.
	Joseph j ficou sabendo disso?
	Tem alguma dvida? Cus, gostaria que ele voltasse para Oklahoma e assumisse seu posto na Wentworth Oil Works, em vez de ficar metendo o nariz nos meus assuntos.
	A nica maneira de devolver o velho  mesa dele e abandonar a sua. Pense bem. Aquele pedao de terra que comprou ao lado do meu rancho est pronto para ser usado. Vamos iniciar uma sociedade e construir o melhor estbulo de quartos de milha do pas.
Michael passou a mo nos cabelos.
	Pela milsima vez, Elijah, no tenho o dinheiro necessrio. Graas a meu av, que me fez aceitar um salrio em aes e quele fundo de penso que retm meu dinheiro at que eu complete trinta anos ou me case, no disponho de capital para uso imediato.
Elijah balanou a cabea.
	Talvez o casamento no seja uma m ideia, amigo.
 E mostrou a foto no jornal.  Pense no tipo de confuso em que est se metendo como homem solteiro.
Embora o retrato em preto-e-branco no fizesse justia  colorao de Beth, os traos delicados podiam ser vistos claramente. Mas o beb ainda parecia um amendoim com braos e pernas.
O beb.
	Quer saber que nome ela deu ao filho?  perguntou, antecipando mais uma vez a raiva e a irritao.  O meu.
O garoto se chama Michael. O que acha disso?
Elijah encarou-o boquiaberto, tomado por uma mistura de espanto e humor.
	Quer mesmo saber o que eu penso? E melhor fazer dela uma mulher honesta, meu caro. Assim, poder pr a mo no seu dinheiro e teremos o capital necessrio para a nossa sociedade.
Qual era o problema com Elijah? Casar-se com Beth? E por que ele ria, quando Michael estava furioso com a histria sobre o beb?
S precisou de mais um momento para entender a reao do amigo. Havia um espelho sobre o balco dos jornais. Apesar da mente racional afirmar que devia estar irritado, o rosto exibia um sorriso idiota como aquele ostentado pelos pais mais orgulhosos.
Beth havia acabado de acomodar o filho de trs semanas no bero depois da mamada das cinco e meia da manh, quando ouviu as batidas na porta. Devia ser Bea Hansen, que todos os dias ia ao apartamento sobre a padaria com uma xcara de caf quente e pes frescos ou outra guloseima recm-sada do forno. Os profissionais desse ramo estavam habituados a sair da cama muito cedo.
A mulher de cabelos grisalhos atravessou a soleira com uma bandeja contendo duas xcaras fumegantes e dois bolinhos de aroma tentador.
Beth respirou fundo e sorriu.
	Vai acabar me deixando mimada.  E apontou para uma das poltronas do modesto apartamento.  Sente-se.
Bea encarou-a depois de acomodar-se.
	Hoje voc no parece to desgastada. A mamada das duas da madrugada correu bem?
	Muito bem.  Beth segurou a xcara sob o nariz e aspirou o perfume da bebida escura.  Agora que encontrei o noticirio da madrugada numa emissora de tev, tudo se tornou mais fcil.
Bea sorriu, os olhos cercados por linhas que se tornavam mais profundas dependendo da expresso do rosto.
	Ainda me lembro de como essas mamadas noturnas Podem ser solitrias.
Solido.
O sorriso de Bea desapareceu.
	Est me deixando muito preocupada, querida. Sem marido, sem me...
	Tenho o beb.
Solido.
Ele teria de bastar, porque nunca teria uma me. E quanto ao marido...
	Mas sem uma famlia para...
Bea a interrompeu mais uma vez tocando seu ombro com delicadeza.
	Um amigo leal vale mais do que dez mil parentes.
	Ento j tem o equivalente a vinte mil em Millie e eu. E, no entanto, no nos deixa ajud-la...
	Que tipo de ajuda tem em mente?  Beth sorriu.  J me deram um emprego e um lugar para morar.
	Mas pagamos pouco mais que um salrio mnimo por seu trabalho no balco e pela organizao dos livros contbeis.
	E a chance valiosa de obter experincia.  Beth bebeu um pouco do caf.  E no esquea o caf da manh.
	Mas estamos prestes a expuls-la do apartamento.
	Este seria o lugar onde a me de Millie viria morar. Vocs me preveniram desde o incio, Bea.
	Sim, eu sei, mas me preocupo com isso. Se ao menos...  Bea parou e balanou a cabea, os olhos uuminados por um brilho familiar. Em silncio, virou-se para olhar a foto publicada pelo Daily Post. Beth havia emoldurado o retrato e encontrado um lugar de honra para ele na parede entre o bero e sua cama de solteiro.  Se ao menos Michael Wentworth...
De repente tinha a impresso de que o corao parava de bater.
	No comece  preveniu a amiga e protetora. Bea e Millie, adorveis mexeriqueiras que eram, inventavam histrias onde elas no existiam. E por alguma razo acreditavam em um romance imaginrio entre ela e Michael.  Sabe que ele s estava me fazendo um favor quando foi envolvido nessa confuso.
Apesar de ter recebido caixas de fraldas descartveis, roupas e alimento infantil em funo do artigo publicado no jornal, sabia que a nica coisa que Michael recebera por conta da publicidade fora constrangimento. A padaria de Bea e Millie atraam um grande segmento da populao de Freemont Springs, e os clientes comentavam sobre o desespero de Michael Wentworth para recuperar sua reputao de solteiro inatingvel.
E fora atravs desses mesmos clientes que descobrira que, apesar da informao que oferecera, a famlia Wentworth ainda no localizara Sabrina.
	Bem  Bea levantou-se e chegou mais perto do retrato ,ainda acho que Michael Wentworth devia encontrar uma boa mulher e acomodar-se.
	Sabe muito bem que no estou interessada nele...  calou-se, notando uma evidncia incriminadora escapando de debaixo do travesseiro sobre a cama ainda desfeita.
O casaco de pele de carneiro de Michael Wentworth.
Em p, controlou-se e no fez nenhum movimento para aproximar-se da cama. Bea certamente veria o casaco, e h alguns dias Beth jurara t-lo devolvido.
Pretendia mesmo devolv-lo, especialmente depois de a amiga t-la encontrado enrolada nele enquanto amamentava o beb. Beth o vira sobre uma poltrona na primeira noite que passara em casa depois de sair da maternidade, e o jogara sobre os ombros durante a mamada das duas da madrugada. Atravs da flanela fina da camisola sentira o conforto oferecido pela pele macia.
Chegou mais perto da cama, movendo-se bem devagar. Se Bea soubesse que ainda tinha o casaco, ningum mais a demoveria da inteno de aproxim-la de Michael.
Olhou para a jaqueta mais uma vez. Seria melhor empurr-la para baixo do travesseiro, ou jog-la no cho do outro lado da cama?
	Fale-me um pouco mais sobre esse novo lugar que encontrou para morar.  Bea virou-se de repente.  Disse que alugou metade de um duplex?
Beth fez um grande esforo para no olhar para o casaco. 
	Foi muita sorte  disse. Era verdade. Apartamentos aratos na prspera Freemont Springs eram quase inexistentes.  O sr. Stanley parece ser uma boa pessoa. 
	 Oh, sim, desde que no faa barulho, economize energia eletrica e no produza mais que um saco de lixo por semana.
Beth suspirou. Havia essa preocupao. O homem impusera algumas regras que eia e o beb teriam de respeitar. S lamentava que fraldas descartveis no pudessem ser compactadas como latas de alumnio.
O suspiro de Bea foi um eco do dela.
	Voc precisa de um homem, e no me refiro a Ralph Stanley.
Um homem? No podia pr em risco o corao mais uma vez, no depois de ter sido abandonada por Evan de maneira to fria e irresponsvel.
	J tenho o nico homem de que preciso. Ele tem trs semanas de idade e est dormindo como um anjo.  Era impossvel no sorrir quando falava sobre o filho.
Bea tambm sorriu.
	Seu beb  mesmo um anjo.  E aproximou-se do bero.
Beth deu mais alguns passos na direo da cama. A manga do casaco de Michael Wentworth podia ser vista sob o travesseiro, e seus dedos encontraram o tecido frio e impermevel que cobria a pele de carneiro.
	O que temos aqui?
A voz de Bea a fez pular. Assustada, virou-se para a mulher, usando o prprio corpo para impedi-la de ver o casaco. Entre os dedos de sua amiga e protetora havia uma chupeta.
Bea olhou para Beth e balanou a cabea.
	Meu marido nunca gostou da ideia de dar chupetas aos nossos filhos.
Beth sentou-se sobre o colcho e, ao mesmo tempo, puxou as cobertas sobre o travesseiro a fim de esconder o casaco.
	Pelo menos no tenho de me preocupar com isso.  Sob o lenol, deixou os dedos deslizarem pelo tecido como se habituara a fazer nas ltimas semanas.
Bea encarou-a com ar desanimado.
	E mais corajosa do que eu jamais fui.
	Uma viva que conseguiu criar uma empresa bem-sucedida? Voc  a mulher mais corajosa que j conheci!
	Mas contei com a ajuda de meu marido para criar meus filhos. Um homem que me amava e amava nossos bebs.
Beth segurou o casaco com mais fora.
	Estou bem, Bea. No se preocupe.  Jamais diria o contrrio.
Mais um suspiro escapou do peito da velha amiga.
	Preciso voltar ao trabalho .ela anunciou relutante.
Aliviada, Beth a viu ajeitar o cobertor sobre o corpo do beb e atravessar o cmodo em direo  porta.
	At logo, Bea  disse.  Pode contar comigo para o planto desta tarde.
A visitante parou com a mo na maaneta.
	No se sente sozinha, querida?  perguntou em voz baixa.  No  pecado admitir a solido.
Mas para ela era pior que pecar.
Depois de anos de prtica o sorriso de Beth adquiria uma luz intensa com facilidade espantosa, quase que de maneira automtica.
	J disse que estou bem. Muito bem.
A porta se fechou atrs da dona da padaria.
Num gesto involuntrio, Beth puxou o casaco que havia escondido sob o travesseiro e enterrou o rosto no tecido macio. O material retinha o perfume de Michael Wentworth, uma fragrncia mscula que tinha um poder mgico de dispersar...
Recusava-se a pensar na palavra.
	Solido.  Era como se no tivesse controle sobre o que dizia.
Solido... solido... solido... O pensamento ameaador ecoava pelas paredes como gritos assustadores, fazendo com que ela sentisse vontade de tampar os ouvidos com as mos.
Em vez disso, jogou o casaco no cho como se ele fosse o culpado de tudo. E talvez fosse. No por tudo, mas pela fraqueza inusitada que ameaava domin-la. Tivera dvidas no meio da noite. Uma espcie de vazio que sentira em algum recanto da alma, mesmo quando havia segurado o adorado filho bem perto do peito.
O casaco precisava desaparecer. Naquele mesmo dia.
Porque Beth Masterson jamais admitira a solido.

CAPITULO III

Michael sentou-se na cadeira de executivo no escritrio da Wentworth Oil Works e olhou para as pastas empilhadas sobre a mesa. Usando o polegar e o indicador, puxou uma delas e viu a pilha desabar sobre a superfcie de mogno polido.
Depois respirou aliviado. No havia nada escondido ali. Nem chupetas, nem charutos de chocolate, nem panfletos divulgando uma nova loja de artigos para bebs.
Nada.
Mais um suspiro escapou de seu peito. Levara trs semanas, mas finalmente conseguira se livrar das brincadeiras.
As piadas haviam se esgotado.
Reuniu as pastas, empilhou-as novamente, e imediatamente arrependeu-se. De onde viera tudo aquilo? Uma tarde passada fora do escritrio em reunies e os papis multiplicavam-se como pulgas em um cachorro. Os papis e os problemas...
Joseph partira novamente para Washington depois de uma rpida estadia na cidade, deixando a empresa no que chamava de "mos capazes" de Michael. Capazes... Sabia que devia apreciar a confiana, mas era impossvel no sentir uma certa irritao diante da recusa do av em perceber a relutncia dessas mesmas mos.
O velho era cego quando queria ser e um manipulador habilidoso durante o tempo todo. Michael sentiu os primeiros sinais de uma terrvel dor de cabea. A menos que conseguisse encontrar uma forma de obrigar Joseph a retornar
 sua mesa, corria o risco de passar o resto da vida trancado naquele escritrio.
Olhou para o memorando deixado sobre sua mesa. "Para 0 sr. Michael Wentworth, da Wentworth Oil Works." Wentworth. Todos os dias aquele nome," as responsabilidades e a famlia pesavam sobre seus ombros como uma maldio.
O som do interfone interrompeu sua reflexo.
	Sim, Lisa? Algum problema?
	H uma... visita para o senhor.
Michael entendeu a razo da pausa apreensiva da secretria assim que a viu introduzir a anunciada visita em sua sala. Eram duas pessoas, e ningum teria sido capaz de causar incmodo maior, exceto o fiscal da receita federal, talvez.
Ele gemeu. Alto. Porque justamente quando as piadas sobre sua suposta paternidade chegavam ao fim, acontecia algo capaz de faz-las recomearem com fora triplicada.
Um dos visitantes dormia em carrinho muito velho, porm limpo. Um traje impermevel e um espesso cobertor protegiam o pequeno Michael Freemont Masterson do frio intenso que assolava a cidade. A segunda visitante era Beth. Ela vestia a velha jaqueta impermevel, e a cabea era protegida por um xale de l vermelha. Sob um brao levava o casaco de pele de carneiro que pertencia a Michael.
E sorria hesitante.
	Vim devolver seu casaco. Lamento ter demorado tanto.
Michael olhou para o relgio. E se a visita durasse apenas quarenta e cinco segundos? Talvez ningum tomasse conhecimento dela. Olhou para Lisa, que permanecia parada na porta, e tentou transmitir uma mensagem silenciosa. Nem uma palavra a respeito do que est vendo aqui. E agora acompanhe a moa at a sada.
Incapaz de interpretar o olhar intenso do chefe, Lisa deu alguns passos  frente e apanhou o casaco.
	Sente-se, srta. Masterson. Quer alguma coisa? Um ch, ou um caf?
Michael abriu a boca numa reao chocada. Lisa nunca oferecia nada a ningum. Se ele, o chefe, quisesse caf, tinha de interromper o trabalho para servir-se.
Beth sorriu para Lisa como se compreendesse a honra que acabara de merecer.
	Uma xcara de ch? Sim, obrigada. Preciso mesmo aquecer minhas mos.
	Devia usar luvas  Michael disparou irritado. Com tom mais controlado, acrescentou.  Por que no se senta?
Apreensivo, viu Beth empurrar o carrinho para perto da cadeira de visitantes colocada diante de sua mesa. Quanto tempo algum podia levar para beber uma xcara de ch? Noventa segundos, no mximo.
Com movimentos rpidos, ela tirou a jaqueta e o xale com que protegia a cabea.
Michael permaneceu imvel, sem saber que parte dela atraa seu olhar de maneira to irresistvel. Anteriormente, nunca tivera oportunidade de v-la se no coberta por casacos, cobertores ou camisolas de hospital. E pelos cabelos louros e lisos.
	Voc os cortou  disse com tom atordoado.
	Assim  mais fcil.  Beth deslizou a mo pelos cabelos curtos. Apesar de serem ligeiramente mais longos que os de um menino, era possvel ver claramente o contorno perfeito da cabea. Os olhos pareciam maiores e a boca exibia um contorno mais acentuado e cheio, como se todos os traos houvessem sido realados pelo novo penteado.
	Sente-se.  Temendo descobrir novos detalhes no rosto ou no corpo da visitante, apontou para a cadeira no mesmo instante em que Lisa entrou na sala com uma xcara fumegante.
A secretria parou para admirar o beb antes de olhar para Beth e entregar a xcara.
	No acredito que tenha tido um filho h trs semanas 
comentou sorrindo.  Ningum recupera a forma to depressa.
A culpa era de Lisa. Tentara no olhar, mas como ignorar um objeto de comentrios to veementes? Sim, antes Beth escondera-se sob jaquetas, casacos e cobertores, mas agora usava cala jeans e um suter branco e justo.
Beth sorriu para Lisa.
	Sempre fui magra demais. Algumas destas curvas foram adquiridas recentemente.
Agora era Beth a culpada por estar analisando seu corpo sedutor. Sim, era possvel notar a silhueta esguia, mas se as curvas haviam mesmo sido adquiridas recentemente, ento o parto fora um grande amigo.
De repente se deu conta de que as duas mulheres o encaravam. Teria feito algum som? Talvez houvesse gemido!
Srio, olhou para o relgio mais uma vez. No conseguia lembrar quando Beth havia chegado, mas era evidente que estava ali h mais tempo do que aconselhava o bom senso.
Ela bebeu um pouco do ch e interpretou o sinal de maneira correta.
	Preciso ir embora. Tenho de voltar  padaria.
	Padaria?  Michael franziu a testa e viu Lisa sair da sala e fechar a porta em silncio.  Oh, sim, voc disse que trabalhava l. Mas j voltou ao trabalho?
	Bea e Millie precisam de mim  disse, levantando-se para partir.
Um estranho desconforto o invadiu.
	Precisa repousar., Bea e Millie podem suportar mais alguns dias sem sua ajuda.
Beth respondeu com um sorriso polido e deixou a xcara sobre a mesa.
	Obrigada mais uma vez pelo casaco... e por tudo que fez por mim.
No gostava de v-la sair daquela maneira para a tarde gelada. Ainda no.
	No quer saber sobre Sabrina?
Ela vestiu a jaqueta.
	Acha que est bem agasalhada? No quer ficar com o casaco de pele de carneiro?
	No, obrigada. Ia dizer alguma coisa sobre Sabrina?
	Graas a voc, descobrimos que ela esteve na cidade. E soubemos inclusive onde estava hospedada.  Sentia-se culpado por no ter ido procur-la para contar o que haviam descoberto a partir de sua valiosa informao. E tambm devia ter comprado um presente para o beb. Mas estivera to preocupado com os rumores espalhados pela cidade que evitara todo e qualquer contato com ela.  Infelizmente, Sabrina desapareceu novamente.
	Oh, sinto muito. Espero que a encontrem.  E ps a mo no bolso da jaqueta para apanhar um molho de chaves.
Michael pensou em Beth dirigindo de volta  padaria.
	O aquecedor de seu carro no havia quebrado? Posso providenciar algum para...
	Est funcionando outra vez.  E ajeitou o xale em torno do pescoo.
	No tem tempo para uma visita mais longa?  No sabia o que o levara a fazer uma pergunta to estpida.
Ela olhou para a mesa coberta por papis.
	Creio que  voc quem no tem tempo para uma visita mais longa.
	Oh, isso no  nada.  Apenas a corrente que o mantinha preso  empresa.  Ainda nem me contou sobre seu filho.  E olhou para o beb adormecido no carrinho. O rosto parecia mais redondo e os lbios executavam movimentos de suco em intervalos irregulares.
	Eu o chamo de Mischa.
Um estranho e inesperado desapontamento o invadiu.
	Ento mudou  nome...
	No.  apenas um apelido. A forma russa para Michael.
Beth empurrou o carrinho para a porta e ele notou que uma roda estava torta. No conseguia pensar em outra razo para faz-la ficar.
	No queria cham-lo de Michael?  A pergunta estpida brotou de seus lbios como se no tivesse nenhum controle sobre o que dizia.
Beth parou. Devagar, olhou por cima de um ombro sem se preocupar em esconder o rosto tingido por um rubor to intenso quanto o xale que protegia seu pescoo.
	Acho que pensei que s existia um deles  disse antes de partir.
Pela janela do escritrio, Michael a viu transferir o beb do carrinho para o automvel e partir. Depois saiu da sala e parou na recepo, onde Lisa parecia estar muito concentrada no fax.
Sua secretria era casada e me de dois filhos. Lembra-va-se de ela ter tirado licena maternidade nas duas ocasies. Algo em torno de trs meses. Talvez mais.
	Uma mulher no deve repousar depois de ter um beb?
Lisa leu o documento que acabara de receber pelo fax.
	Depois de dar  luz, uma mulher merece uma empregada e a companhia constante da me por pelo menos seis meses.
	Ou seja, ela no deve voltar ao trabalho imediatamente. Lisa encolheu os ombros.
	Algumas no tm escolha. Criar um filho custa caro. Jaqueta velha. Carrinho com uma roda torta. Automvel
com o aquecedor quebrado.
	No gosto disso  Michael murmurou.
	Vai gostar menos ainda do que tenho aqui.  Lisa colocou o fax na mo dele.
Michael leu o documento uma vez, duas, trs...
Joseph Wentworth propunha a nomeao de Michael Wentworth para o caro de presidente da Wentworth Oil Works. O cargo que antes fora de Jack.
Maldio. Michael amassou o papel. Ento o velho acreditava poder acorrent-lo para sempre  empresa e  famlia?
	Ele no vai conseguir, Lisa.
	No sei o que vai fazer para impedir, chefe.
Ele jogou o papel amassado no cesto de lixo e olhou para a caixa de entrada de correspondncia. Mais uma fotocpia da foto publicada pelo Daily Post. Algum desenhara um balo sobre sua cabea no retrato, mas ele nem se deu ao trabalho de ler o que estava dentro do desenho.
Otimo! Uma visita de trs minutos e as piadas j haviam recomeado.
Essa era a ltima coisa de que precisava. Uma nomeao para presidente e mais especulaes em torno de seu estado civil.
Seu estado civil. Michael parou, a mente tomada de assalto por uma ideia digna de Einstein. Tudo bem, a ideia fora de Elijah, mas s ele poderia torn-la realidade.
	Wentworth, voc  um gnio  sussurrou.  Com essa ideia todos sairo ganhando.
Meia hora para considerar os planos. Dez minutos para dirigir-se  Padaria Freemont Springs. Um minuto e meio para descobrir que Beth estava em seu apartamento e ir bater na porta no alto da escada.
Mais um instante e ela apareceu do outro lado da soleira.
Com o frio de janeiro atrs dele e a expresso confusa diante de seus olhos, Michael decidiu ir direto ao assunto.
	Quero me casar com voc.
Beth encarou-o sem compreender o significado das palavras, consciente apenas do roupo velho que vestira sobre o corpo ainda molhado do banho. Grotas geladas escapavam da toalha que enrolara na cabea, escorrendo pelo pescoo.
O homem parecia ter um prazer sdico de surpreend-la sempre nos piores momentos. Tomara o cuidado de vestir a melhor cala jeans e um suter apresentvel quando fora visit-lo no escritrio, mas ao chegar em casa Mischa regurgitara em sua blusa e a obrigara a tomar o segundo banho do dia.
Pensando bem, devia estar surpresa por Michael s ter chegado depois da ducha.
	Ouviu o que eu disse?  Ele entrou e fechou a porta, aproximando-se mais do que pretendia.
Beth recuou um passo, as mos apertando a faixa em torno da cintura. O terno escuro e a gravata de seda eram muito parecidos com os que via nos executivos dos filmes e das novelas da tev, ou nos diretores que visitavam o orfanato esporadicamente. No se parecia em nada com um homem propondo casamento.
Casamento?
Beth engoliu em seco e recusou mais um passo.
	O que foi que disse?
	Acabei de pedi-la em casamento.
Um arrepio intenso percorreu seu corpo.
	Voc no pediu  respondeu.  Disse apenas que quer se casar comigo.
	E verdade.
O sorriso a envolveu como uma nuvem quente. Beth cruzou os braos sobre o peito, tentando afastar um segundo arrepio.
	Isso no faz sentido  disse. Olhou para o bero onde Mischa emitia os rudos que costumava fazer quando estava acordando.
	 claro que faz sentido  Michael respondeu. Sem pedir licena, atravessou a sala e foi sentar-se na poltrona florida.  Todos tm a ganhar.
Beth aproximou-se do bero e pegou o filho nos braos antes que os gemidos se transformassem em berros. Ele piscou e acalmou-se ao sentir o calor de seu corpo.
	Ol, beb  sussurrou, tentando ganhar tempo.
Segurando o menino contra o peito como um escudo, finalmente encarou Michael.
	No estou entendendo. Do que est falando?
Ele bateu as mos contra as coxas e se levantou.
	Desculpe-me se no estou sendo claro. Deve ser a alegria provocada pela ideia. Devia ter pensado nisso h semanas.
Alegria? Parecia realmente satisfeito, feliz e entusiasmado, e um novo arrepio percorreu suas costas. H quanto tempo um homem no olhava para ela daquela maneira? Rindo, excitado, como se fosse aquela que ele escolhera. Pensou em todos os detalhes da conversa.
Michael havia dito que queria se casar com ela.
Depois de acomodar Mischa na cadeira de beb sobre a mesa de caf, removeu a toalha da cabea com um gesto embaraado.
	Desculpe. Acabei de sair do banho.
Queria se casar com ela.
O sorriso satisfeito tornou-se mais amplo em seu rosto.
	No me importo com sua aparncia. S preciso de seu nome numa certido de casamento.
Casamento. Pertencer a algum. Formar uma famlia com Michael e Mischa. Sonhos que h muito julgava mortos desabrocharam em sua mente.
	No pode estar falando srio  murmurou, embora a imaginao o colocasse em sua casa, na cama, as mos fortes tocando seu corpo. Apesar de Michael ser pouco mais que um estranho, a imagem teve o poder de contrair seu estmago.
	E claro que estou falando srio. Voc. Eu. Um casamento de convenincia. No  assim que chamam esse tipo de unio?
O bom humor do sujeito era to contagiante que ela quase sorriu. Ento a realidade a atingiu como uma bofetada.
	Um... casamento de convenincia?
	Exatamente. Assinaremos um acordo pr-nupcial bem claro, mas depois nos casaremos, eu deixarei a companhia, porei as mos no dinheiro do fundo, comearei a criar cavalos, e voc ter de volta sua liberdade e dinheiro suficiente para garantir seu futuro e o de seu filho.
Falava com tanta certeza que ela quase concordou.
	Espere um minutodisse, esfregando a toalha nos cabelos molhados como se assim pudesse contribuir para um raciocnio mais claro.  Agora vai dizer que tem uma propriedade de frente para o mar de Oklahoma para vender, certo?
Ele se aproximou com passos rpidos,
	O que tenho  um av patriarcal e autoritrio que se recusa a reconhecer que o lugar dele  no comando dos
negcios da famlia, lugar que no pretendo ocupar por muito tempo. Tenho de fazer alguma coisa, ou ele vai acabar adoecendo buscando explicaes para a morte de meu irmo Jack, enquanto eu enlouqueo naquele maldito escritrio.
Beth ouvira falar sobre a morte recente de Jack Went-worth. Tomara conscincia inclusive da reputao de Joseph Wentworth, um homem teimoso, porm de grande sucesso nos negcios.
	Ainda no consegui entender onde  que eu entro nessa histria.  Por que Michael fora procur-la?
	Bem, esse  mais um dos ns da famlia... um fundo de penso que s poderei usar dentro de trs anos. A menos que me case antes disso.
Michael falou sobre os cavalos que pretendia criar com o amigo Elijah. Quartos de milha. Garanhes. O que ela sabia sobre o assunto resumia-se ao que era discutido nos programas de tev sobre o velho oeste, mas o entusiasmo na voz dele era suficiente para pintar uma imagem ntida de seu sonho.
	E onde  que eu entro nisso?  perguntou, emergindo do devaneio.
Ele abriu os braos e sorriu.
	Voc ser a esposa temporria.
Beth engoliu em seco.
No acha que um casamento s deve acontecer por... amor? Rindo, Michael desprezou a ideia com um gesto descuidado.
	Romance  muito bom nos livros e novelas.
	Mas voc no...
	No diga mais nada  ele a interrompeu.  Apenas pense. Meu av ter aquilo de que precisa. Eu terei o que considero necessrio. E voc tambm ter aquilo de que necessita.
E o que, exatamente,  isso?
	No sei...
	Esse  o problema.  Michael segurou a ponta da toalha que ela apertava entre as mos e puxou-a para mais perto.  No est vendo aquilo que eu vejo.
Seus olhos eram castanhos e profundos. O perfume que emanava do corpo msculo era o mesmo que tantas vezes sentira no casaco de pele de carneiro: quente, excitante... sensual.
	E o que voc est vendo?  Beth perguntou, passando a ponta da lngua para umedec-los. De repente sentia-se feminina e atraente, como se o mundo estivesse a seus ps.
O ar no alcanava seus pulmes.
E ento, subitamente, Michael soltou a ponta da toalha e afastou-se.
	A verdade  que sei que est precisando de ajuda. Acaba de ter um beb, e essa criana necessita de cuidados.
O mundo parou de girar depois disso. Tudo se tornou muito claro. Michael queria uma esposa conveniente e temporria e havia pensado nela. Por causa de Mischa. Porque tinha pena dela. No a via como uma pessoa, muito menos como uma mulher.
Passara os primeiros dezoito anos de sua vida aceitando esmolas. H cinco anos havia jurado nunca mais aceitar a caridade de ningum.
Foi com alvio que descobriu que Michael sabia manter as boas maneiras, embora no gostasse de ouvir um no como resposta.
Michael parou no alto da escada que levava ao apartamento de Beth.
Qual era o problema com ele?
Jamais aceitara um no como resposta.
Talvez houvesse se deixado distrair do objetivo pelo corte de cabelos, ou pelo perfume de sabonete emanado pela pele nua. Aquele roupo fino...
Aborrecido, ps as mos nos bolsos da cala. Estivera to perto de conseguir tudo com que sempre sonhara, e no final acabara perdendo tudo.
Onde havia errado? No havia exposto todas as vantagens? Explicara que seria apenas um acordo temporrio e que Mischa teria seu futuro financeiro garantido.
Tinha de insistir mais uma vez.
Determinado, virou-se para bater na porta. Mas o instinto o fez parar antes de concluir o gesto.
Uma mulher atraente. Uma criana com seu nome. Mesmo que s permanecessem casados por alguns poucos meses, seria difcil recuperar a reputao de solteiro convicto.
Ou no?
No. Os Wentworth nunca enfrentavam problemas com as mulheres.
Por outro lado, h sempre uma primeira vez para tudo.
Indeciso, Michael ouviu o telefone tocar no interior do apartamento e aproximou-se da porta. Mischa chorava alto, mas era possvel ouvir a conversa com um certo sr. Stanley, obviamente um futuro senhorio. Mesmo acompanhando apenas metade da conversa, podia dizer que o tal homem no era exatamente um modelo de pacincia.
Ele no queria permitir que Beth retornasse a ligao mais tarde.
E havia perguntado se o beb chorava daquela maneira com frequncia.
Tambm discutiam algo sobre fraldas e sacos de lixo, alguma coisa que no fazia sentido.
E finalmente Beth perdeu o que parecia ser o nico apartamento disponvel em Freemont Springs, pelo menos para sua disponibilidade financeira.
Um homem mais polido no teria escutado a conversa.
Um homem mais gentil a deixaria lidar com seus problemas pessoais em paz.
Mas Michael crescera sentado sobre os joelhos do autoritrio Joseph Wentworth, e aprendera muito com o av.
Depois de bater na porta, entrou no apartamento e foi direto ao assunto.
Beth parecia mais plida que alguns minutos antes, e encarou-o com ar confuso.
	Queria que Mischa crescesse aqui  disse.  Freemont  seu nome do meio porque queria que ele lembrasse para sempre qual  seu lugar de origem.
Michael segurou-a pelo brao e levou-a at o sof. Ela sentou-se mantendo o beb aconchegado junto ao peito.
	Gosta daqui?
	Meu carro teve dois pneus furados nos limites da cidade. Eu vinha de Los Angeles- e s havia parado para abastecer e lavar o pra-brisas, at que passei pela placa indicando a entrada para Freemont Springs. Ento... no consegui seguir viagem...
	Decidiu ficar?
	No tinha dinheiro para consertar os dois pneus. E Alice sempre dizia que quando quebramos um ovo o melhor  fazer uma omelete.
Michael ignorou Alice e a omelete.
	Mischa foi o primeiro beb do ano  disse.  Freemont Springs  a cidade onde ele nasceu.
	E isso mesmo. As pessoas daqui so to amigas... Senti que havia encontrado nosso lugar. Mas acabei de perder o nico lugar cujo aluguel poderia pagar.
Odiava v-la infeliz.
Ainda pode refletir sobre aquela soluo rpida e simples.
	Que soluo?
	Case-se comigo, Beth.
	Assim, sem rodeios?
Sabia que ela estava considerando a possibilidade. Havia algo entre eles, uma espcie de fora que desencadeara naquela noite em que segurara a mo dela na maternidade. Talvez antes, quando abrira a porta de sua casa e vira os cabelos de luar.
	Apenas temporariamente.  E engoliu em seco vrias vezes para banir o tremor da voz.  No final, ter dinheiro suficiente para passar o resto da vida aqui, se quiser. Faa isso por Mischa, Beth. Para que ele possa crescer na cidade que o recebeu com tanto carinho  disparou.
Ela o encarou e o azul intenso de seus olhos pareceu iluminar toda a sala.
	No sei.  O beb havia adormecido e ela foi coloc-lo no bero, o mvel mais luxuoso do apartamento.
Devagar, ergueu o corpo e encarou-o novamente. O apartamento era to pequeno que tinha a sensao de poder toc-lo, caso estendesse o brao.
	Alice sempre dizia que quando a oportunidade bate na porta...
Michael ergueu o punho cerrado e sorriu.
	Tum, tum, tum  brincou.
Beth olhou para o beb. Depois fitou-o. Diga sim, Michael suplicou em silncio.
	Sim.
Tomado por uma estranha mistura de alvio e ansiedade, ele percorreu a distncia que os separava sem sequer pensar no que fazia. As mos pousaram sobre os braos delicados e ele a puxou contra o peito. Os seios rgidos encontraram seu corpo e os lbios roaram nos dela.
S isso.
No foi o bastante. Porque ela respirou fundo, tomada pela surpresa, e o som traiu uma intensa excitao, um sentimento que o contagiou de maneira incontrolvel e poderosa.
Quando se deu conta do que fazia, Michael a estava beijando de verdade.

CAPITULO IV

Casamento apressado, arrependimento dobrado.
Alice, a mulher que cuidava das crianas da faixa etria de Beth no Lar Thurston para Meninas, nunca dissera esse adgio em particular, mas as palavras ecoavam em sua cabea mesmo assim. Talvez porque agora, cinco dias depois da proposta de Michael e duas horas aps a cerimnia no cartrio de registro civil, finalmente tinha tempo para ouvir os prprios pensamentos.
E eles no eram exatamente animadores.
No quarto reservado para o beb na manso Wentworth, Beth retirou mais roupas infantis da enorme sacola de papel. A governanta Evelyn no movera um msculo do rosto diante da estranha bagagem, uma velha valise e duas sacolas de compras, nem demonstrara espanto diante do desejo da nova patroa de guardar pessoalmente as roupas de seu filho. Alm de no estar acostumada a ser servida, precisava tran-car-se em um canto daquela casa monstruosa para aquietar o corao e organizar as ideias.
Teria cometido um engano de propores to gigantescas quanto as da manso?
Olhou para Mischa, profundamente adormecido em seu antigo bero. Fizera questo de lev-lo, sua nica extravagncia, e o mvel no parecia deslocado no cmodo de paredes cor de pssego.
Mas seria mesmo aquele o lugar dela e do filho?
O quarto tinha o cheiro do cedro do armrio de roupas de cama, onde havia pendurado as poucas peas que possua. E a cmoda de madeira macia com tampo de mrmore tinha espao suficiente para as roupas de Mischa e suas peas ntimas. A cama estreita em um canto seria um lugar perfeito para dormir.
A cama a fez pensar em Michael, Aceitara um casamento de convenincia, uma unio formal e assexuada. Aquele primeiro pensamento que invadira sua mente quando ouvira o pedido de casamento, a possibilidade de t-lo em sua cama e em sua vida para sempre, morrera rapidamente, como todas as outras ideias romnticas que um dia tivera.
J devia estar acostumada ao desapontamento.
H um ano deixara-se levar por um corao carente. Ingnua, apaixonara-se pelo primeiro sorriso caloroso e pela primeira mo estendida. Mas a gravidez solitria calejara todas as necessidades alheias ao instinto maternal.
Portanto, no precisava se preocupar. Entrara naquele acordo com Michael de olhos abertos, pensando no futuro e na segurana de seu filho. Beth terminou de guardar as roupas de Mischa e pegou a sacola de papel para amass-la e jog-la no lixo, mas parou de repente.
 Vou precisar dela novamente  disse em voz alta.  Em breve.  E dobrou-a com cuidado, deixando-as empilhadas ao lado da valise no armrio perfumado. Um suspiro aliviado brotou de seu peito quando constatou que poderia alcan-las com facilidade.
Como conseguiria lidar com a estranheza daquela situao, do casamento? Como se protegeria das novas tempestades emocionais? Nunca mais seria pega despreparada.
Estava trocando a fralda de Mischa quando algum bateu na porta. Beth sentiu o corao bater mais depressa, porque o som firme no podia ter sido provocado pelas mos delicadas de Evelyn.
Aquele era o som das batidas de Michael.
Seu marido.
Entre  autorizou com voz fraca.
Michael abriu a porta e entrou. Deixara-a em casa depois da rpida cerimnia de casamento, que no havia sido testemunhada por nenhum Wentworth, apenas por dois amigos, porque ele dissera desejar surpreender a famlia com o fato consumado, e seguira para o escritrio. Ainda usava o mesmo terno escuro e a mesma gravata de seda. A aliana com que Beth o surpreendera brilhava em sua mo esquerda.
Distrado, ele a girava no dedo, enquanto Beth tentava conter o mpeto de olhar para a jia que recebera, tambm uma aliana de ouro, porm com pequenas prolas e turquesas cintilantes. Michael fizera um comentrio surpreendente sobre sua escolha ter sido inspirada pelo brilho dourado de seus cabelos e o tom cristalino de seus olhos.
Foi ele quem rompeu o silncio pesado.
	Est indo bem?  No havia um sorriso em seu rosto.
	Sim, obrigada. Mischa e eu estamos bem.  Desde que fora busc-la para a cerimnia, Michael deixara de exibir o entusiasmo e a alegria dos dias anteriores.
Mas um sorriso iluminou seu rosto quando ele olhou para o beb.
	Como vai o rapazinho esta tarde?  E aproximou-se do bero, onde Mischa fora acomodado depois de ter sido trocado.
Beth tambm sorriu.
	Ele no parece intimidado com o novo ambiente, nem com o tamanho e a imponncia da manso Wentworth.
Michael acariciou o rosto do menino, mas olhou para ela.
	E voc? Sente-se intimidada?
Pela casa, no. Pelo homem parado a meu lado, sim. Beth encolheu os ombros. Depois estendeu o dedo para o filho, que o apertou com a pequena mozinha rechonchuda. Michael riu.
	J desfez as malas? Evelyn disse que fez questo de cuidar de tudo sozinha.
O ombro roou o dela. De repente Beth se deu conta de que Michael estava perto demais. Embora houvessem concordado com um casamento assexuado e temporrio, naquele momento, com a porta fechada, o corpo roando o dela, sua presena sugeria intimidade e calor.
	Sobre... sobre o meu quarto...  Tinha de deixar claro que pretendia dormir ali. Evelyn a levara para conhecer os aposentos de Michael, do outro lado do corredor, e no conseguira fazer mais do que sorrir antes de fugir apressada
da atmosfera mscula e perfumada da suite dominada por uma imensa cama de casal.
Tinha de deixar claro que no pretendia dividir com ele aquele cama.
	O que  aquilo?
A voz de Michael a assustou. Ele havia se afastado do bero para examinar a superfcie da pequena escrivaninha colocada perto da janela. Em cima dela havia uma pilha de exemplares da revista Business Week e Wall Street Journal daquele dia.
Satisfeita por poder abandonar temporariamente a discusso sobre as acomodaes noturnas, Beth sentou-se na cama ao lado do bero e afagou os cabelos do filho.
	Trouxe um material de leitura que preciso estudar.
Michael examinou rapidamente os exemplares.
	Voc assina esse tipo de publicao?  E franziu a testa.  E incrvel como no a conheo. No sei quase nada a seu respeito.
Aquela seria uma excelente oportunidade para dizer que tudo que ele precisava saber era que no a teria em sua cama. No entanto, quando abriu a boca, Beth comeou a contar coisas sobre sua vida que no pretendia revelar.
	Estava cursando uma universidade estadual em Los Angeles.  At que Evan, pai de Mischa e aluno do ltimo ano de Administrao de Empresas, se negasse a assumir a responsabilidade pelo beb. Evan acreditava tanto em estatsticas que se negou a aceitar o fato de terem sido pegos na minscula faixa de probabilidade de erro do mtodo anticoncepcional que utilizavam.  Estou a trs semestres da graduao. Contabilidade.  Devia ter escolhido outro curso, algo relacionado a contos de fadas, por exemplo. Porque apesar da infncia solitria, ou talvez por causa dela, acreditara neles at ouvir Evan revelar que no a amava de fato. E como se no bastasse ele a acusara de tentar envolv-lo com uma armadilha barata. Que belo prncipe!
Mas a amargura no era uma emoo saudvel para uma me solteira. Erguendo os ombros, baniu da mente todas as lembranas de Evan e dos oito meses de mentiras que vivera com ele. Quando encarou Michael, havia uma estranha calma em seus olhos.
O estmago estava contrado, mas duvidava de que ele pudesse perceber seu nervosismo.
	Quanto a dormirmos juntos...  No! Havia realmente dito aquilo? A julgar pela expresso de espanto do homem com quem acabara de se casar, sim.  Quero dizer, quanto s acomodaes...
Conseguira conquistar sua ateno, mas os olhos castanhos permaneciam fixos na aliana que pusera em seu dedo naquela tarde. Sentira a pele fria, a firmeza da mo e o calor envolvente quando ele afagara seus dedos depois de terem trocado alianas.
Olhou para a boca. Ele a beijara, tambm. Nada parecido com o beijo ardente que haviam trocado no dia em que aceitara sua proposta. A lembrana daquele momento era suficiente para provocar arrepios intensos. Mas o ardor havia sido apenas um sinal de exuberncia por ter sido capaz de vencer o av. O beijo no cartrio fora rpido, frio e contido.
E Beth o odiara.
	Estava dizendo?  Michael incentivou-a. As mos foram postas nos bolsos da cala e ele se apoiou na parede.
Frio e controlado, como sempre.
Mas Beth viu o msculo tenso na mandbula e soube que o controle era mantido a custa de muito esforo. O olhar, subitamente quente, era como uma carcia em seu rosto. Outro arrepio a percorreu.
Diga de uma vez que no vai dormir com ele
Pretendo ficar aqui mesmo  anunciou, apontando para a cama estreita ao lado do bero.  Com Mischa.
O msculo no rosto de Michael saltou como se a tenso houvesse aumentado centenas de vezes. Ele se afastou da parede e deu alguns passos em sua direo. Beth agarrou-se ao metal frio da cama.
Os olhos dele eram como chamas envolvendo seu corpo, e ela no conseguiu impedir que a respirao assumisse um ritmo ofegante, rpido.
	E melhor assim.  A voz era amena em comparao aos outros sinais emitidos por seu corpo. De repente ele se virou para sair.  Por mim, pode instalar-se onde quiser.
 E saiu.
Beth soltou o metal da cama e massageou os dedos doloridos, olhando para o belo anel que cintilava na mo esquerda.
Gostaria de saber por que a aceitao casual de sua proclamao, o que devia ter sido motivo de grande alvio, parecia ser apenas mais uma enorme decepo.
Se a Manso Wentworth lembrava um castelo, Beth decidiu na manh seguinte enquanto descia a imponente escada, ela era a princesa que sofrera durante toda a noite com uma ervilha sob o colcho.
No conseguira sequer cochilar na cama do quarto de Mischa.
Tentara de tudo. Desde prestar ateno  respirao tranquila do beb a contar estrelas imaginrias, mas havia sido intil. Bocejando, arrastou-se pela casa como uma sonmbula, totalmente desprovida de energia. Evitaria tomar caf na refeio matinal e voltaria ao quarto em seguida para acompanhar o filho no cochilo matinal.
Mas a viso de Michael, alerta e com os cabelos molhados do banho, sentado  mesa a fez engolir mais um bocejo.
	Bom dia  ele cumprimentou-a por cima do jornal que mantinha aberto diante do rosto.
	Bom dia  Beth respondeu. Esperava evit-lo descendo nas primeiras horas da manh para o caf. Antes que pudesse pensar em uma boa desculpa para voltar ao quarto, Evelyn entrou na sala com um cesto fumegante.
 Deixe-me cuidar do beb enquanto come, sra. Wentworth.  Rpida e eficiente, a governanta deixou o cesto sobre a mesa e pegou Mischa nos braos.
Sra. Wentworth? Assustada, Beth sentou-se e viu a criada voltar para a cozinha com seu filho.
	Caf, sra. Wentworth?
Beth pulou na cadeira. Uma mulher idosa num vestido preto e avental branco surgiu de um canto afastado com um bule prateado na mo. Interpretando o silncio como uma resposta afirmativa, ela encheu sua xcara com a bebida aromtica e desapareceu alm da porta que levava  cozinha.
Beth piscou vrias vezes. Sra. Wentworth? Olhou para a aliana em seu dedo. Sim, era a sra. Wentworth.
	Pensou que fosse apenas um sonho?  A voz de Michael soou alm do jornal. O rosto no revelava nenhuma emoo.
 Mas acordou e descobriu que  mesmo minha esposa.
Ela apertou os lbios numa reao perturbada. Sua esposa. Criados. Sra. Wentworth. O Lar Thurston para Meninas no a preparara para esse novo papel.
	Esposa temporria  disse. E um papel temporrio que desempenharia procurando mariter-se escondida durante todo o tempo que pudesse. Dos empregados, de Michael...
do mundo todo, se fosse preciso.
Depois do caf voltaria ao quarto para aquele cochilo. E daquele em diante faria as refeies na cozinha nos horrios menos convencionais.
	Esposa temporria  repetiu com firmeza.
Michael olhou para a porta da cozinha.
	No deixe que ningum saiba disso  pediu, dobrando o jornal e deixando-o ao lado do prato.  Conversei com meu av ontem  noite.
Artifcios para manter-se longe dele ainda ocupavam sua mente.
	Pensei que j houvesse contado sobre o casamento  respondeu distrada.
Michael sorriu.
	No consegui encontr-lo antes. Tentei telefonar, mas s ouvia a voz metlica da secretria eletrnica. Ontem  noite finalmente conversamos.
Algo na voz dele atraiu sua ateno.
	E?  O acordo que fizera com Michael dependia do fato de Joseph Wentworth acreditar no casamento. De repente, no sabia o que desejava mais: convenc-lo... ou no.  Como ele recebeu a notcia?
	Bem. Teria at ficado surpreso com sua reao, se no soubesse como ele est distrado pela necessidade de descobrir o que aconteceu com Jack.
Ao pronunciar o nome do irmo, Michael no pde esconder a tenso. Era impossvel no notar o msculo da mandbula rgido, os lbios apertados e os olhos tristes. Com casualidade deliberada, Beth pegou a xcara de caf e olhou para a bebida escura. Uma esposa de verdade tentaria confort-lo. Uma esposa conveniente mantinha a boca fechada.
	E quanto a sua demisso? Tambm disse a ele que est deixando a empresa?
Michael itou-a com intensidade inquietante.
	Est preocupada comigo?
	Comigo. Temos um acordo, lembra-se? Voc se livra do trabalho na companhia dos Wentworth e eu garanto a segurana de Mischa.
Michael encolheu os ombros.
	Ele aceitou a comunicao com tranquilidade. H meses venho dizendo a meu av que Steve Donnoly tem competncia para assumir o cargo, e pela primeira vez ele concordou comigo.
	Ento est feito.  Beth levou a xcara aos lbios. Agora s precisava levar o filho para o quarto e esperar o fim da farsa que chamavam de casamento.
	Talvez.
Ela deixou a xcara sobre o pires com um movimento brusco.
	O que quer dizer com talvez?
	E simples. Se conheo bem meu av, e acredito que ele deve estar entrando em contato com todos os detetives de Oklahoma.
	Oh, que maravilha! No acha que devia ter pensado nisso antes de se casar com uma mulher que conhece h menos de um ms?
	Talvez.
Beth estava comeando a odiar aquela palavra.
	Mas depois de ter namorado com todas as mulheres disponveis num raio de trezentos quilmetros, acha que seria menos estranho se eu me casasse com uma delas?
Michael havia namorado todas as mulheres disponveis num raio de trezentos quilmetros? Beth estava comeando a odi-lo.
	Isso  problema seu  disse, empurrando a cadeira para longe da mesa.  Resolva-o sozinho.  De repente perdera o apetite.
	Vamos resolv-lo juntos.
	Ns? O que espera que eu faa?
	Quero que v  cidade hoje. Pare na padaria, converse com suas amigas... Sabe como . Fale sobre o casamento.
	Falar sobre o casamento?  Que casamento?  Por que eu faria isso e sobre o que falaria?
	Tudo que disser vai acabar chegando aos ouvidos de meu av. Ser difcil convenc-lo de que somos um casal de verdade. E quanto ao que dizer... pode falar sobre os assuntos que normalmente ocupam a mente das recm-casadas. Refi-ra-se aos meus dotes de amante insacivel, esse tipo de coisa.
Beth se recusava a entrar nessa questo.
	No sei por que acredita que Joseph Wentworth ficar sabendo tudo que eu disser. No frequentamos os mesmos crculos.
	No subestime meu av. Ele passou a vida toda em Freemont Springs e conhece praticamente todas as pessoas da cidade.
Oh, o quarto de Mischa com a cama de solteiro e o travesseiro de penas! O edredom que sonhara puxar sobre a cabea. Aquela ervilha sob o colcho podia ser do tamanho de uma melancia, que no se incomodaria com ele. Quando pretendia passar a manh e o resto de sua vida de casada escondida em um aposento nos fundos da manso Went-worth, era subitamente requisitada a desfilar por Freemont Springs usando uma aliana na mo esquerda e exibindo o brilho luminoso de uma recm-casada.
Michael acomodou-se melhor na cadeira e sorriu novamente.
	E j que estamos discutindo nossa vida de casados, cuide para no dizer nada que possa prejudicar minha reputao, por favor.
Beth no sentia a menor vontade de rir. Na verdade, se soubesse como desaparecer sem deixar pistas, j teria sumido da sala.
	Seria bem feito se eu dissesse que j conheci coisa melhor!  disparou irritada.
Ele a segurou pelo pulso. Assustada, encarou-o sentindo a presso do polegar sobre a veia por onde o sangue flua depressa.
	Quando formos s nos dois, Beth, no haver nada melhor.
Sensaes, pulsao, respirao... tudo se misturava numa massa alucinante de sons e movimentos desconexos. Beth tentou distanciar-se do conjunto e encontrar uma resposta razovel, fria e contida. Primeiro soltou-se. Depois respirou fundo. Em seguida torceu o nariz como ele fosse apenas um aborrecimento desprezvel, no uma tentao perigosa.
	Suponho que Alice esteja certa  disse, indo buscar no fundo da memria mais um dos lemas de sua infncia.
 Quem quer obter os ovos precisa tolerar o cacarejar da galinha.
Quando formos s nos dois, Beth, no haver nada melhor.
Promessa? Ameaa? Simples jogo de palavras?
Beth no estava mais prxima da resposta, embora a noite j se aproximasse e os ps doessem depois de ter percorrido quilmetros de ruas movimentadas, sempre exibindo aquele sorriso de uma autntica e feliz Wentworth.
Exausta, estendeu os ps na direo da lareira acesa na biblioteca. Sem energia sequer para subir a escada, deixa-ra-se ficar com Mischa na poltrona estofada. Alimentado, ele dormia apoiado em seu peito, a respirao tranquila e profunda.
Como amava aquela criana! E apesar dos ps doloridos, apreciara a tarde na cidade. Haviam visto os funcionrios da prefeitura retirando a decorao de Natal. Dois deles, clientes da padaria e pais orgulhosos, haviam pego Mischa e levado o beb para ver de perto as luzes do Papai Noel.
Esse era o maior encanto das pequenas cidades e de Free-mont Springs em especial. O lugar encontrara um espao para Mischa em seu corao... e ela aprendera a amar Free-mont Springs. Era o local onde aterrissar sem querer ao deixar Los Angeles. O lugar onde dera  luz seu filho.
O lugar onde se casara.
Olhou para o fogo e sentiu um calor envolvendo todo o corpo ao lembrar as piadas maliciosas e as felicitaes que recebera. De acordo com Evelyn, Michael estava em casa, trabalhando no escritrio do segundo andar, e quando recuperasse parte da energia, subiria para ir relatar o sucesso do dia.
Por alguma estranha razo, ningum a incomodara com perguntas quando falara sobre seu novo lar e a vida como uma Wentworth. Talvez por Bea e Millie j terem espalhado a notcia, exibindo a mesma rapidez com que espalhavam chocolate sobre o famoso bolo de dois andares vendido na padaria. Beth duvidava de que houvesse falado com algum conhecido de Joseph Wentworth, mas cumprira sua parte.
Suspirando, acomodou melhor o filho nos braos. Depois de falar com Michael, talvez ignorasse o jantar, o que a pouparia de um contato mais prximo com ele, e se deitaria na cama estreita do quarto do beb para dormir.
Michael olhava para a tela do computador sem realmente enxergar as letras e os nmeros. Devia estar satisfeito, feliz at, depois do que ouvira sobre a visita de Beth  cidade. Afinal, depois de tudo que havia sido dito pelas ruas de Freemont Springs, o av certamente acreditaria que se casara pelas razes convencionais.
O que o levava a refletir... quais eram as razes convencionais?
No queria pensar na resposta.
Como no queria pensar no rosto corado de Beth quando a segurara pelo pulso naquela manh, nem no olhar tmido que vira alguns minutos antes, quando ela falara sobre as congratulaes que havia recebido de amigos e conhecidos. Mischa ficara agitado, e ela sara deixando-o perturbado, incomodado... aborrecido com o maldito relatrio que tentava redigir para Donnoly.
Talvez devesse aproveitar os minutos de solido para de cifrar o enigmtico comentrio sobre ovos e galinhas que Beth fizera durante o caf da manh.
Qualquer coisa seria melhor que enfrentar o fato de estar casado. Casado!
E reconhecer a culpa e a estranha alegria provocadas pela ideia.
As mos dela tremeram enquanto ela recitava os votos. Naquele momento fora" invadido por um frio intenso, como se algum houvesse jogado um balde de gua gelada sobre sua cabea. A cerimnia efetivara um casamento, no um truque de um garoto inconsequente disposto a enganar o av. Um casamento... com uma mulher cujo cabelos claros e olhos azuis o levaram a vasculhar a caixa de jias que herdara da me em busca do anel perfeito.
Michael desligou o computador e passou as mos na cabea. Talvez devessem desistir de tudo antes que algo inesperado acontecesse. Antes que algum acabasse se machucando.
A porta do escritrio foi sacudida por batidas urgentes. Beth entrou apressada, o peito arfante e o rosto dominado por uma expresso apavorada.
	Michael...
Ele pulou da cadeira.
	O que foi? Aconteceu alguma coisa com o beb?
	No, no, Mischa est bem. ... ...  E parou, agar-rando-o pela mo e puxando-o para fora do escritrio.
Os dedos eram quentes. Podia sentir seu perfume. Mas no. Beth no usava perfume. O aroma que sentia era do xampu, uma essncia floral e suave. E havia uma nota mais sutil e familiar. Sabonete de aveia e menta, um produto que podia ser encontrado nos armrios de todos os banheiros da manso.
O mesmo que esfregava na prpria pele todas as manhs.
No devia julgar um sabonete que conhecia h anos to excitante. To... conjugal.
Ela o levou ao seu quarto. A porta estava aberta, como a do quarto de Mischa do outro lado do corredor. Em seguida soltou-o.
Michael espantou-se com o vazio provocado pela ausncia do contato.
	Veja!  exclamou, apontando para as duas portas abertas.  Evelyn disse que essas coisas so presentes de seu av. Foram enviados hoje.
A cama de solteiro desaparecera do quarto do beb. Michael notou a mudana imediatamente. Em seu lugar surgiram um enorme ba de brinquedos e uma cadeira de balano... e o cavalo de madeira que o transportara em mais aventuras imaginrias do que podia recordar. Quando Biackie perdera o encanto por no poder mais embal-lo como antes, tornara-se o confidente de seus segredos infantis, companheiro de planos de vingana contra o irmo mais velho, Jack, e finalmente, nos anos que antecederam a adolescncia, uma espcie de cabide para as roupas que detestava guardar no armrio. Com dois dedos, Michael cumprimentou o velho e querido amigo. E sorriu. Mischa amaria Biackie.
	No est entendendo!  Beth insistiu em voz baixa, segurando-o novamente pelo brao para lev-lo  suite principal, onde ele dormia.
Oh, no!
Podia sentir o cheiro da irm no ar. Joseph Wentworth podia ordenar que os criados tirassem do sto velhos brinquedos e mudassem mveis de lugar, mas somente Josie teria escolhido o arco-ris de camisolas de seda espalhadas sobre a cama.
Sua cama!
De repente o quarto parecia menor, como se as paredes ameaassem sufoc-lo.
Podia quase ouvir a voz do av. Queria um casamento, meu rapaz? Pois agora tem um casamento de verdade!
Joseph e Josie no podiam saber que ele e Beth jamais haviam estado na mesma cama. No podiam advinhar que na noite de npcias a noiva dormira na cama estreita do quarto do filho, em vez de deitar-se a seu lado e entregar-se como convinha a uma esposa amorosa.
Seria errado contar as camisolas?
	O que vai fazer a respeito disso?  Beth perguntou irritada.
Eram nove.
Ele a encarou. E notou que ainda respirava com dificuldade. O que fariam?
Desistiriam.
Seguro. Fcil. Joseph j devia suspeitar da verdade.
Um casamento falso. De onde havia tirado essa ideia?
A verdade custaria o adiamento de seus planos, mas ainda poderia garantir o futuro de Beth e Mischa. Decidido, abriu a boca para anunciar sua deciso...
E soube que ela no aceitaria o dinheiro. No depois de vinte e quatro horas de casamento fracassado.
	E ento? O que vamos fazer?  ela repetiu a pergunta.
Os olhos brilhavam e havia um rubor ardendo em seu rosto.
Como o desejo que aquecia seu sangue. Como o anel que pesava em seu dedo, uma promessa doce e sedutora.
	Vamos dormir juntos  disse.
CAPITULO V

Beth fitou-o com ar de espanto.  Est brincando, no ?
	O que mais podemos fazer? Vamos dizer a Evelyn que os recm-casados precisam de camas separadas? Conseguimos manter o arranjo por uma noite, mas os empregados vo comear a comentar se essa situao persistir.
Sem dvida seria estranho, especialmente depois da excurso que fizera  cidade naquela tarde. As notcias sobre o feliz casamento entre ela e Michael corriam como sarampo em orfanato. Acrescente a isso uma histria sobre camas separadas e...
	O boato chegar aos ouvidos de meu av antes da abertura do mercado de aes  Michael opinou, como se pudesse ler seus pensamentos.
	Mas voc props um casamento de convenincia!
Ele encolheu os ombros e ps as mos nos bolsos da cala.
Acha que vai ser inconveniente dividir uma cama comigo?
A atitude casual e o ar superior estavam de volta. Sem a gravata e com o colarinho aberto, era possvel ver o pulsar cadenciado da veia do pescoo. E a julgar por aquele pescoo, o corpo que passaria as noites ao lado do seu devia ser muito forte.
	Vamos l, Beth  Michael insistiu com um sorriso conciliador.  Estou certo de que podemos dormir na mesma cama sem nos tocarmos. Afinal, somos adultos.
 disso que tenho medo.
Estava habituada a dividir um quarto com outras garotas. E a dividir seu espao com o filho. Mas dividir uma cama com um homem... Evan nunca passara a noite toda com ela.
Um sinal claro que devia ter sido capaz de interpretar.
	No ronco  Michael garantiu.
Beth no duvidava dele. Um homem daquele tipo no podia roncar. Um homem como Michael aquecia camas e coraes, e certamente seria capaz de espantar aquela horrvel e fria soli...
Prometera a si mesma que nunca mais pensaria nessa palavra.
	Francamente, no acredito que seja uma boa ideia. Posso dormir no cho, ou...
	Est com medo, Beth?
	No tenho medo de nada  a resposta foi automtica. No orfanato, aprendera a nunca admitir o medo do escuro, de no ter famlia ou no ser capaz de criar o prprio filho.
	Otimo. Ento, est decidido.  E virou-se para voltar ao escritrio.
	No!  Mais uma reao automtica. Os rfos aprendiam a respeitar o instinto de preservao e deixar-se guiar por ele desde o bero. E era justamente esse instinto que a prevenia contra os perigos de aproximar-se muito de Michael.
Ele se virou devagar. Calmo.
	No mordo  disse.
Mas e se quisesse ser mordida?
O pensamento inoportuno tingiu seu rosto de vermelho. Michael fitou-a com interesse e aproximou-se alguns passos. Com um dedo, tocou uma face corada.
	Est com medo.
Negue!
Beth sabia que o corao batia duas vezes mais rpido que o normal. Ter medo significava abrir-se para a dor. E no deixaria nenhum homem, prncipe ou marido, aproximar-se o suficiente para feri-la novamente. Tinha experincia para proteger-se.
E Michael parecia  vontade com a ideia, como se dormir com ela fosse apenas um inconveniente qualquer, como dividir a cama com um gato ou cachorro de estimao.
	Beth...  comeou, acariciando seu rosto com um misto de ternura e sensualidade.  Se no quiser...
	Bobagem  ela cortou apressada, ignorando as sensaes provocadas pelo contato.  Mal posso esperar por isso.
Ele parou, riu e afastou-se lentamente.
	Eu tambm.
No h nada de especial em Beth.
Alguns minutos depois das onze da noite, Michael aco-modou-se na poltrona estofada ao lado da lareira em seu quarto, convencendo-se disso. Era possvel ouvir o som da gua corrente no banheiro contguo.
Beth devia estar escovando os dentes. Lavando o rosto. Todas as coisas que uma mulher fazia antes de ir para a cama. Simples, comum...
Nada especial o bastante para deixar os msculos de seu corpo to rgidos e fazer o sangue correr mais depressa.
No h nada de especial em Beth.
Porque era assim que agiria naquela noite. E durante todo o casamento. Com calma e controle, desempenhariam seus papis para a criadagem e convenceriam o av sobre o casamento.
Persuadiriam o velho a retomar o comando da Oil Works.
Comprariam a liberdade de Michael das responsabilidades familiares.
Garantiriam o futuro de Mischa e Beth.
A porta do banheiro se abriu e ela apareceu num robe de tecido muito fino e claro. Flanela branca, provavelmente de uma camisola, podia ser vista atravs da abertura da gola.
Nove camisolas de seda e ela preferia flanela. Graas a Deus!
Ela o fitou com ar nervoso.
	 Tudo bem?  perguntou, forando um sorriso que o fez lembrar a noite em que se conheceram.
Claro  Michael respondeu. No havia nada de especial em Beth. Nenhuma razo para estar imaginando a pele clara sob a flanela quente.
	Eu... vou dar mais uma olhada em Mischa.
Michael no explicou que um dos presentes enviados pelo av fora um monitor instalado no quarto do beb. O receptor fora deixado sobre a mesa-de-cabeceira e podia transmitir o som de uma pena caindo sobre o tapete.
Melhor assim. Pelo menos daria um descanso  mente das imagens inquietantes provocadas pelo perfume do sabonete, pela viso do robe e da camisola ingnua e pura. Para fazer sua parte e garantir um casamento livre de contratempos, teria de manter-se to afastado e controlado quanto fosse possvel.
Beth deixara as portas dos dois quartos abertas, e por isso podia v-la debruada sobre o bero no ambiente suavemente iluminado. A imagem lembrava a de um anjo maternal.
Gostava de pensar nela dessa maneira. Angelical, em vez de excitante. Asas no lugar de hormnios. Pela primeira vez desde que vira as camisolas espalhadas sobre a cama, sentiu-se mais calmo. Podia conseguir. Seria capaz de levar a esposa para a cama e no toc-la.
	Michael.  Um sussurro fantasmagrico, porm sexy,
percorreu sua espinha.  Michael.
Foi preciso um momento para reunir a voz, o monitor no quarto do beb, a mulher... ou melhor, o anjo... o panorama do outro lado do corredor.
Para responder ao chamado, no precisaria ir alm da porta do quarto do beb. Mas ento ela sorriu, no aquele sorriso forado e frio, mas o outro, autntico e envolvente, e Michael descobriu-se parado ao lado do bero, sentindo o aroma da flanela macia.
	S estava testando o equipamento  ela murmurou aliviada.  Queria ter certeza de que ouviria qualquer rudo neste quarto, por menor que fosse.  No silncio que se seguiu, o som da respirao profunda do beb era como um mantra. Um dos dedos de Beth tocou os cabelos finos e macios e, como se ainda no pudesse afastar-se, ela ajeitou o cobertor sobre o corpo adormecido.
Algo se formou na garganta de Michael. Tentou engolir, talvez tossir, mas a nica soluo que encontrou foi afastar-se devagar.
	Voc est bem?  A voz preocupada chamou sua ateno, e ele se virou a tempo de v-la erguer a mo para bater em suas costas. Por isso tossiu novamente e deu um passo  frente, fugindo do contato com os dedos que no tinham nada de especial.
	Estou  respondeu, pronto para voltar  relativa segurana de sua suite.
A mo o deteve novamente. Apenas dois dedos sobre seu brao e um movimento de cabea na direo do cavalo de madeira.
	Adorei aquele brinquedo. Como costumava cham-lo?
Michael relaxou. Pensando bem, o cavalo era um assunto seguro e o quarto de Mischa era territrio neutro, muito melhor que o ambiente quase claustrofbico de seus aposentos. Respirando fundo, tentou manter a voz baixa e firme.
	Eu o chamava de Blackie. Mas antes disso Jack o chamou de Challenger, e Josie decidiu que ele seria Beauty.
	Foi um presente de seu av?
	No. Jack ganhou o cavalo de nossos pais. Depois, cada um de ns teve sua vez de brincar com ele. Blackie foi um excelente touro de rodeio.
Beth riu.
	Posso imaginar. Como sua me lidava com suas travessuras?
	Ela nem teve oportunidade de v-las. Meus pais morreram quando eu ainda era um beb.
Ela o tocou novamente. Pele nua contra pele nua. Dedos contra o dorso da mo.
	Sinto muito.
Michael afastou-se devagar, tentando interromper o contato mas temendo sentir falta dele.
	No lamente por mim. Tive meu av, Jack e Josie. Houve um momento de silncio.
	Como se sente por t-lo perdido?  Beth perguntou. Jack, quero dizer.
Michael sentiu um arrepio gelado. No queria pensar em Jack. Nem na falta que sentia dele. Seu av chorava a morte do neto por toda a famlia.
	Furioso  disparou.
E arrependeu-se em seguida. No que as palavras no fossem verdadeiras... mas por que diz-las? Era um especialista em manter a calma e o controle, e preferia permanecer assim.
	Por que est zangado com Jack?
Sabia que ela persistiria, pensou aborrecido. Beth era o tipo de mulher que o levava a pensar em coisas que preferia manter enterradas em um canto escuro da mente.
	No quero falar sobre isso  respondeu, afastando-se dela para sair do quarto.  Vou dormir.
	Eu tambm  Beth respondeu determinada, seguin-do-o de perto.
	Quero...  Droga! Queria ficar sozinho, mas teriam de passar a noite juntos num falso leito nupcial.
No quarto, fechou a porta assim que ela entrou e apagou a luz, porque no queria mostrar o rosto. Na escurido do quarto, podia discernir o contorno do corpo feminino sob as cobertas. Despiu a camisa e a cala jeans e, vestindo apenas um calo, deitou-se do outro lado.
Ajeitou o travesseiro e acomodou-se de costas. Beth man-tinha-se silenciosa e imvel como um manequim.
A irritao no descera pelo ralo com a pasta de dente. E o desconforto bvio que ela experimentava em sua cama s incendiava a ira.
	No vou atac-la.
	No  isso que me incomoda  ela respondeu com tom calmo.  Alice sempre disse que no se deve ir para a cama zangado. E eu lhe devo um pedido de desculpas, Michael.
Oh, no! Ela entendera tudo errado, mas no estava preparado para admitir a verdade.
	Quem  essa Alice, afinal?
	Uma das mulheres que criavam as meninas no Lar Thurston. Ela era responsvel por todos os cuidados dirios as garotas da minha faixa etria, e certamente teria censurado por ter feito perguntas sobre um assunto to ntimo e delicado. O que voc sente por seu irmo no  da minha conta. Desculpe-me, est bem?
	Voc  minha esposa.  No sabia por que havia mencionado esse detalhe. Ou por que no simplificara a auesto concordando com ela. Alimentar a raiva teria sido uma reao muito mais segura.
	Temporariamente.
Como se precisasse de ajuda para se lembrar disso.
	 que...  Beth no terminou.
	V em frente.  A conversa a ajudava a relaxar. E sabia que no conseguiria dormir se ela se mantivesse tensa como uma tbua a seu lado.
	 que eu tambm perdi pessoas queridas, Michael. No conheci meus pais como voc conheceu Jack, mas fiquei triste. E zangada. Achei que gostaria de falar sobre o assunto.
O que gostaria era de evitar o assunto. Mas Michael suspirou.
	Inferno  resmungou. Era exatamente onde se sentia.  Sou um cretino de cabea quente: Deveria estar pedindo desculpas a voc.
	Aceito o pedido se voc aceitar o meu.
	Combinado.
Sem a raiva, o quarto continha apenas o som de sua respirao e o perfume de seu corpo. Michael fechou os olhos e tentou pensar nos ltimos detalhes de sua saida da Oil Works. No dia seguinte comearia a trabalhar apenas meio expediente e passaria a outra metade do dia com Elijah.
O calor do corpo de Beth comeava a atingir sua metade da cama.
No havia nada de especial nisso.
	Acha que vou mesmo ouvir o choro de Mischa se ele precisar de mim?  O hlito morno tocou sua pele como mos de fada.
Ele engoliu em seco.
	Voc sabe que eu a escutei muito bem.
	E verdade.
Alguns minutos depois ela dormia profundamente.
Algumas horas mais tarde Michael permanecia acordado. Mesmo depois de Beth ter se levantado para amamentar o beb e dormido em seguida. O calor de seu corpo parecia encontr-lo, por mais que se virasse e jogasse longe as cobertas.
Finalmente conseguiu cochilar. E acordou cercado pelo calor daquele corpo. Com os olhos fechados, tentou mover os braos e descobriu que os mantinha em torno de uma mulher protegida flanela macia. Os quadris estavam pressionados contra certa parte de sua anatomia que, de repente, decidiu assumir o comando da situao.
Perturbado, abriu os olhos.
De repente ela se virou e fitou-o com ar espantado.
Estavam na metade dela da cama, trocando um olhar repleto de emoes confusas e perigosas.
Ele havia sido o invasor.
	Muito bem...  Beth murmurou como quem espera explicaes.
Queria dizer alguma coisa. Prometer que o pequeno deslize no voltaria a acontecer. Talvez fazer um comentrio engraado para neutralizar a tenso do momento. Qualquer coisa para deixar bem claro que no havia nada de especial em acordar com ela nos braos.
O perfume feminino parecia ter penetrado em sua pele. E gostava de senti-lo.
Beth umedeceu os lbios com a ponta da lngua. E ele tambm gostou disso.
	Vamos nos mudar daqui hoje mesmo  decidiu.
Ela piscou.
	H uma casa no rancho que comprei recentemente. As pessoas que venderam a propriedade deixaram quase tudo que tinham.  L poderiam estar sozinhos. E separados!
	Mas seu av... a criadagem...
	No vo estranhar o fato de preferirmos uma casa s para ns. Ser ainda mais convincente.
Um rubor tingiu seu rosto.
Michael cerrou os punhos. No poderia dormir novamente ao lado de Beth, ou no seria capaz de proteg-la contra o sofrimento. Sim, era isso. Tinha de se mudar para o rancho. L, poderia se manter distante da esposa.
No quarto que havia escolhido para ela e Mischa, Beth terminou de desfazer as malas e guardar as roupas do filho na cmoda recentemente limpa. As sacolas de papel haviam sido teis mais depressa do que suspeitara.
Ela e Michael haviam levado tudo que possuam no incio da manh. Evelyn protestara ao v-los deixando a manso, mas depois sorrira com ar compreensivo e ajudara com as malas.
A governanta sugerira que levassem uma das empregadas para ajudar na faxina da casa do rancho, fechada h meses, mas Beth recusara a sugesto. Havia aceito os produtos de limpeza, no entanto, e passara horas seguida limpando a casa modesta de um andar e dois dormitrios. Enquanto esfregava e lavava, esperava poder apagar o embarao.
Era bvio que Michael optara pela mudana apressada para evitar outra noite a seu lado na cama.
A culpa era toda dela.
Para uma mulher que jamais havia dormido ao lado de um homem, tivera o sono mais reparador de toda sua vida. A presena de Michael, os braos dele em torno de seu corpo, haviam proporcionado conforto e paz. Era compreensvel que o pobre homem houvesse fugido assustado, e sem outra opo se no lev-la junto, para a casa do rancho.
Talvez pensasse que estava confortvel demais a seu lado. Primeiro tentara invadir o terreno de suas emoes fazendo perguntas sobre a morte do irmo, e depois tentara abrir caminho para um abrao aconchegante e ntimo.
Deus, faa com que ele no interprete as coisas dessa maneira!
Mas Michael era sempre to calmo e controlado, to rpido com as respostas, que a fuga repentina para o rancho a surpreendera. Sabia que ele no considerava essa possibilidade. Sabia que havia sido uma reao impulsiva provocada pela noite que passaram juntos.
No bero, Mischa protestou impaciente. Beth pegou-o e encostou o rosto na cabea pequena e delicada. O cheiro doce e o calor do corpo delicado sempre tiveram o poder de acalmar as dores que atormentavam seu corao.
Mas dessa vez foi diferente.
O amor pelo beb era forte como antes, talvez maior que antes, mas ainda sentia um vazio, um sentimento incmodo relacionado a Michael. Constrangimento. Culpa por t-lo praticamente obrigado a deixar o conforto de sua casa.
Sim, era isso.
 Como vamos compensar tamanha perda?  perguntou ao beb.  J sei. Talvez possamos fazer alguma coisa pela casa.
Apesar de limpa, a residncia tinha o ar utilitrio e impessoal de uma barraca. Sabia que no era a verdadeira esposa de Michael, mas podia transformar o lugar em um lar para ele.
Michael no podia ser culpado por no t-la visto como mulher... exceto naquele breve instante  mesa do caf da manh, quando dissera que as coisas poderiam dar certo entre eles. Evidentemente, no era seu tipo e o deixara constrangido com aquela atitude impertinente de aninhar-se em seus braos.
Sim, estava decidido. Tentaria compens-lo acrescentando algum conforto  casa. Com um pouco de cera e uma medida de sorte, talvez ele esquecesse as horas que passara em sua cama.
Beth levou o talo de cheques em sua visita  cidade, mas aparentemente as lojas de Freemont Springs haviam sido avisadas sobre seu novo status. Os alimentos e os utenslios domsticos que comprou no supermercado foram creditados na conta dos Wentworth.
s seis da tarde tinha uma caarola fervendo no forno, salada verde e cerveja na geladeira. Talvez no fossem essas as preferncias de Michael, mas era tudo que Beth sabia preparar. E sabia que ele apreciaria o esforo.
Tambm mudara um pouco a pequena saleta contgua  cozinha. O sof de vinil rachado fora coberto por uma colcha artesanal que encontrara na loja de artesanato local.
Tambm havia sido l que encontrara o quadro emoldurado e a tapearia simples de cores vibrantes. Na parede, os acessrios haviam dado vida nova  sala sem atrativos.
Uma vasilha com mas vermelhas e verdes ocupava o centro da mesa da cozinha. Sua velha televiso preto-e-branco estava num canto da saleta, sobre um caixote de madeira coberto por um xale. Beth sorriu novamente. O lugar havia adquirido um ar mais aconchegante e atraente.
Pelo menos para ela. Sabia que Michael estava acostumado com ambientes mais finos e elegantes, decorados por profissionais famosos e com peas raras e caras, mas estava certa de que ele saberia reconhecer seu esforo.
Deslizou as mos pela camisa e ajeitou-as dentro da cala jeans. Aproveitara a oportunidade para exercitar-se um pouco, e ainda teria a chance de mostrar a Michael que no era uma intil. Com os dedos, ajeitou os cabelos que emolduravam o rosto iluminado por um toque de rmel, blush e batom.
Mischa, limpo e alimentado, parecia satisfeito por poder apreciar o cenrio da cadeira infantil colocada sobre um dos balces da cozinha.
O som de um motor anunciou a chegada de Michael.
Preparou-se para receb-lo com um sorriso, mas ele no parecia estar bem-humorado. Depois de fit-la por alguns instantes, resmungou alguma coisa em resposta ao cumprimento entusiasmado com que fora recebido.
No elogiou o ambiente. No sentiu o cheiro da comida. No beijou a testa de Mischa. Apenas desapareceu no corredor que levava ao quarto ocupado por ele.
Beth ouviu o som do chuveiro. Desligou o forno e arrumou a mesa. Ele retornou, fitou-a novamente por alguns instantes, olhou a mesa arrumada para dois e desapareceu novamente. Ao passar pela geladeira, serviu-se de uma cerveja.
Nenhum comentrio sobre a casa limpa e arrumada e o jantar quente servido na hora.
Beth serviu-se e conversou com o beb enquanto comia. Ainda estava comendo quando Michael voltou  cozinha para apanhar outra cerveja. Dessa vez ele desapareceu pela porta da frente levando meia dzia de latas.
Beth olhou para Mischa. Ele sustentou seu olhar.
Ouviu o som da porta da caminhonete e o rudo do motor, mas o automvel no saa do lugar.
	O que ele pode estar fazendo?  perguntou intrigada.
Mischa parecia ignorar a resposta.
Beth lavou o prato, devolveu a salada ao refrigerador e a caarola ao forno ainda quente. Depois fez um rpido resumo mental do dia e do que havia acontecido at aquele momento.
	Sabe de uma coisa?  disse, notando que o beb comeava a cochilar.  Michael no vai ficar sentado naquela caminhonete sozinho.

CAPITULO VI

Michael pensou em telefonar para Elijah. O melhor amigo havia sido um grande jogador de futebol na poca do ginsio, e ele precisava de algum para chutar seu traseiro por toda a cidade.
Beth no merecia estar casada com um grosseiro. Voltara para casa depois de um dia de dupla de jornada de trabalho, metade dele na Oil Works, a outra metade no rancho de Elijah, pensando estar cansado o bastante para no reagir  presena da mulher com quem se casara.
Mas s precisou ver os olhos brilhantes e a boca tentadora para descobrir que o chuveiro frio era sua nica salvao. Duas cervejas no haviam ajudado em nada.
Segurando a terceira garrafa e ouvindo o ronco aborrecido do aquecedor da caminhonete, tentava encontrar um pouco de calma e controle, mas s conseguia pensar em como ela pagava o preo por sua luxria e pelas constantes oscilaes de humor, apesar de ter sido ele o inventor da terrvel ideia de se casar.
Porque era esse o problema. Luxria. Um sentimento que fazia a pele arrepiar e os msculos enrijecerem, todos os msculos. E Beth no merecia esse tipo de tratamento.
 Sou um canalha  resmungou. Esvaziou a terceira garrafa e abriu mais uma, fechando os olhos.  No passo de um canalha egosta e sem escrpulos!
Um som abafado do lado do passageiro chamou sua ateno. Michael abriu um olho e viu Beth batendo na janela.
Intrigado, ergueu o corpo, destravou a porta e empur-rou-a. Ela entrou usando a velha jaqueta impermevel.
Compraria um casaco novo para Beth na primeira oportunidade que tivesse. Mas, antes disso, precisava convenc-la a levar seu corpo perfumado e tentador para bem longe de seu automvel.
Sem saber o que o esperava, acendeu a luz interna do veculo. Um rubor intenso tingia seu rosto, provavelmente resultado do frio, e a respirao era ofegante.
Rpido, apagou a luz e tentou pensar em outra coisa. A temperatsira baixa, o organograma da Oil Works, qualquer coisa, desde que conseguisse esquecer aquela boca carnuda e sensual.
Olhando atravs da janela para a escurido da noite, respirou fundo e preparou-se para oferecer uma desculpa vaga. Palavras que a convencessem a sair dali, a afastar-se de sua luxria quase incontrolvel.
Podia dizer que estava preocupado com o trabalho. Ou que estava com dor de cabea depois do dia cansativo. S no podia dizer a verdade para explicar a rispidez com que pretendia mand-la de volta para casa.
Mas ela falou primeiro.
	Bem,  uma pena que no possa sequer olhar para mim.
O comentrio o surpreendeu de tal forma que Michael virou-se para fit-la.
	O qu?
	Estou me esforando, caso no tenha notado.
	Sim, eu sei.
	Talvez esperasse uma esposa mais bonita e elegante, uma mulher culta e dotada de conhecimentos sobre etiqueta e arte, mas est casado comigo.
Ento era isso? Beth pensava que sentia vergonha dela?
	Ei, eu no a trouxe para c para escond-la. Por no estar satisfeito com a pessoa que .
	No vou obrig-lo a dizer o que est pensando. Sei que ontem  noite fui inconveniente e o incomodei com minha falta de modstia. Podia abrir uma fbrica de cimento, no acha? Argamassa Beth.
	Argamassa? Do que est falando?
	Sei que no  assim que me v. Compreendi desde o incio. Sou apenas um meio para voc, no uma mulher, e entendo sua posio. Mas podia ao menos ter jantado.
O estmago roncou e ele aceitou o castigo imposto pela natureza.
	Mas... a que se refere quando fala que no a vejo... assim? Assim como?
Um rudo abafado brotou de seu peito. De repente Michael compreendeu porque a jaqueta parecia mais estofada que antes. Abrindo o zper, ela exibiu o beb envolto em um cobertor.
Depois executou movimentos estranhos de contoro e balano que Michael no conseguiu decifrar na escurido do automvel. Houve mais um som indecifrvel, um estalido insistente, e Mischa ficou quieto.
Michael tinha um pssimo pressentimento sobre o que estava acontecendo.
	Voc... no prefere ter um pouco mais de privacidade?  perguntou.
Beth virou-se no assento e apoiou o cotovelo onde acomodara a cabea de Mischa sobre o joelho.
	O que importa?
	Amamentar um beb no  algo que as mulheres preferem fazer sozinhas?
	S levarei alguns minutos. Ele est quase dormindo, e s precisa de um pouco de leite para saciar-se e pegar no sono. Alm do mais... duvido que esteja incomodado.
Michael no sabia o que dizer. No estava exatamente incomodado, mas... Ela estava exibindo os seios, no? Devia estar. E a poucos centmetros dele, o que o perturbava profundamente.
	Talvez eu deva voltar para casa  sugeriu.
	No antes de ouvir o que tenho a dizer.  Beth fez um movimento rpido e virou o beb para o outro lado.
Teria visto um seio? Michael tentou no pensar nisso. Janeiro. Nevascas.
	...desculpe  ela concluiu.
	Eu... O que foi que disse? Beth deixou escapar um suspiro.
	Estava resmungando. No sou muito boa nisso, certo?
	Fale de uma vez, Beth.  Teria sido desmascarado? Talvez ela quisesse falar sobre o inconveniente de ser objeto de seu desejo.
	Pedi desculpas por ontem  noite. Espero que me perdoe por ter... gostado de dividir uma cama com voc. Sei que no sou seu tipo. Tenho plena conscincia disso. Portanto, no se preocupe com a possibilidade de ser abordado de maneira mais... ntima. Vou me esforar para preservar a atmosfera amigvel... s isso. No se incomode com minha presena, porque ela no vai incomod-lo em nenhum outro sentido.
A torrente de palavras penetrou lentamente em seu crebro.
	No  meu tipo?
	Eu sei que no. J deixou claro que no me reconhece como... bem, como uma mulher.
O interior da caminhonete estava ficando quente demais. Se no estivesse paralisado pelo choque, Michael teria desligado o aquecedor. Emvez disso estava olhando para Beth, que executou mais um movimento rpido e preciso. Apesar da escurido, viu que Mischa havia soltado a fonte de alimentao e dormia.
Michael recordou cada palavra e percebeu que Beth acabara de jogar a salvao em seu colo. De alguma maneira, havia dado a impresso de no estar interessado nela. S precisava permanecer em silncio, em vez de negar o que acabara de ouvir, e ela mesma trataria de se manter afastada.
Beth voltaria para casa e o deixaria com sua cerveja e o calor da caminhonete.
Continuariam com um casamento polido e distante, e dentro de algum tempo poderia finalmente cortar todos os laos com a Oil Works e com a mulher com quem se casara. Era tudo com que podia ter sonhado.
Beth acomodou o beb adormecido sobre um ombro. Com a palma da mo, descrevia pequenos crculos em suas costas.
Michael massageou o osso superior do nariz, onde todas as suas dores de cabea sempre comeavam. Se ficasse quieto, a qualquer momento a veria sair do automvel. Mais alguns meses e poderia v-la saindo de sua vida. Era simples. Sem complicaes. Nada de especial.
Mischa rompeu o silncio com um arroto to alto quanto o de um adulto.
Beth riu.
E Michael chegou ao limite.
	Meu bem  disse, tocado pela relao tema entre me e filho e pelo riso franco e orgulhoso que acabara de ouvir.  Voc entendeu tudo errado.  No podia permitir que Beth pensasse que no era atraente a seus olhos.
Ela ficou parada. O riso desapareceu como que por encanto.
	Onde foi que eu errei?
	No, voc no errou. Fui eu quem... Na verdade, estou ardendo de desejo por voc desde que... Meu Deus, nem sei desde quando. Mas a trouxe para c para que no tivesse de toc-la. Mais uma noite com voc em minha cama e a situao teria escapado ao controle. Pelo menos de minha parte.
	Mas... no entendo.
	Nem eu queria que entendesse. No queria que percebesse o que faz comigo.
	Ento no o incomodo?
Ele riu.
	Oh, sim, voc me incomoda. Com os olhos. O riso. A boca sensual que desperta em mim mpetos quase selvagens. Quero toc-la, sentir seu cheiro e acarici-la, roar meu corpo no seu at estarmos ambos to quentes que janeiro em Oklahoma parea agosto em Acapulco.
No sabia o que ela diria depois disso.
E ela no disse nada. Com uma exclamao abafada e rouca, protegeu o beb com a jaqueta e saltou da caminhonete. To depressa que Michael nem teve tempo de ver sua expresso.
Michael ligou o rdio e ouviu pelo menos uma dzia de canes de Randy Travis e Reba antes de voltar para casa. Ao entrar, acrescentou mais algumas linhas  lista de pecados.
Primeiro perturbara a paz e a serenidade de uma jovem inocente com sua ideia de um casamento de convenincia.
Depois passara a desejar a jovem inocente de maneira quase insana.
E agora a assustara com sua luxria descontrolada.
Iria encontr-la, provavelmente trancada no quarto, e pediria desculpas, o que devia ter feito desde o incio, em vez de falar todas aquelas coisas, e finalmente iria tran-car-se em seu quarto, onde passaria todo o resto de sua vida de casado.
Beth era uma forma difusa sobre o sof da saleta.
Michael parou, tentando calcular a extenso do dano que causara. Aparentemente, no estava assustada o bastante para ir refugiar-se em seu quarto. Mas estaria chorando? Droga! Odiava esse tipo de situao.
Pea desculpas, Wentworth. E depois deixe-a em paz.
	Beth?
Ela apoiou os ps no sof e abraou os joelhos.
	Quero...
	No diga mais nada  suplicou a voz fraca e rouca.
	Mas eu preciso  Michael insistiu, dando alguns passos  frente.  Tenho o dever...
	Acha que sou uma boa me?
	O qu? Voc  a melhor me que j conheci!
Beth apoiou a testa sobre os joelhos.
	No sei se uma boa me sente as coisas que tenho sentido.
Michael sentou-se no brao do sof.
	Que coisas, Beth?  Queria toc-la, oferecer conforto e carinho, mas temia perder o controle.  Se est falando sobre as coisas que eu disse, quero que...
	No.  Ela balanou a cabea e uma onde de perfume suave emanou de seus cabelos.
Michael respirou fundo.
Pea desculpas, Wentworth. E depois v se trancar em seu quarto.
	No creio que uma me deva...  ela comeou.
Desejar mutilar o homem com quem se casou? Michael decidiu tomar a iniciativa.
	Beth, quero pedir desculpas por tudo que disse. O fato de desej-la no...
	Tambm sinto desejo. Por voc.
O corao bateu to forte que ele teve medo de perder o ar.
	O qu?
	Talvez uma me no deva ter esse tipo de sentimento.
O natural seria que eu estivesse totalmente voltada para Mischa. Mas olho para voc e...
Ela entendeu mal, Wentworth. Est vulnervel nesse momento da vida.
	Ouvi quando disse que gostou de compartilhar da cama comigo, Beth, mas estava se referindo apenas  presena de outro ser humano, ao calor de um corpo perto do seu... Est sozi...
	No diga isso  ela cortou com veemncia.  No  esse o ponto.
	O que est tentando dizer?  Gostaria de ter fora suficiente para conter o mpeto de toc-la, mas a mo mo-veu-se como se tivesse vontade prpria para afagar os cabelos claros e brilhantes.
Ela no tentou se afastar.
	No sei. A verdade, acho. No consigo esquecer aquele primeiro beijo.
Era isso. Michael escorregou para o sof e tomou-a nos braos. No precisavam mais das palavras. Beth fitou-o e esperou enquanto ele se aproximava devagar, os lbios entreabertos anunciando o beijo.
Um beijo que aconteceu como ambos esperavam.
Michael sentiu o sabor com que tanto sonhara e apertou-a com fora, impaciente e voraz. Beth correspondia com a mesma intensidade, o mesmo ardor.
Argamassa Beth. Sim. Queria senti-la grudada em seu corpo.
Os gemidos eram cada vez mais altos, a respirao acelerada e ofegante, e as mos exploravam ansiosas e aflitas, buscando um contato ainda mais ntimo e completo. Era eomo se o mundo houvesse parado de girar, como se no existisse mais ningum alm deles em todo o universo.
Michael sentia a pulsao nos lugares certos. Deslizou a lngua pelo pescoo de Beth e descobriu que ela tambm sentia as veias pulsando mais depressa. O gemido rouco levou-o a aumentar a intensidade do abrao.
Beth sentou-se em seu colo e ele gemeu de prazer no ouvido dela.
Sentia o sabor adocicado de sua pele em todas as partes que provava. Nas orelhas, na testa, no nariz, em qualquer lugar que o desejo sugerisse. E estava pensando em tomar as descobertas mais ntimas, quando sentiu as duas mos em seu rosto e a boca sobre a sua.
O beijo era uma imitao do ato de amor, uma prvia do que faria com ele em pouco tempo. Muito pouco.
E os seios. Ah, os seios... Ficara to alucinado com as carcias e os beijos que quase esquecera como havia sonhado toc-los. Devagar para no assust-la, deslizou os dedos da cintura at bem perto de seu corao. E parou ali, no centro, sentindo o bater acelerado contra sua palma. Enterrou o rosto em seus cabelos e sentiu o perfume que tantas vezes havia inalado, movendo a mo lentamente para cobrir um seio.
O contato tornou o desejo ainda mais ardente. Eram seios fartos, abundantes e rgidos, e os mamilos j estavam rgidos sob a camisa e o suti.
 Michael?
Ele ignorou a pergunta porque sabia o que significava aquela voz rouca. Era um pedido. Roou o polegar contra o mamilo e sentiu o seio desabrochar em sua mo, o corpo inclinar-se numa oferta silenciosa, afastando-se para voltar a acomodar-se sobre certa parte rgida de sua anatomia.
A saleta estava ficando quente. Muito quente.
Mas Michael decidiu suportar o calor enquanto as mos vagavam sob o tecido fino da camisa, buscando o fecho do suti. Os dedos da mo livre tremiam, mas a outra, mais ousada, permanecia firme em sua busca incansvel, removendo camadas de tecido e expondo pores de pele quente e plida.
Um gemido profundo de desejo fez o sangue ferver em suas veias.
Como a queria! Chegava a ficar tonto com a intensidade dos sentimentos.
Acariciando um seio, beijou-a e sussurrou sem afastar os lbios dos dela:
	Beth, vamos para a cama. Quero voc nua. E minha.
Ela abriu os olhos. Apesar da escurido, podia ver os lbios rosados e midos do ltimo beijo.
	Michael...
Era possvel perceber a realidade em sua voz. Sem querer, acabara de arranc-la das garras da paixo.
O crebro e o corpo travavam um duelo de morte. Sensaes e raciocnio. Era como se dispusessem de pouco tempo.
	Quero voc  repetiu, temendo que ela dissesse no.
	No, Michael.
Ele fechou os olhos. No queria v-la se afastando. Beth recuou e levantou-se.
	Desculpe-me  disse.
	Essa fala devia ser minha.
	No queria lev-lo a fazer o que no...
	No estou acusando voc de nada. Ela esfregou as mos na cabea, despenteando-se ainda
mais. Macios, os cabelos deslizaram por entre seus dedos numa promessa ertica.
	E evidente que existe... algo entre ns  Beth opinou.
Algo.
	E no sei exatamente o que  certo ou errado nisso
tudo. Mas quanto a irmos para a cama juntos...
As palavras simples tiveram o poder de aquecer o sangue de Michael novamente. Queria deitar-se com ela. Imediatamente. Quando ela dissesse sim.
	Diga que no estou ouvindo um "mas" oculto nesse discurso, por favor.
	Mas...  ela sorriu , o mdico ainda no autorizou contatos fsicos.
	Oh...
	Sabe como , depois de um parto...
	Entendi.  O crebro havia entendido. Se o resto do corpo colaborasse, tudo seria mais fcil. Michael tentou encontrar uma posio mais confortvel no sof.  Posso dizer a meu ego que tudo seria diferente, no fosse por esse pequeno detalhe?
	Oh, Michael.  Ela riu, emitindo um som suave que quase o levara a perder o controle na caminhonete algum tempo antes.  Pode dizer a seu ego que seus beijos e suas carcias so... irresistveis.
O sangue fervia em suas veias.
	Nesse caso, meu ego e eu podemos voltar em outra ocasio?
	Oh, Michael...  Dessa vez ela no riu. E o riso fazia falta. Sabia o que viria em seguida.  Isso no seria muito sensato, seria?
Considerando que estavam casados apenas temporariamente e por mera convenincia? No.
Considerando como aquele algo entre eles crescia rapidamente, envolvendo-os por completo?
No.
CAPTULO VII

Dez dias haviam se passado desde aquela noite no sof, e Beth ainda fazia questo de manter-se afastada de Michael. Dez dias... Duzentas e quarenta horas dividindo uma pequena casa com um homem que todas as manhs saa deixando no ar seu perfume depois do banho, caf quente na cozinha e um olhar faminto e ardente estampado em sua memria.
E dez dias significavam dez noites como aquela, ambos sentados  mesa da cozinha com xcaras fumegantes de ch e caf.
Mas estava se saindo bem, tendo em vista as circunstncias. O nico problema era que a cada dia encontrava dificuldade maior para lembrar-se como era sensato e inteligente manter-se longe de Michael. Tinha de evitar a tentao do charme simples, do contato e dos beijos, porque render-se poderia lev-la  destruio.
Elijah, o melhor amigo de Michael, representava uma grande ajuda. A tenso devia estar comeando a importun-lo tambm, porque Elijah aparecera nas duas ltimas noites, e ambos o receberam com entusiasmo quase desesperado, como se sua presena pudesse cortar a tenso da atmosfera como ela cortava o bolo que assara naquele dia.
 Chocolate?  Elijah constatou animado.  E meu favorito.
Beth aproximou-se dele com um prato na mo. Em p perto do armrio, Michael virou-se para Beth com alguns garfos na mo. Para evitar um acidente, ela desviou o prato para o lado, e ele fez o mesmo com os talheres. E foi assim que acabaram se encontrando, corpo a corpo.
Beth sentia o corpo reagir como uma rvore de Natal coberta de minsculas luzes.
O mesmo calor brilhava nos olhos de Michael.
Qiie mal poderia haver em toc-lo?
Ele respirou fundo e o peito forte expandiu-se contra seus seios.
Quem seria prejudicado se o tocasse?
Mischa comeou a choramingar no quarto. Com o rosto queimando, Beth afastou-se, deixou o prato de bolo na frente de Elijah e foi atender ao chamado do filho. A caminhada at o quarto e o tempo que levou para trocar uma fralda foram suficientes para recuperar o controle. Tinha mais algum em quem pensar alm de si mesma. Michael no queria laos familiares, e ela e Mischa eram exatamente isso: uma famlia. Tinha de esquecer o poder de seduo das carcias de Michael e lembrar apenas a fora e a intensidade das diferenas entre eles.
Com Mischa nos braos, voltou  cozinha e encontrou os dois homens lembrando antigas festas do Dia dos Namorados, aparentemente uma tradio da famlia Wentworth.
	Os biscoitos de Evelyn!  Elijah suspirou.  E o armrio dos beijos. No era assim que o chamvamos? Eu o peguei l dentro com a minha namorada quando tnhamos quinze anos.
Michael riu.
	Estava apenas devolvendo a gentileza. Voc havia enviado  minha namorada um daqueles cartes aucarados e insinuantes.
Beth sentou-se na cadeira entre os dois e pegou o garfo. Mischa resmungava impaciente, o que a impedia de ouvir a conversa com clareza. No tinha importncia. Recordaes sobre frias e feriados no eram suas favoritas. O orfanato promovera comemoraes razoveis nas grandes datas, como o Natal e o Dia de Ao de Graas, mas as menores passavam quase despercebidas. Ningum pintava ovos ou fazia ninhos na Pscoa. No Halloween, s vezes faziam mscaras de papel para substiturem os vestidos brilhantes e as tiaras de pedras dos trajes de princesa com que tanto sonhara, e que s eram usados pelas meninas que tinham uma casa de verdade, um pai e uma me.
	E voc, o que fazia no Dia dos Namorados, Beth?  Elijah perguntou em voz alta.  Participava de todos aqueles jogos divertidos com os rapazes?
	No sei de que jogos est falando.  Como era enorme a distncia que as separava dos homens! Eles haviam trocado biscoitos e beijos com meninas bem vestidas em festas animadas, enquanto ela compartilhara de um quarto e um guarda-roupa com outras cinco meninas rfs.
De repente Michael inclinou-se e tirou o beb de seus braos. Mischa aquietou-se, interessado no novo rosto diante de seus olhos.
	No conhece os jogos do Dia dos Namorados?  ele disse, sorrindo para o menino.  Temos de fazer alguma coisa quanto a isso, Beth.
O tom de provocao causou-lhe um arrepio. Podia quase imaginar-se aos quinze anos de idade, o corao batendo mais forte enquanto Michael se aproximava para beij-la.
	Correio elegante  Elijah sugeriu.  Certa vez criamos uma verso diferente. Tnhamos pilhas de cartes do Dia dos Namorados. O carteiro pegava um da pilha dos rapazes e outro da pilha das garotas...
A imaginao de Beth permanecia no comando. A Manso Wentworth. O som das solas de borracha dos tnis de dezenas de adolescentes rangendo sobre o mrmore do piso da sala. Seus dedos tremiam enquanto abria o envelope com a caligrafia dele.
Percebeu que estava arfante. Que fantasia! Balanou a cabea para destru-la.
	No, nunca participei desse jogo  disse.
Elijah franziu a testa.
	 da Califrnia, certo? Talvez as pessoas de l tenham outras tradies alm de cupidos, brincadeiras envolvendo beijos e abraos e cartes melosos.
Ele no podia saber como havia sido diferente o mundo em que crescera.
	Fui criada em um orfanato para meninas em Los Angeles  contou.
Elijah empalideceu.
	Oh, eu... sinto muito...
	Tudo bem.  Beth sorriu. Era bom que Michael tambm ouvisse o que estava dizendo, porque assim ambos se lembrariam da distncia que os separava.  No me lembro de ter comemorado o Dia dos Namorados. Nunca.
Ao lado dela, Michael mudou de posio e encostou uma perna na dela. Beth afastou-se um pouco e percebeu que a perna a seguia.
	No comemoravam na escola?  Ele estudava o rosto de Mischa, um dedo afagando a face rechonchuda e corada.
Beth balanou a cabea.
	No vivamos num bairro muito privilegiado. O orfanato era vizinho de um abrigo para famlias de sem-teto, e nossas aulas aconteciam em um edifcio dentro dos limites do abrigo.
	Entendo  Elijah murmurou.  No era exatamente um bom lugar para festas.
	E isso mesmo.  Ela riu. O tipo de infncia e adolescncia que tivera no havia sido exatamente doloroso, mas... apenas vazio.
	Evelyn tinha uma predileo especial pelo Dia dos Namorados  Michael comentou.  Desde que eu era um garotinho, ela comeava os preparativos para a festa com semanas de antecedncia.
A governanta sria e grisalha era uma romntica incorrigvel? A ideia a fez sorrir. Michael a encarava.
	Ela espalhava dezenas de folhas de cartolina branca e papel de seda vermelho sobre a mesa. E aquelas bonecas brancas. Cola, tesouras e canetas. Jack fazia uma careta de desprezo e saa correndo de casa com sua inseparvel bola de futebol. Josie cooperava, confeccionando dezenas de cartes para os amigos e professores.
	Eu me lembro disso  Elijah confessou.  Eu usava todas as canetas e cores de papel. E fazia minha me chorar todos os anos com o carto que fazia para ela.
Beth olhou para Michael. V como somos diferentes? O menino privilegiado que comia biscoitos servidos em uma bandeja de prata e recebia cartes artesanais feitos com material de excelente qualidade. A rf criada em um lar para meninas num bairro pobre de Los Angeles onde recebera todos os cuidados bsicos, mas... quase nenhum carinho.
Sim, eram absolutamente diferentes. Mas como lembrar-se disso quando os olhos castanhos pareciam mergulhar nos dela? Quando via seu filho adormecido no peito forte e musculoso? Quando sentia a perna pressionada contra a dela, insistindo para que o visse como um homem, no como um passado.
	No  sussurrou. Ele nem piscou.
	No o qu, querida?
A mo larga e firme amparava a cabea de Mischa, e era quase como se pudesse sentir o toque em sua pele, confortando, acalmando, chamando-a para mais perto.
	Nunca fiz cartes de Dia dos Namorados. Nunca, entende?  Sentia os olhos de Elijah em seu rosto, mas no conseguia parar de falar. Michael precisava entender que tinham pouco em comum. Ou nada. Nada que pudesse justificar sequer mais um beijo.
As pernas continuavam se tocando, e de repente uma das mos encontrou a dela. Sob a mesa, os dedos entrelaaram-se, transmitindo uma fora que sugeria determinao.
	Tambm no me lembro de ter feito esses cartes, meu bem.  A voz de Michael soava rouca e lenta, como era comum em Oklahoma.  Bem, fazia apenas um por ano, mas nunca oferecia o trabalho a ningum.
Beth no conseguia respirar. Michael no estava entendendo. Era bvio que ele desistira de lutar contra aquilo que existia entre eles. Por que no podia reconhecer de uma vez a enorme distncia que os separava?
Porque os homens eram criaturas estpidas.
No quer saber para quem eu fazia meu nico carto anual?  ele perguntou.
Beth balanou a cabea. No queria saber. S queria que ele soltasse sua mo e admitisse que no tinham nada em comum. Nada.
Mas Michael falou mesmo assim.
	Fazia o carto para meus pais. Aqueles que, como voc, nunca conheci.
Michael a deixara fugir. Na noite anterior, deixara Beth levar o beb para o quarto como se l pudesse encontrar a salvao. Elijah reagira surpreso.
	Por que est fazendo essa pobre moa sofrer tanto? O comentrio o deixara furioso.
	Sofrer? Do que est falando?
	No sabe? Ser que abandonou o hbito de raciocinar?
	No me venha com esse ar de caubi, Elijah.
	Querer proteger uma mulher no  privilgio dos caubis. Michael cerrara os punhos.
	Ela tem meu nome, lembra-se?
	Por motivos bem especficos,  O amigo respondera com tom calmo.  No tem o direito de cobrar to caro por isso.
Michael suspirou e empurrou a porta. Fora almoar em casa porque as palavras de Elijah o encheram de culpa, e porque Beth no fora capaz de encar-lo naquela manh.
	Beth!  Ofereceria a ela a liberdade. E a deixaria ir embora, se quisesse. Talvez at insistisse no fim imediato do casamento.
No havia ningum em casa. Por um instante sentiu-se tomado pelo pnico. Beth havia fugido? No. A cadeira do beb permanecia sobre o balco da cozinha. E havia um cesto de brinquedos num canto da saleta.
E um bilhete sobre a mesa de madeira. "Dr. Scudder, 11:30".
Beth estava doente? Mischa?
O trajeto do rancho at a cidade levava cerca de vinte e cinco minutos. Michael percorreu a distncia em dezessete. E encontrou o consultrio do dr. Scudder fechado para o almoo.
O pnico retornou mais forte, e transformou-se em raiva assim que ele telefonou para o hospital e constatou que nenhum dos dois era paciente ali.
	No quero sentir essas coisas  murmurou. O objetivo do casamento no era estabelecer uma relao verdadeira baseada em sentimentos, nem assumir responsabilidades que no queria ter.
Era hora de pr um ponto final naquilo tudo.
Dois quarteires  frente encontrou o carro dela, mas nenhum sinal dos ocupantes. Mais duas quadras e teve de conter-se para no correr. Onde estariam? Queria encontrar Beth e comear a tomar as providncias necessrias para dissolver o casamento.
A padaria!
Seguia apressado, certo de que a encontraria l. Antes mesmo de entrar pde ver que o lugar estava repleto de clientes. Aparentemente, o ms de fevereiro despertava nas pessoas um apetite insacivel por doces. Na vitrine, um bolo confeitado em forma de corao o fez pensar na conversa da noite anterior. A infncia de Beth. A ausncia de experincias comuns a todos os jovens.
Ela devia comemorar ao menos um Dia dos Namorados.
E ele devia consultar um psiquiatra. Era hora de pensar em divrcio, no em comemoraes romnticas.
A sineta da porta soou quando ele entrou. Os olhos buscaram os rostos espalhados pelo interior do estabelecimento. Beth no estava l.
Talvez Bea e Millie, as proprietrias, soubessem onde poderia encontr-la. Respirou fundo, e o aroma de pes e biscoitos quentes penetrou em seus pulmes, despertando lembranas to doces quanto as guloseimas oferecidas no balco. O dia em que fizera o pedido de casamento. O rosto chocado de Beth e o cheiro adocicado que penetrava no apartamento sobre a padaria.
Por isso a recordao era to doce.
No balco, Bea, Millie e outra mulher atendiam as trs filas de clientes. Podia ter feito a pergunta em voz alta, mas, por alguma estranha razo, no queria que as pessoas soubessem que estava procurando pela prpria esposa.
Ou que a perdera de vista.
Devia ter previsto que algum o reconheceria. Dois empregados da Wentworth Oil Works, funcionrios do departamento de contabilidade, passaram por ele carregando sacos de papel branco. Ambos pararam para perguntar sobre o rancho, o casamento e a vida longe da empresa.
Michael respondeu com monosslabos.
O som de sua voz chamou a ateno de Lily Baker, que esperava dois lugares  frente dele na fila.
	Michael!  Ela o cumprimentou com aquele sorriso experiente, o tom de voz dando a entender que passara o dia todo naquela fila esperando encontr-lo.
	Como vai Lily?  Normalmente os olhos enormes e a postura ereta de Lily o divertiam, mas naquele dia pareciam apenas falsas e foradas.
Ela deixou que as pessoas entre eles ocupassem seu lugar na fila e chegou mais perto de Michael.
	O dia no  dos mais fceis? Parece zangado.
Apesar da nusea provocada pelo perfume forte e sofis
ticado, forou um sorriso e recuou um passo.
	Estou muito bem, obrigado.
Ela tocou seu brao. As unhas eram bem-cuidadas e pintadas com esmalte cintilante.
	No se parece com o velho Michael. Onde est aquele
sorriso encantador? E o bom humor contagiante?
Com esforo, distendeu os lbios.
	No sei do que est falando.  Podia acompanhar o movimento no balco por cima do penteado elaborado de Lily. Por que no iam mais depressa? Precisava conversar com Beth imediatamente, pois achava que dissolver o casamento era a melhor coisa a ser feita.
	Est aborrecido.  Lily balanou a cabea.  Devia saber que no nasceu para o casamento. As pessoas que frequentam minha livraria esto fazendo apostas sobre quanto tempo esse relacionamento vai durar. E impressionante. O playboy Wentworth e a balconista da padaria!
Michael encarou-a.
	Muito romntico.  Lily comentou com sarcasmo.   inacreditvel.
	Por qu?  Outras pessoas na fila se viravam para acompanhar a conversa.
Lily afastou-se um passo.
	Por nada, Michael. Estava apenas brincando com voc.
A sineta soou novamente. Pelo canto do olho, Michael viu uma jaqueta azul e um xale vermelho. Beth e Mischa. O alvio por t-los encontrado no amenizou o fogo que o queimava por dentro.
	Michael?  A surpresa na voz dela contribuiu para alimentar as suspeitas de Lily. Podia sentir os olhos da mulher em seu rosto.
Oplayboy Wentworth e a balconista da padaria. O abismo entre os dois mundos confirmaria tudo que Beth havia tentado dizer a ele na noite anterior.
Conhecia Lily. E conhecia a cidade. Sabia que um comentrio como aquele acabaria por chegar aos ouvidos de Beth. Especialmente se a dissoluo do casamento ocorresse em seguida.
Beth aproximou-se e ele encontrou a mo dela sobre a ala do carrinho de beb. Tambm encontrou seus olhos e fitou-os. Tocando seu queixo, ergueu a cabea de cabelos claros e depositou um beijo terno em seus lbios. E por alguma razo, no teve a sensao de estar cometendo um erro.
Sentiu o hlito morno de Beth no rosto antes de olhar para Lily.
	No costumo sair por a falando sobre minha esposa - disse.  E no admito que as pessoas questionem meu casamento.
	Michael?  Beth perguntou espantada.
Odiava aquele tom surpreso na voz dela. Era uma indicao de que no o conhecia, no confiava nele. Lily saberia interpret-lo. Por isso afagou a mo dela.
	Estava procurando por voc. Combinamos um almoo, lembra-se?
Bea saiu de trs do balco exibindo uma segurana que contrastava com a confuso de Beth.
	E eu prometi cuidar do beb.  E empurrou o carrinho para longe da me.  Divirtam-se... e no tenham pressa.
	Fiz reservas no Oscar's  Michael contou. No era verdade, mas Oscar conseguiria uma mesa para eles. Mais uma vez, inclinou-se para beijar a esposa nos lbios. S para convencer Lily,  claro.  Se nos d licena  disse, empurrando Beth para a porta.
	No estou vestida para este tipo de lugar  Beth reclamou em voz baixa. Puxou a cadeira para mais perto da mesa, esperando que os outros frequentadores do elegante restaurante imaginassem que usava uma saia com a blusa simples, e no a velha cala jeans.
	Ningum est olhando para voc  Michael respondeu antes de abrir o cardpio.
	Tem razo. Como ningum olhava para mim na padaria.
	Algum disse alguma coisa?  perguntou irritado, fechando o menu e deixando-o sobre a mesa.
	E como poderiam? Voc me tirou de l em menos de trinta segundos!  E todos os olhos haviam acompanhado a sada apressada. Tivera tempo para notar o clima estranho entre Lily Baker, a dona da livraria, e seu marido.
Michael voltou ao cardpio, abrindo-o com aparente casualidade.
	Ento ningum lhe disse nada... sobre coisa alguma?
Estava com medo de que fosse informada? Teria o temor
alguma relao com Lily? A mulher era mais velha que Michael, mas muito atraente.
	H algo que eu deva saber?  perguntou. Era Lily que ele queria?
	No. E voc? Est doente? Ou Mischa?
	Doente?  repetiu surpresa.
	Refiro-me  visita ao dr. Scudder. Vi seu bilhete sobre a mesa da cozinha. Marcou uma consulta para hoje, no?
Com o rosto vermelho, Beth fingiu estudar os talheres de prata.
	Voc nunca almoa em casa.  O que podia ter acontecido de to importante para faz-lo interromper um dia de trabalho?
O garom aproximou-se da mesa para anotar o pedido. De repente foram cercados por uma movimentao quase frentica. Copos de gua sendo enchidos, uma cesta de po colocada sobre a mesa ao lado de delicados potes com manteiga, e finalmente a refeio. Depois de mais alguns minutos, Beth cortou um pedao do peito de frango grelhado que acompanhava sua salada completa e reuniu coragem para fazer a pergunta.
	Por que foi para casa mais cedo? Os olhos de Michael permaneceram fixos no prato.
	Queria conversar com voc. O cabo do garfo parecia colado em sua mo. Lembrou a
evidente tenso entre ele Lily na padaria. Michael queria confessar que tinha uma amante? Queria informar que estava traindo sua esposa de convenincia?
	 sobre Lily?
	Lily?  Ele levantou a cabea.  O que tem Lily? O corao de Beth disparou.
	Pensei que... talvez quisesse me dizer que tem se encontrado com ela.
	Encontrado... como?
Ele no estava facilitando nada. Beth engoliu em seco.
	Ela parecia... bastante interessada em voc h alguns minutos.
	Lily?  Michael riu.  Ela s se interessa por duas coisas. Criar problemas e Jack. E no necessariamente nessa ordem.
A voz de Michael tremeu quando ele pronunciou o nome do irmo. Beth provou um pedao de frango e mastigou devagar, enquanto o marido esvaziava o copo de gua como se houvesse atravessado o deserto caminhando.
A apario imediata do garom para servir mais gua no alterou a atmosfera nervosa que os envolvia. Beth deixou o garfo sobre o prato.
 isso que o deixa to zangado com Jack? O fato de Lily gostar dele?
	No sei por que estamos falando sobre essa mulher.
Atenta, fitou-o em busca de uma possvel explicao para sua estranha disposio.
Porque o assunto parece perturb-lo. S pensei que talvez... Ele ergueu as sobrancelhas.
	Talvez?
	Talvez tenha se casado comigo por vingana. Porque era ela que queria de verdade.
Michael respirou fundo e passou as mos pelo rosto.
	Beth...
	Fale de uma vez, por favor.
	Droga! Por que estou sempre criando confuso, tornando a situao mais difcil.
	Fale.  Precisava saber.
	Eu no...
	A honestidade  sempre a melhor poltica. Alice sempre dizia isso e estava certa.
Michael gemeu.
	Por mais sensata que seja essa tal Alice, ela nunca teve uma esposa que precisasse libertar.
Um frio intenso envolveu seu corao. Um arrepio percorreu seus braos e alcanou as costas.
	Alice nunca se casou  disse, apenas para provar que ainda era capaz de falar com um mnimo de coerncia.
	O que no me surpreende. Beth bebeu um gole de gua.
	O que quer, Michael? S precisa dizer.
Ele levantou a cabea. Olhos castanhos e profundos encontraram seu rosto. A aliana em seu dedo era como um crculo de fogo, e Beth tocou-a com o polegar.
	Quero libert-la.
	Por qu?
	Para o inferno com meu av  Michael disparou em voz baixa.  Para o inferno com o fundo de penso. E com a empresa da famlia.
Ela fechou os olhos. Queria poder retirar o que dissera
hre honestidade. Queria que Michael mentisse para ela. Por alguma louca razo, queria permanecer casada com ele. E queria que ele desejasse a mesma coisa. Para o inferno com as diferenas.
	Mas no vou deix-la partir.
Beth abriu os olhos.
	Ainda no, pelo menos.  Michael tocou a mo dela.
Os dedos eram firmes e quentes. Tentou no responder ao contato, mas foi impossvel. Devia perguntar a ele por que mudara de ideia.
	Temos um acordo  disse.
	 verdade. E tambm temos um casamento.
O calor percorria seu brao e chegava ao corao.
	Certo.
	Tem certeza?  O polegar desenhava padres erticos sobre sua mo.  Pode esperar um pouco mais por sua liberdade?
A honestidade  a melhor poltica.
	No quero me libertar  disse. Mesmo que a liberdade fosse o caminho mais seguro.
	Ainda no  ele opinou.
	Ainda no.
	O problema  que... a casa do rancho  pequena.
Sabia sobre o que ele estava falando. Se continuassem convivendo num espao to reduzido... Respirou fundo e tomou uma deciso.
	Sim  disse.
A presso exercida pelos dedos sobre sua mo tor-nou-se maior.
	Elijah no ir nos visitar todas as noites. Esta noite, por exemplo, ele no vai aparecer, porque est zangado comigo.
	Sim  repetiu. No havia mais nada a dizer. Desde o incio, sabia que caminhavam para um desfecho especfico, apesar de todas as negativas e diferenas.
	Beth...  Michael parou para controlar a voz.  E frustrante abra-la e no poder... Estive consultando o mdico hoje. -- Uma onda de calor tingiu seu rosto de vermelho.  Estou... bem.
Ele fechou os olhos.
	Quer dizer que...
	Sim.  E sorriu. Queria estar feliz nesse momento mesmo que depois tivesse a vida toda para arrepender-se  Michael?
Os olhos castanhos se abriram e buscaram a boca rosada e carnuda.
	Gosto do que vejo.  Um sorriso sedutor iluminou seu rosto e os dedos soltaram a mo dela para acompanhar o contorno da boca.  Quer dizer que... podemos?
Ela assentiu.
	O dr. Scudder disse que estou pronta para...
	Para mim  Michael concluiu com certeza. Em seguida assumiu um tom srio,  Tem certeza, meu bem?
Sabia que ele no perguntava se estava certa do diagnstico do mdico. O que desejava saber era se estava disposta a ir para a cama sem nenhuma garantia ou promessa alm de um casamento temporrio e conveniente.
Quando pensara que Michael gostava de Lily, sentira-se devastada.
Quando pensara que ele queria dissolver o casamento, ficara apavorada.
	Sim, Michael. Tenho certeza absoluta.

CAPITULO VIII

A tarde permitiu todo o tipo de pensamentos i arrependimentos. Se Michael pudesse ter ido para casa naquele momento... Mas ele e Elijah tinham uma reunio com o gerente do banco naquela tarde. Fora deixada na porta da padaria com um beijo rpido. Beth fechou os olhos e lembrou as mos quentes em seu rosto, o sabor provocante dos lbios.
	Chegarei cedo em casa  ele havia prometido num sussurro rouco.
Mas seria cedo o bastante? Beth banhou Mischa na banheira sobre o balco da cozinha e tentou acalmar-se. Com Michael por perto, os olhos escuros seguindo seus movimentos, as mos provocando arrepios em sua pele, era fcil ignorar as preocupaes.
Mas uma vez sozinha...
	Mischa, acha que mame est agindo corretamente?
Ele a encarou com seriedade. Beth suspirou. Sabia que no estava agindo da maneira mais acertada. Mischa era uma lembrana viva de como j havia errado com relao ao sexo oposto.
Uma mulher no devia entregar-se a um homem somente para preencher um corao vazio.
	Ser que no aprendi nada?
Enxugou o beb e segurou-o junto ao peito. Mas seu corao no estava vazio. Mischa estava ali. O instinto maternal superava todos os sentimentos diante de um simples sorriso do beb. Beth constatou que no era mais a mulher  solitria que um dia conhecera o pai de Mischa no campus. A mulher solitria que sara de Los Angeles levando no ventre um filho que s ela queria.
Solido!
Beth levou a mo  boca num gesto perplexo. Pensara no conceito duas vezes sem sentir o menor temor. A emoo  que se recusava a reconhecer, que sempre temera... havia  desaparecido.
Mischa a destrura. Beijou a cabea do filho e sorriu.
	Oh, meu querido...
Michael.
Era impossvel negar a realidade. No que Mischa no fosse o ser mais querido e precioso de sua vida, mas a solido se tornara uma dor pungente e poderosa que s um homem poderia ter destrudo.
Michael.
Arrepios consecutivos percorriam seu corpo.
O pnico a impedia de respirar.
Apesar de todas as experincias, das calosidades, estava apaixonada por ele.
	Oh, no!  Lgrimas corriam por seu rosto e ela teve de enxug-las com um canto da toalha de Mischa.  Temos de ir embora, meu filho.
A ideia a encheu de energia. Iriam para qualquer lugar longe dali. Michael no perderia muito tempo procurando por eles, se  que teria o trabalho de comear a procur-los. Encontraria alguma outra mulher, algum que no fosse frgil como o cristal. Algum que no estivesse dominada por uma emoo to nova e dolorosa, to ameaadora. Encontraria algum que no estivesse descobrindo o amor pela primeira vez.
Correu para o quarto. Passava das cinco da tarde e Michael poderia chegar a qualquer momento. Apressada, vestiu o beb e deixou-o no bero. Depois tirou do armrio a velha valise. Uma das sacolas de papel estava amassada e ela tentou alis-la com gestos nervosos.
primeiro guardou as roupas de Mischa. Depois, preocuada com os minutos que passavam depressa, vestiu o caco e preparou a sacola de fraldas. Quem se incomodava com as prprias roupas quando levava no peito um corao em frangalhos?
Tremendo, pendurou a valise em um ombro e correu at a cozinha para pegar as chaves do carro. Jogaria a bagagem no porta-malas, ligaria o aquecedor e voltaria para buscar
o beb.
Abriu a porta para sair... e colidiu com Michael. Os braos fortes a enlaaram. Beth esperou ouvir o som do corao se partindo. Ele riu.
	Se fosse um pouco maior, poderia ter me nocauteado.  As mos estavam sobre seus ombros, e ele recuara um
passo.  Estava ansiosa para me ver?
Diga a ele que mudou de ideia. Michael entenderia. Diria que no queria ir para a cama com ele. Abriu a boca. Mas as palavras se recusavam a passar pela garganta.
	Esteve chorando  ele deduziu.
O instinto aperfeioado durante os anos que passara no orfanato assumiu o comando. Jamais.deixe algum perceber sua dor.
	No!
As mos pesavam sobre seus ombros.
	Machucou-se? Cortou um dedo? Tropeou em algum lugar? Por que est chorando?
	Por nada.  No podia ter pensado em resposta pior.
Michael fechou a porta. Beth concentrou-se em um ponto qualquer acima de seu ombro esquerdo. Tentou pensar em como sairia de casa com o filho s seis da tarde, justamente na noite em que prometera ir para a cama com o marido. Na noite com que havia sonhado durante tanto tempo.
	Beth... est indo embora? Vai me deixar?
No podia dizer que sim. No queria. S sabia que devia...
	Beth, o que foi?
Muda, ela balanou a cabea. Se manifestasse seus receios, eles poderiam domin-la. Se os ignorasse e no permitisse que crescessem, ento talvez pudesse resistir ao poder do medo.
	Est com medo  ele concluiu, como se pudesse ler seus pensamentos.
	Estou.  A palavra soou fraca e ela deixou cair os ombros, como se de repente estivesse vazia.  Desculpe-me mas... sim, estou com medo.
Michael sorriu.
	J havia admitido isso antes. Uma vez.
A lembrana invadiu sua conscincia. No havia lembrado o episdio at aquele momento. Na noite em que dera  luz Mischa, havia dito a Michael que estava com medo. Talvez algum instinto o houvesse reconhecido como o homem que mudaria sua vida. Se para melhor ou pior... bem, preferia no pensar nisso.
Ele tirou a valise de seu ombro e deixou-a cair no cho. Em seguida foi a vez da sacola de fraldas. Depois tirou o palet e jogou-o sobre as bolsas. Por alguma razo, o gesto assumiu a caracterstica de um sinal. Para peg-las, teria de passar por Michael.
Uma das mos deslizou at segurar sua nuca. Ele a puxou de encontro ao peito.
	Agora  murmurou , vai me contar do que tem medo.
O ar saa de seus pulmes aos poucos, como se soluasse.
Os braos enlaaram a cintura de Michael como se tivessem vontade prpria. O que poderia dizer?
	O pai de Mischa...  Tinha a inteno de explicar como os sentimentos por ele haviam sido diferentes. Superficiais e sem importncia, comparados ao que sentia por Michael. Depois entraria no carro e partiria.
	Ele perdeu o direito ao ttulo de pai quando deixou voc partir.
Ela assentiu. Michael estava certo. Respirou fundo e reuniu toda a coragem de que ainda dispunha. O que estava em questo no era Evan, mas Michael e como podia ser perigoso para ela.
Um dedo acariciava seu queixo. A sensao eletrizante espalhava pelos braos e chegava aos seios.
	Michael  sussurrou, levantando a cabea para fit-lo.
Olhos castanhos e profundos. Eles sempre a encontravam, 0 se pudessem chegar ao fundo de sua alma. A mo
fagou seu rosto e a aliana de ouro brilhou. Beth fechou
oS olhos.
__ Beth...  Foi quase um suspiro. Michael inclinou-se e aproximou os lbios dos dela.  No vou mago-la. No como ele fez.  voc quem vai decidir quando devemos parar. Quando desistir.
Ela abriu os olhos. E viu o rosto de Michael. Olhos castanhos cheios de promessas. Podia dizer que aquele no era o melhor momento para irem para a cama. Podia dizer que havia chegado a hora de se separarem. Mas nunca estivera apaixonada antes.
Devagar, ergueu-se nas pontas dos ps.
	Quero fazer amor com voc  disse. Em seguida beijou-o.
Michael sabia que tinha um jeito todo especial com as mulheres. Sabia apreci-las. Gostava delas. Fazia questo de trat-las bem, e em retorno sempre obtivera prazer.
Mas nenhuma mulher jamais fora capaz de fazer suas mos tremerem.
Nunca antes sentira tamanha preocupao antes de levar algum para a cama.
Nem tivera tanta certeza de que seria bom.
Ela havia sussurrado:
	Quero fazer amor com voc.
E para confirmar a famosa lei de Murphy, Mischa comeara a chorar. Beth o deixara para ir atender ao chamado do filho.
Michael no se importara. Ela voltaria, tinha certeza disso. Mas quando entrara em casa... bem, fora impossvel no ler o medo em seu rosto, no perceber a necessidade de escapar em seus olhos.
Devia t-la deixado ir.
Talvez.
Mas, em vez disso, ela o beijara e algo quente e envolvente brotara em seu peito, uma felicidade como jamais havia I experimentado.
	Michael?
Beth estava parada na porta da cozinha. Ele se virou e sorriu.
	O que est havendo aqui?
Michael apontou para dois pratos sobre a mesa. Embora o desejo o impelisse a lev-la para a cama o mais depressa I possvel, outro instinto aconselhava precauo.
	Esquentei algumas sobras para o nosso jantar. Achei melhor aliment-la primeiro.
Um rubor gracioso tingiu o rosto sorridente. Michael riu, tomado mais uma vez por aquela felicidade borbulhante.
	Eu a embarao?
Ela apertou os lbios e abaixou a cabea. Depois aproximou-se com passos lentos e sinuosos. Ao chegar bem perto, ergueu a cabea.
	Voc me excita  disse.
Michael cambaleou e apoiou-se no balco. Dramatizao era exagerada, mas no muito. Estava realmente tonto, inebriado pelo poder de seduo daquela mulher. Num minuto era doce, no outro, atrevida. Seria uma noite e tanto.
	No estou mais com fome  disse apressado.
Os olhos azuis brilhavam como se houvesse uma chama dentro deles.
	Pois eu estou faminta. Ele balanou a cabea.
	Est me matando, Beth.
	Ainda no.
A comida no tinha sabor algum. No sabia nem se estava quente ou fria. Mas Beth comia devagar, saboreando a salada e mastigando os alimentos como se no tivesse mais nada para fazer.
	Graas a Deus no serviu ervilhas  ele gemeu.
Beth terminou de comer, lavou os pratos e ficou encabulada novamente. Gostava daquele jeito inocente e retrado. Mas queria despertar novamente o lado sedutor e ousado de sua personalidade, de preferncia enquanto removesse suas roupas pea por pea.
Finalmente no havia mais nada a fazer alm de apagar a luz da cozinha. O som do interruptor provocou um sobressalto e ela se virou. Michael pousou as mos em seus ombros.
	No fique nervosa.
	Disse a vov de dentes enormes a Chapeuzinho Vermelho.
	 assim que se sente?
Podia ouvir o som de sua respirao ofegante.
	Depois daquele jantar? Acho que me sinto mais como um dos Trs Porquinhos.
Ele riu.
	Por que tenho a sensao de que continuo sendo o Lobo Mau?
	Vai encher o pulmo, soprar e destruir minha casa? Michael tentou no se mostrar muito convencido.
	Vejo que est comeando a entender o esprito do jogo. Beth riu e ele a tomou nos braos, as gargalhadas ecoando
as dela.
	Venha comigo para a cama, Beth. Vamos nos divertir. Sentiu os msculos do corpo delicado subitamente rgidos.
	 isso que a situao representa para voc? O instinto recomendava cautela.
	Sim.  Porque diverso era aquilo em que acreditava e o que tinha a oferecer.
	Muito bem, mostre o caminho.
Foi o sorriso nos lbios dela que o convenceu a agir. Rpido, dobrou os joelhos e encostou um ombro em seu ventre para ergu-la  moda dos homens das cavernas. Preferia esse tipo de atmosfera relaxada e divertida ao romantismo estudado dos filmes, e por isso jogou-a sobre o colcho com fora exagerada.
Seguiu-a imediatamente, roando o nariz em seu pescoo e depositando beijos molhados e barulhentos em seu rosto.
Beth ria e se contorcia sob seu corpo, deixando-o to excitado que depois de alguns minutos ele teve de se afastar um pouco.
Ela aproveitou o momento de hesitao para empurr-lo de costas sobre a cama e fazer ccegas em seu abdome com os dedos indicadores, at que no teve outra alternativa alm de bater em sua cabea com um dos travesseiros de penas. Beth agarrou outro travesseiro,  claro, e revidou da mesma maneira. Enquanto brincavam, Michael abriu vrios botes de sua blusa e conseguiu despir a camisa.
Fingindo no ter notado, desafiou-a para uma disputa de brao-de-ferro, mas inventou uma nova regra para o jogo. Teriam de brigar com as pernas. Enquanto mediam foras, conseguiu abrir o boto da cala jeans. Uma segunda batalha terminou com o zper da cala jeans aberto. Um movimento rpido, e prendeu-a sobre o colcho para retribuiu as ccegas. E foi assim que conseguiu livr-la da cala.
Encararam-se ofegantes. O riso desapareceu de seus olhos quando ela percebeu o que havia acontecido. Michael estava nu da cintura para cima. Apenas uma calcinha delicada e um jeans masculino separavam as partes mais quentes de seus corpos.
	Michael  ela murmurou, as mos crispadas sobre seus ombros.  Nunca me diverti tanto.
Ele respondeu com um sorriso, mas algo de muito srio estava acontecendo. Algo que fazia suas mos tremerem novamente quando tocou a blusa fina. Terminou de soltar os ltimos botes e separou as duas partes. Os seios fartos pareciam querer saltar do suti, e a respirao rpida e arfante os tornava ainda mais tentadores.
Os lbios buscaram o vale entre eles. Beijou a pele quente com delicadeza e sentiu o calor em seu rosto.
	Beth...  comeou. Queria pensar em algo tolo e engraado para dizer, algo que a fizesse rir, mas s conseguia concentrar-se em sua necessidade de beij-la.
Encontrou a boca carnuda e abriu-a com a ponta da lngua. Ela a recebeu como se h muito desejasse sentir aquele sabor, e sua reao provocou um arrepio incontrolvel. Sem interromper o beijo, ergueu o corpo para terminar de despi-la e livrar-se das roupas que ainda aprisionavam seu corpo sedento.
Um tremor a sacudiu quando as mos encontraram seus seios. Beth contorceu-se e ele deslizou a lngua por seu rosto, pelo pescoo, pelos ombros.
Os mamilos exerciam uma presso delicada contra suas palmas. A pele tinha o sabor de cerejas e menta, e sentia-se faminto.
Uma das mos abandonou um seio para passar pelo ventre e alcanar o quadril. Ela gemeu novamente, e Michael deixou a lngua prosseguir explorando o corpo febril at chegar ao ventre.
Lentamente, os dedos dirigiram-se  juno das pernas. Ela se encolheu ao sentir o contato mais ntimo.
	Tudo bem com voc?  Era o comentrio mais engraado em que conseguia pensar.
	Michael...  Os dedos encontraram seus cabelos.  Michael, quero voc.
Tambm a queria. E precisava t-la. Por inteiro. Completamente. Encaixou-se entre suas pernas e foi deslizando para o mais ntimo e ertico dos beijos, descobrindo que ela estava pronta para receb-lo. Beth pronunciou seu nome, implorou para ser possuda, mas antes tinha de completar aquela etapa.
Provou-a diversas vezes, o sangue pulsando forte em todos os recantos do corpo, especialmente nos mais ocultos. Era uma doce tortura. E ento ela gritou e inclinou-se como se buscasse sua mo. Foi fascinante v-la chegar ao clmax. E s ento se deu conta de que nunca havia feito amor com tanta seriedade em toda sua vida.
Os gritos de Mischa a acordaram. Beth abriu os olhos, piscou e percebeu que estava nua e sozinha na cama de Michael. Um instante depois ele entrou no quarto, vestindo apenas a cueca e carregando o beb nos braos.
Acho que no tenho o que este rapazinho est querendo 	disse sorrindo.
O calor invadiu seu corpo. Olhou em volta, examinando o quarto banhado em uma luz suave. O volume sobre a cadeira devia ser formado por suas roupas.
	Vou me vestir e o pegarei num...
	Por qu?  O colcho afundou quando ele se sentou. 	No pode amament-lo aqui?
Mais uma onda de calor tingiu seu rosto de vermelho.
	Bem...
Ele ignorou a hesitao. Com uma das mos, ajeitou o travesseiro contra o encosto da cama.
	Do que mais precisa?
Beth arrastou-se at o meio da cama e puxou o lenol at a altura do queixo, acomodando-se contra o travesseiro. Michael colocou o beb em seus braos e o lenol caiu. Ela o ajeitou apressada enquanto levava o filho ao seio. Mischa silenciou assim que comeou a mamar. Com a mo livre, Beth tentava arranjar o lenol e o cobertor de acordo com a modstia.
Quando levantou  cabea, descobriu que Michael a observava com grande interesse. E corou mais uma vez.
	Est olhando para mim  acusou com uma risada constrangida.
Ele deslizou para baixo das cobertas.
	Gosto de observ-la. Gosto de fazer amor com voc. A mo afagava o rosto rosado.
Beth virou-se para beijar a palma que a afagava.
	Obrigada  disse.
	Sabe muito bem que o prazer foi todo meu.
	Nem todo  ela riu.
Michael imitou-a.
Ficaram sentados por alguns instantes num silncio camarada.
De repente ele perguntou.
	De onde vem Beth?
	Como assim?
	Uma Elizabeth pode ser Liz, Liza ou Eliza. E existem muitos outros diminutivos. De onde vem Beth?
	No sou Elizabeth, se  o que est perguntando. Sou apenas Beth. Era o nome da enfermeira que me encontrou.  E encolheu os ombros.  Talvez ela fosse Elizabeth. No sei.
A luz suave do abajur lanava sombras sobre o rosto de Michael. A barba por fazer escurecia a regio do queixo forte. A mesma barba que roara em todas as partes de seu corpo. Lembrando todos os detalhes, no conseguia decidir se o panorama era ertico ou embaraoso.
	Uma enfermeira a encontrou?  Ele afastou uma mecha de cabelos que caa sobre sua testa.
Beth relaxou no travesseiro.
	Sim. Fui deixada na porta do Masterson Hospital em Los Angeles.
	E tornou-se Beth Masterson?
Ela assentiu e, sem pensar muito no que fazia, mudou Mischa para o outro seio.
	Exatamente. Nada parecido com nascer como uma colher de prata na boca, no ?
	Ao contrrio de mim, voc quer dizer?
	Acho que sim.  Seu passado o incomodava?
	Isso no me incomoda, Beth. Era esperto demais.
	Caso tenha esquecido, ns dois somos rfos.
	 verdade. Mas voc tem seu av, sua irm Josie.  Deu um pequeno passo na direo de se tornar uma esposa de verdade para ele.  E teve Jack,  claro.
	E claro. Jack.
Haviam acabado de fazer amor. Isso no dava a ela o direito de tentar conhec-lo emocionalmente?
	Por que fica to aborrecido quando fala sobre seu irmo?
	Fico aborrecido?
	Voc sabe que sim. Seu tom de voz muda, fica mais seco e duro, como se o acusasse de alguma coisa. Por qu?
Ele se levantou da cama.
	Deixe-me levar Mischa de volta ao bero.
Quando voltou, ele no apagou a luz. Beth interpretou sua atitude como uma indicao de que estava disposto a conversar, e esperou que pudesse finalmente comear a eu-tender o marido.
Ele se despiu antes de mergulhar sob as cobertas, e foi impossvel esconder o espanto diante do corpo perfeito e excitado.
	Voc...
	Sim, estou fascinado por voc  ele confessou.
O ar parecia estar preso nos pulmes de Beth, e o fogo que via nos olhos dele s dificultava ainda mais a simples tarefa de respirar.
	Vamos conversar  sugeriu apressada. Ao amanhecer, quando a luz do dia e as roupas formassem uma barreira entre eles, no teria a ousadia necessria para question-lo.
	Est bem.  Aproximou-se dela e deitou-se de bruos. O hlito quente aquecia a pele do ombro nu e delicado. Com um gesto casual, Michael puxou o lenol at a cintura de Beth.  Vamos falar sobre seus seios.
	Michael!
	O qu?
Agora o hlito aquecia a poro de pele imediatamente acima de um seio. A textura macia dos cabelos escuros pareciam implorar por um carinho de seus dedos, e ela atendeu ao pedido silencioso.
	Tive inveja de Mischa, sabe?
Tentou aproveitar a oportunidade para levar o assunto de volta ao ponto inicial.
	E eu tive inveja de Jack.
Os olhos dele no deixavam seus seios.
	De Jack? Por qu?
Ela engoliu em seco.
	Porque...  Michael parecia determinado a no falar sobre o assunto. Como poderia ser uma esposa de verdade se no conseguia discutir certos assuntos com o marido? Se o homem com quem se casara no a deixava penetrar em seu corao?
O dedo de Michael comeou a descrever crculos em torno de um mamilo. __ Michael! Ele a envolveu num olhar sensual.
	Agora  minha vez  disse, proximando-se para tomar parte de um seio em sua boca.
O quarto girou. A escurido venceu a luz. Talvez houvesse fechado os olhos, talvez o desejo houvesse sufocado todas as outras sensaes, porque de repente s podia absorver o calor dos lbios de michael em seu seio, a fragrncia dos cabelos dele penetrando em seus sentidos, o sabor do dedo que ele inseria lentamente em sua boca.
Pelo menos a audio estava funcionando, porque ouviu claramente um gemido. Incapaz de conter-se, puxou-o sobre o prprio corpo e abriu as pernas numa oferta silenciosa. Michael s teve tempo de pegar um preservativo e coloc-lo antes de mergulhar na mais doce e envolvente das fantasias. Quantas vezes sonhara com aquele momento? Mas a realidade superava em muito a imaginao.
Beth tambm se entregava por completo s sensaes, mas tomava muito cuidado para se limitar aos gemidos de prazer. No sabia se a voz teria funcionado, porque preferiu no test-la, temendo perder o controle e queim-lo com o ardor de seu amor. Ou afugent-lo com a intensidade de seus sentimentos.
O sol penetrava pelas frestas da janela quando o toque estridente do telefone os acordou. Beth abriu os olhos. Virando de lado, Michael tambm tinha os olhos abertos, e a encarava como se houvesse acabado de gritar em seu ouvido.
Sentiu pena dele,
	 o telefone  disse.  O aparelho est do seu lado da cama.
A mo buscou o fone s cegas. Ao levar o aparelho ao ouvido, ele se virou de costas. O outro brao deslizou por baixo do corpo de Beth e puxou-a para mais perto.
	Al?
Uma voz soou do outro lado da linha, Beth olhou para o relgio. Eram sete horas da manh. Ela, Michael e Mischa haviam dormido como anjos.
Michael respondia com sons incompreensveis, e ela comeou a se livrar do abrao para levantar-se e ir ver se o beb estava bem. Mas a mo de Michael se tornou mais forte sobre seu ombro, impedindo-a de afastar-se.
Ele resmungou mais uma vez, depois bateu o telefone.
	Maldio!  explodiu, pousando um brao sobre
os olhos.
Beth sentiu o estmago contrado e reconheceu o mau pressentimento.
	O que foi?
	Meu av vem nos visitar.
	Quando?
	Dentro de uma hora.
CAPTULO IX

Joseph os fazia esperar. Michael mudou de posio no sof da pequena sala de estar.
	 uma ttica  disse.  Chegar tarde o coloca na posio de quem detm o poder.
Beth exibia um sereno sorriso maternal e embalava Mischa na cadeira de balano. Michael levantou-se do sof.
	Sei que  uma ttica. Eu mesmo a utilizei por diversas
vezes, e mesmo assim estou perturbado.
Beth no parou de balanar.
	J pensou que ele pode simplesmente atrasado? O homem passou um ms fora da cidade. Deve ter muito o que fazer.
Michael encarou-a irritado.
	Ele vai devor-la. E sem mastigar!
O sorriso permaneceu imutvel.
Ele gemeu.
	No est entendendo. Meu av est procurando uma brecha, uma pequena fissura. Vai ser preciso muito empenho para convencermos o velho sobre o nosso casamento.
Os olhos encontraram os dele. O azul intenso era como uma luz em seu rosto.
	O que h de irreal no nosso casamento, Michael? Que parte dele ter de ser representada?
O olhar e as palavras o mandaram de volta ao sof. O que havia de irreal no casamento? Na noite anterior, fora praticamente atropelado pela realidade de Beth em sua cama.
Devia estar grato ao av, em vez de sentir-se to zangado. A inspeo do velho seria a ltima etapa para a liberao do fundo. Assim que tivesse o dinheiro, no precisaria mais do casamento.
Beth e Mischa poderiam comear uma nova vida com mais segurana e conforto. E ele recuperaria a identidade de playboy.
Beth encontraria outro homem com quem pudesse se casar de verdade.
O que havia de irreal no casamento?
	Droga, odeio tudo isso!  disse em voz alta. Beth levantou as sobrancelhas.
	A espera?
	E claro que  a espera. O que mais poderia ser?
	 claro. A luz da manh o transformou realmente no Lobo Mau.
Michael no pde evitar um sorriso. A lembrana da noite anterior era to doce e to envolvente que no podia con-ter-se. Descobriu-se longe do sof mais uma vez, ajoelhado, ajoelhado aos ps dela. Com as mos nos braos da cadeira, deteve o movimento.
	Beth...
O que ia dizer? Devia agradecer pela noite de amor? Ou implorar pela repetio da experincia? Devia fazer outra promessa como a da noite anterior e dizer que ela determinaria o momento de pararem?
O que seria mais justo? O que seria correto? O que podia fazer, se esperava ansioso pela aprovao do av a fim de pr um ponto final no casamento?
	Entende por que estamos aqui, no ?  A voz no soava to firme.
Ela respondeu com um movimento afirmativo de cabea.
	Um homem deve recuperar o controle de sua companhia. Outro homem precisa se livrar desse controle.
	E da famlia.  Michael acrescentou.  Das responsabilidades.  E depois obrigou-se a dizer:  E voc tambm deve recuperar sua liberdade.
Ela apertou os olhos. Teria imaginado aquela sombra de dor em seu rosto? Mas nunca fizera promessas de amor eterno.
	 Beth...
As batidas na porta da frente o interromperam. Os dois trocaram um olhar preocupado. Michael respirou fundo e levantou-se. Beth o imitou.
	Fique aqui  disse.  Deixe-me ir abrir a porta.
Os primeiros minutos foram ocupados pelas apresentaes. Joseph, aparentemente cansado, porm firme, havia levado Josie. Michael preparou-se para tudo, sem saber se a presena da irm mais velha tornaria a situao melhor ou pior.
Na pior das hipteses, passaria o resto da vida acorrentado  mesa da Wentworth Oil Works e veria o av morrer rapidamente de tristeza pela morte de Jack e do tdio decorrente de uma aposentadoria forada.
O velho sentou-se e aceitou uma xcara de caf. Beth e Josie tambm saboreavam a bebida quente e aromtica. Michael precisava de algo para fazer, e por isso insistira em servi-los antes de ir sentar-se entre as duas no sof. Grvida pela primeira vez, sua irm falava sobre bebs com Beth, que exibia uma expresso impenetrvel. Talvez houvesse estragado tudo ao falar sobre sua liberdade.
Joseph bebia o caf em silncio.
	E ento?  Michael perguntou, tentando iniciar uma conversa.
O velho resmungou alguma coisa incompreensvel. Michael tentou novamente.
	Teve sorte em Washington?
	No estou aqui para falar sobre isso.
O que significava que a resposta era negativa.
Joseph mergulhou novamente num silncio cansado, porm atento.
Aquele era um jogo que podia ser disputado a dois. Michael ignorou o av e voltou-se para as duas mulheres.
Josie estava falando.
E ento meu marido disse...
	Tenho trs perguntas para voc  Joseph interrompeu. Preparando-se para o confronto, Michael encarou-o.
	E quais so elas?
	No estou falando com voc. As perguntas so para ela.  E fez um gesto com a cabea na direo de Beth.
Ela ficou quieta por uma frao de segundo, depois pousou a mo sobre a de Josie.
	Desculpe-me  disse, antes de encarar o velho patriarca dos Wentworth.  Lamento, sr. Wentworth, mas creio que no ouvi o que disse. E caso tenha esquecido, meu nome  Beth.
Josie olhou para Michael com um sorriso divertido. Ele procurou esconder a satisfao. Um a zero para Beth. Joseph franziu a testa.
	Quanto tempo tem o beb... Beth? Apreensivo, Michael mudou de posio no sof.
	Por que est fazendo perguntas sobre Mischa? Beth falou por ele.
	Meu filho tem seis semanas  respondeu com tom calmo.  E como Michael j explicou anteriormente, no  filho dele.
Joseph cruzou as pernas. Os sapatos Ferragamo, brilhantes e impecveis, estavam amarrados com cordes to apertados quanto as mos que ele cruzara sobre o joelho.
	Quem  o pai?
Beth ficou vermelha.   
	Eu sou o pai de Mischa --- Michael adiantou-se. Sentia dores nas mandbulas por causa de esforo para controlar a voz.  Ele no  meu filho, mas eu sou o pai dele. E chega de perguntas, vov.
Joseph olhou para o neto com ar de censura e reprovao.
Michael sustentou o olhar com um misto de firmeza e ousadia. Normalmente deixava o av fazer as coisas a seu modo, mas dessa vez... Com Beth e Mischa seria diferente-
Sempre capaz de despertar um lado mais bondoso e gentil de Joseph, Josie amenizou a tenso levando a conversa de volta ao campo dos bebs. Alguns particulares sobre o parto, como faz-los sorrir, como segurar o corpo escorregadio durante o banho...
Michael percebeu que respondia e oferecia explicaes tanto quanto Beth. Sabia muito sobre bebs, especialmente sobre Mischa. Notou que havia cerrado um punho. Acabara de dizer ao av que era o pai daquele menino. Quando Beth e Mischa o deixassem, encontraria uma forma de garantir o contato com a criana. Contato constante.
Beth comeou a fazer perguntas sobre a capital da nao, os pontos mais interessantes e as personalidades que circulavam pelas ruas, e Joseph no deixou de responder a nenhuma questo.
Josie aproximou-se do irmo e baixou a voz.
	Soube escolher bem. Devia ter vindo visit-los assim que recebi o surpreendente comunicado sobre seu casamento. Gostei dela.
	Voc tambm est casada h pouco tempo. Deve compreender que desejamos um pouco de privacidade.  Josie tambm supervisionava a construo de uma nova casa no rancho do marido, e Michael usou o fato como mais uma desculpa para mant-la afastada.  A propsito, como conseguiu sair de perto de Max? Ele no costuma deix-la sozinha por muito tempo.
	Fui escolher alguns mveis que vov ofereceu para a casa nova. A escrivaninha que foi de vov faz parte do lote.  Olhou em volta como se estudasse as possibilidades da sala pequena e sem atrativos.  Podia usar algumas coisas da manso para realar este lugar.
Michael no podia explicar que aquele era apenas um abrigo temporrio para uma famlia temporria. De repente ela arregalou os olhos.
	Veja s aquilo!
Michael seguiu a direo apontada por ela. Joseph Went-worth tinha uma fralda de pano sobre o ombro do elegante terno cinza. E Beth estava acomodando o beb em seus braos. O velho no sorria, mas o rosto de linhas profundas avia se tornado mais suave.
Michael no conseguia acreditar no que via. Be th se mostrava orgulhosa do filho e tratava o visitante com simpatia e amizade.
Antes que ela pudesse afastar-se, Joseph a segurou pelo pulso.
	Terceira pergunta, mocinha.
Michael sentiu a tenso. O velho truque de se mostrar envolvido para obrigar o oponente a baixar a guarda.
	Ama meu neto?
E atac-lo sem rodeios nem piedade.
Um zumbido estranho soou nos ouvidos de Michael. Era isso. Hora de nadar ou afogar-se. E pensar que menos de meia hora antes praticamente a mandara embora falando sobre sua liberdade! E depois da melhor noite de amor que tivera em toda sua vida. Que maravilha!
Quem poderia culp-la se ela escolhesse o caminho mais fcil e contasse que o casamento era apenas uma farsa?
Beth no teria nada a perder, j que haviam assinado um acordo no qual sua estabilidade financeira havia sido garantida, e ele passaria no mnimo mais trs anos preso a Oil Works. Ou o resto da vida.
Michael ouviu a voz dela acima do zumbido incmodo.
	Promete que essa  a ltima pergunta?
Joseph fez um movimento afirmativo com a cabea e insistiu:
	Voc o ama?
Michael resistiu ao impulso de balanar a cabea como um cachorro para livrar-se do rudo enlouquecedor. Josie inclinou-se para a frente.
Apenas um leve rubor no rosto de Beth traa o desconforto. Ela olhou por cima do ombro e encontrou o olhar atento de Michael. Azul era uma cor muito bonita.
	Sim  disse.  Eu amo Michael.
Joseph suspirou e relaxou na cadeira de balano.
Josie suspirou e relaxou no sof.
O zumbido nos ouvidos de Michael parou de repente e a sala foi invadida pelo silncio. A xcara tilintou sobre o pires quando ele deixou o conjunto sobre a mesa de canto.
Beth retomou o assento ao lado de Josie. Em segundos estavam conversando novamente sobre gravidez, parto e bebs. Joseph segurava Mischa e parecia fascinado com o rosto pequeno do menino.
Mischa tambm parecia muito satisfeito. O sorriso de Beth iluminou o ambiente quando Josie confessou estar feliz por ter uma cunhada. Seria a irm com que ela sempre havia sonhado.
 Gostaria que Jack estivesse aqui conoseo  eia comentou ao abra-la.  Ou pelo menos Sabrina.  Suspirou.  Oh, cus, espero que ela esteja bem.
As palavras e o suspiro da irm cristalizaram uma certeza na mente de Michae. Tenso, esperou sentir a corda apertando seu pescoo. A qualquer minuto perderia o ar e sufocaria. Porque subitamente sabia.
Ningum conquistaria a liberdade naquele dia. Nem em qualquer outro dia.
Sim, poderia livrar-se da Oil Works em carter definitivo, mas passaria o resto da vida casado.
Beth acabara de dizer que o amava.
Ela o amava!
Desde o momento em que a vira pela primeira vez, encontrara dificuldades para afastar-se. Podia t-la deixado na sala de emergncia do hospital, mas fora sentar-se na sala de espera da maternidade.
Podia ter mandado um buque de flores. Em vez disso, fora segurar a mo dela enquanto Beth dava  luz uma criana de quem ele agora afirmava ser o pai.
Acreditara estar formando uma aliana temporria.
Mas de repente ela se mostrava tmida e sexy, e precisava dele. Como pai de seu filho. Precisava dele para ter a famlia que certamente encontraria em Josie e Joseph, um homem capaz de rosnar num momento e defend-la com unhas e dentes no instante seguinte. Como agir diferente, quando o mais fcil era dar a Beth e Mischa sua prpria famlia?
Por alguma estranha razo, no pensava no peso da responsabilidade.
	Michael?  Josie estava falando com ele.  O que voc acha?
No tinha ideia de qual era o assunto. Mas sabia que estava casado com Beth para sempre.
E esperava que todas as coisas que tinha para oferecer, segurana, um lar, uma famlia e uma cama quente todas as noites, pudessem compensar a nica coisa que jamais teria para dar.
Seu corao.
Beth deixou escapar um suspiro aliviado quando Michael fechou a porta da casa. Josie e Joseph haviam partido. Michael tocou seu ombro.
	Voc est bem?  perguntou.  Foi mais difcil do que eu esperava.
Beth encolheu os ombros. O encontro com Josie fora mais duro do que Michael imaginava. O velho a encurralara na cozinha antes de ir embora.
	Alice sempre disse que  impossvel pr o nariz na gua sem molhar o rosto todo.
Ele riu.
	Acho que dessa vez consegui entender.
	Estou querendo dizer que procurei por isso.  Por tudo. Quando concordara com o casamento, aceitara fazer o papel de esposa de Michael diante de sua famlia. Mas quem teria imaginado que acabaria se sentindo bem no papel?
Ele parecia satisfeito.
	Creio que devemos comemorar. Sei que meu av gostou do que viu.
	Eu no teria tanta certeza disso.  Antes de partir, Joseph Wentworth a encontrara sozinha na cozinha e oferecera quinhentos mil dlares alm de tudo que Michael havia prometido em troca da verdade sobre o casamento inesperado.
	Por que diz isso?
Beth no sabia se devia contar sobre a proposta de Joseph. Recusara o suborno,  claro, e garantira ao velho que realmente amava seu neto. Dissera inclusive que pretendia permanecer casada com Michael para sempre.
Dissera a verdade.
Mas no sabia se queria repetir as palavras para o marido.
	Eu...
O som da campainha a interrompeu. Elijah estava parado na soleira com um pacote de rosquinhas na mo.
	Acabei de passar pelo carro de Joseph. Ele esteve...
Michael fez uma careta e convidou o amigo a entrar.
	No podia ter escolhido melhor hora para chegar. Estamos comemorando.
Elijah estava sempre pronto para festejar. Ele possua um aparelho de som porttil no automvel e foi busc-lo, junto com uma pilha de CD's. Michael foi buscar a fita de George Strait na caminhonete.
Beth fez mais caf e pouco depois descobriu-se rindo e devorando rosquinhas em companhia dos dois homens.
Ao ouvir uma melodia mais cadenciada, Elijah agarrou sua mo e puxou-a para danar na pequena cozinha. Ela bateu no balco, na geladeira, na mesa e nos joelhos de Michael.
Sorrindo, ele a enlaou pela cintura e puxou-a sobre suas pernas.
	Est se divertindo muito sem mim  sussurrou em seu ouvido.
Um arrepio a percorreu.
A boca em contato com sua pele despertou lembranas da noite anterior. Chegara a sentir-se feliz com a visita dos Wentworth, porque assim no tivera de pensar nas horas que haviam passado juntos na cama. Am-lo, e ser amada fisicamente por ele, transformara a noite em uma espcie de conto de fadas.
Elijah deixou-se cair numa cadeira perto da mesa.
	No dano h anos!
	Ah, eu sei!  Michael passou o brao pela cintura.
Beth e o hlito morno aqueceu o lado direito de seu rosto 	Soube que esteve danando at o amanhecer na vspera do Ano Novo. Quando foi isso? H seis semanas?
Elijah reclinou-se e cruzou as pernas.
	 verdade.  voc que no dana h anos.
Beth apoiou-se no peito de Michael e ouviu a discusso bem-humorada entre os dois amigos. E se aquele fosse o padro a ser seguido at o ltimo de seus dias? E se, antes de conseguir liberar o fundo, Michael descobrisse que a amava? Ento poderia viver anos, toda a vida, ao lado desse homem, naquela mesma cozinha, rindo e sendo feliz. Ele no dissera ser o pai de seu filho?
Os braos a apertavam com fora. Ela o encarou.
	O que acha? Sente-se com disposio para ir danar esta noite?
	No sei. No tive muitas oportunidades para danar 	confessou. Mas a verdade era que a ideia a encantava.
Quanto mais tempo passassem juntos, maior seria a chance de Michael descobrir que no poderia viver sem ela.
	Encontraremos algum para cuidar de Mischa  ele disse.  Aposto que Josie adoraria passar algum tempo com o beb.
Beth sorriu e assentiu. Uma ligao forte e imediata havia sido estabelecida entre ela e a irm de Michael. Josie cuidaria bem de Mischa e apreciaria a chance de treinar um pouco antes da chegada de seu prprio filho.
Elijah serviu-se de mais uma rosquinha.
	Acho que deviam deixar Joseph cuidando do garoto.
Michael riu.
	Ele provavelmente ficaria, se Beth pedisse. Sou capaz de jurar que ela o conquistou por completo.
Um dedo gelado tocou a felicidade que envolvia seu corao. No convencera Joseph. O homem ainda suspeitava de que o casamento era uma farsa.
Mesmo assim, Beth pressentira uma certa bondade nele. Joseph estava apenas tentando proteger sua famlia, como ela faria por Mischa. Com o tempo poderia conquist-lo, estava certa disso. No havia razo para estragar a felicidade de Michael.
Ele bateu os dedos sobre a superfcie da mesa da cozinha.
	Bem, podemos contar com Josie para cuidar do beb.
	Onde acha que devemos ir? Ao Spot?
Elijah estava com a boca cheia. Apontou para os lbios a fim de explicar seu silncio, mas balanou a cabea com vigor.
Michael franziu a testa.
	No quer ir ao Spot. Que tal o Dangers? Ouvi falar sobre uma nova banda...
	Onde est com a cabea? Vamos pensar em um lugar diferentej,,onde possamos nos divertir de verdade.
	Divertir?
	No levarei ningum. Assim estarei aberto a todas as possibilidades. Seremos trs pessoas solitrias em busca do amor.
Beth experimentou um arrepio gelado. Atrs dela, Michael ficou tenso.
	Trs pessoas solitrias em busca do amor?
Ela se levantou e foi acomodar-se na cadeira vazia mais prxima. Sentia o corpo todo gelado.
	Isso mesmo  Elijah persistiu satisfeito.  Talvez possamos conhecer algum especial esta noite.
Beth puxou o pacote de rosquinhas para mais perto. Olhou para a gelia coberta de acar e sentiu enjoo. A voz de Michael traa a tenso.
	Por que Beth e eu procuraramos algum diferente?
	Ei, sou eu, amigo! Guarde a encenao do casal feliz para seu av.
	No estou enganando Beth.
	E quem est falando sobre enganar algum? Por favor, Michael! Por isso propus um lugar diferente e novo. Iremos aonde ningum nos conhece. Onde ningum saber que so casados.
	Mas somos casados.
	Qual  o problema com voc, companheiro?  Elijah uniu as sobrancelhas.  No estou entendendo.
	Talvez Beth e eu continuemos casados, afinal.
A firmao foi pronunciada em voz baixa e firme. Beth sentiu a cabea girar e fitou-o com ar perplexo.
	O qu?  Tentou dizer, mas a boca aberta no produziu som algum.
	O qu?  Elijah disse por ela.
	Por que no podemos permanecer casados?  Michael dirigiu a pergunta ao amigo, mas os olhos buscaram os dela.  Tenho tudo de que ela precisa. Uma famlia. Posso ser o pai de Mischa.

	Mas isso tudo s aconteceu por convenincia. Para que pudesse convencer Joseph a agir de acordo com sua vontade pelo menos uma vez.
	E  conveniente. Estamos casados. Tenho um filho. Sem confuso, sem problemas.
Sem amor, Beth pensou. Em nenhum momento ele mencionara a palavra.
Elijah passou a mo cheia de acar nos cabelos, criando uma mecha prematura de fios grisalhos.
	Mas... mas... voc  um solteiro!  o maior playboy de Freemont Springs!
	Voc continua solteiro. Por que no assume o posto de playboy?
Elijah olhou para Beth.
	Ouviu o que ele disse? No vai falar nada?
Digo que isso  tudo que eu podia querer. Como seria fcil deixar as palavras sarem de sua boca. Aceitar a proposta de Michael e cair em seus braos fingindo ter encontrado realmente tudo de que necessitava.
Mas ele no falara de amor.
	Eu... no sei o que dizer.
	Beth.  Michael encontrou a mo dela e tocou-a com um misto de ternura e proteo.  Eu quero...
Elijah balanou a cabea.
	No entendo o que est tentando fazer, Michael.
Ele envolveu o amigo num olhar furioso.
	Talvez no seja de sua conta.
	S estou tentando impedir um amigo de cometer um grande engano.
Michael ignorou o comentrio.
. Beth  chamou-a novamente enquanto acariciava seus dedos.  No acha que  uma boa ideia? Sabe que podemos nos dar bem.
A pele queimava em contato com os dedos quentes, espalhando um calor intenso que ameaava chegar ao corao. Podiam se dar bem. Na cama, onde a paixo explodia. E ela o amava.
Mas Michael no a amava.
Nem a amaria. No se aceitasse o que ele estava propondo.
	Diga que vamos continuar casados  ele pediu.
A voz soou firme, apesar do tremor que a sacudia por dentro.
	No posso.
Michael ouviu a porta do quarto de Mischa fechar-se s costas de Beth. E olhou para Elijah.
	A culpa  toda sua!
	Tem razo.
	Estragou tudo.
	Ento no devia ter anunciado sua grande ideia na minha frente. Acredita que foi s um acidente? Queria que eu fizesse o papel da voz da razo.
Michael cerrou os punhos.
	Desculpe-me, meu caro Sigmund Freud, mas quero
que saia daqui imediatamente. Fora!
Elijah levantou-se devagar.
	Para que possa pression-la novamente? Eu disse que no devia mago-la, Michael. No tem esse direito.
	Agora entendo  murmurou furioso.  O problema  ela. Beth.
	Exatamente!  E empurrou a cadeira contra a mesa com fora.  Acha que estou preocupado com voc? E ela quem vai acabar sofrendo, seu idiota! No percebe que sua esposa est apaixonada por voc?
O fogo que ameaava queim-lo por dentro transformou-se e um incndio de propores devastadoras.
	Eu sei  reconheceu em voz baixa.
	Ento liberte-a, homem. Deixe-a livre para encontrar algum que seja capaz de am-la tambm.
	No posso  Michael gemeu.  Simplesmente no posso.

CAPTULO X

Michael no deu ouvidos ao amigo. Simplesmente empurrou-o para fora e trancou a porta.
Depois descobriu que Beth tambm trancara a porta do quarto de Mischa. Quando a chamou e ouviu a voz emocionada pedindo um pouco de privacidade, no pde conter-se e saiu. Frustrado e cansado, passou algum tempo sentado na caminhonete. Por volta do meio-dia dirigiu-se a um bar onde bebeu duas cervejas e assistiu ao canal ESPN at s seis da tarde.
Voltou para casa e constatou que a nica luz acesa era a do quarto do beb. L encontrou beth, amamentando o filho com um cobertor sobre os ombros. O corao comeou a bater como um tambor. Como na noite anterior, v-la amamentando foi o suficiente para deix-lo em brasa.
Os olhos buscaram seu rosto e encontraram uma expresso indecifrvel, desprovida da vibrao habitual. Sentiu-se tomado por uma urgncia inesperada de tom-la nos braos e confort-la
	O que houve, meu bem?  perguntou enquanto se aproximava da cama.
	No  ela pediu assustada.  Mischa est quase dormindo.
Devia parecer um tolo parado no meio do quarto esperando poder ver ao menos uma pequena poro do seio plido e firme. Mas s conseguiu recuar at a porta. E ficou ali, temendo perd-la de vista.
Os olhos sem brilho o preocupavam. No bar, convencera-se de que a recusa em comprometer-se com o casamento havia sido apenas uma reao provocada pelo nervosismo. Ou algum tipo de relutncia relacionada ao fato de serem recm-casados. Acreditara ser capaz de faz-la mudar de ideia.
Beth precisava do que ele tinha a oferecer. Se a tocasse, sabia que poderia traz-la de volta para perto.
Com ternura emocionante, ela se levantou e foi pr o beb no bero. Michael a seguiu, olhando para a criana adormecida por cima da grade. Os cabelos de Mischa estavam mais escuros a cada dia.
Ele se parece comigo, pensou. E a ideia no parecia estranha.
Beth caminhou at a porta do quarto. E no foi seguida. Ela diminuiu a intensidade da luz, mas permaneceu vigilante. Mischa dormia profundamente. Como havia acontecido com Michael naquela mesma idade, quando no tivera conscincia da tragdia ocorrida com os pais em um acidente de barco.
Teriam passado algum tempo ao lado do bero antes de morrerem? Teriam feito promessas que no puderam cumprir?
Mas Michael podia fazer alguma coisa por Mischa, se Beth permitisse. Encontrou-a na cozinha, sentada  mesa com uma xcara de ch. A fumaa que se desprendia do lquido quente formava uma espcie de halo em torno de sua cabea.
Michael queria toc-la, sentir seu perfume e proteg-la com o prprio corpo.
	Beth.
Ela o fitou por cima do ombro.
Tinha de dizer alguma coisa, agora que a chamara. E falou a primeira coisa em que conseguiu pensar.
	Mischa  muito bonito. Voc  linda.
	Oh, Michael!  As mos seguraram a xcara como se ela precisasse se agarrar a alguma coisa. Os olhos desviaram-se dos dele.
Michael caminhou devagar, olhando para a nuca delicada. Eram as poucas as mulheres que expunham essa parte do corpo. A pele era plida, e as vrtebras da coluna podiam ser vistas nitidamente quando ela se inclinava para beber o ch. De repente quis toc-la, diminuir a vulnerabilidade sugerida pela posio inclinada do pescoo.
Aproximou-se um pouco mais e, como se pressentisse sua presena, ela se virou na cadeira. Em p, apoiou-se na mesa.
	O que voc quer, Michael?
Toc-la. Sabia que o contato fsico os aproximaria novamente. Mas o desconforto era evidente na maneira como ela pressionava o corpo contra a mesa.
	Est com fome?  perguntou.
Ele balanou a cabea.
	Comi dois cestos de batatas fritas enquanto assistia
 reprise de um jogo pela tev. E voc?
Beth balanou a cabea e segurou a xcara com fora.
	Estou com frio.
Posso aquec-la.  isso que ns dois queremos.
Mas sabia que palavras bonitas no surtiriam efeito. Aproximou-se um pouco mais, o suficiente para ver os dedos apertando a xcara.
Deu mais um passo, e Beth escapou para perto da pia. Deixou a xcara sobre o mrmore branco e abriu o refrigerador. No podia mais ver o rosto escondido entre litros de leite e suco e potes de iogurte.
	Pensei que estivesse com frio.  Ela expunha a nuca novamente, e a viso o perturbava. Sem fazer barulho, caminhou at parar atrs dela.
Beth ergueu o corpo, virou-se e bateu a porta da geladeira.
	Voc me assustou!
	Por qu?  O corao imitava novamente as batidas de um tambor. No queria mais ser divertido ou protetor. Queria apenas possui-la, penetr-la, porque assim ela no poderia fugir.

	Eu... no o vi a.  E passou a lngua pelo lbio superior. Michael sentiu o estmago contrado.
	Estou tentando ser civilizado, Beth. Ela piscou e repetiu o gesto.
	Michael pensou naquela boca. Na lngua explorando o interior quente e mido. E em outras partes dos dois corpos que tambm podiam ser descritas como quentes e midas.
Se a tocasse, poderia traz-la de volta.
As mos encontraram os ombros frgeis. Aboca encontrou a dela. Beth o beijou como se tambm considerasse difcil ser civilizada.
Foi ele quem se afastou, ofegante e perturbado. Os olhos azuis haviam recuperado o brilho de desejo. Deslizou a mo por seus braos e entrelaou os dedos nos dela. Depois segurou as mos delicadas contra o peito.
 Sinta  disse, tentando ouvir a prpria voz alm do som estridente do sangue pulsando nas prprias veias. Ela devia saber que a protegeria de tudo e todos... menos dele.
Beth ergueu-se nas pontas dos ps e entreabriu os lbios numa oferta silenciosa.
A civilidade foi esquecida.
Michael abriu o boto da cala jeans, desceu o zper e introduziu a mo sob a calcinha, e o que encontrou foi suficiente para enlouquec-lo. Beth estava pronta para receb-lo.
Tocando-a, poderia traz-la de volta.
Com a mo livre, ajudou-a a despir o suter. O fecho frontal do suti era difcil de manusear, por isso quebrou-o com um gesto impaciente. No instante seguinte tocava um seio quente que, em contato com sua mo, parecia suplicar por carcias mais ousadas.
Algum gemeu. O som o inflamou, fez ferver seu sangue e convenceu-o a livr-la do jeans e da calcinha ao mesmo tempo em que ela abria sua cala. Perturbado com a lentido dos dedos em seu zper, empurrou-os e despiu-se. Havia um preservativo em seu bolso, e teve ao menos o bom senso de coloc-lo antes de ajeit-la sobre seu corpo e penetr-la. O corpo todo gritava de prazer, e um instinto poderoso anunciava que Beth no podia mais fingir que no pertencia a ele.
Depois do clmax, ele a levou para o quarto. Satisfeito por ter cuidado de todos os detalhes, abraou-a e acariciou os cabelos sedosos e brilhantes.
O corpo pulou sobre o colcho e ele acordou assustado com o sonho de estar caindo num buraco profundo, uma
experincia que se repetia sempre depois do primeiro sono profundo. Beth levantou a cabea de seu peito e, devagar, deitou-se de costas a seu lado. Sua voz era quieta, determinada, um pouco rouca.
	Mischa e eu iremos embora amanh.
Michael sentiu o corao caindo, como no sonho que acabara de ter.
Beth prendeu o flego enquanto ele se virava para acender o abajur. Seu rosto era tenso, duro.
	O qu?
	Vamos embora amanh.
Ele balanou a cabea.
	Eu a toquei  disse, como se isso significasse que ela no poderia partir.
Beth no protestou. Sem dvida ele a tocara. Atrao, desejo, nunca representara um problema para eles. No devia ter feito amor com Michael, mas ele a procurara com aquele fogo nos olhos, e no resistira ao mpeto de sentir o sabor de seus lbios pela ltima vez antes de deix-lo.
	Voc e Mischa no vo sair daqui. Ainda somos ca
sados. E continuaremos sendo.
Estava habituado a obter tudo que queria e como queria. Isso era evidente. Mas Beth precisava demonstrar a mesma fora de vontade. Fora da cama, tentou no ruborizar enquanto procurava alguma coisa para vestir. O robe de Michael estava pendurado atrs da porta do banheiro, e ela foi busc-lo para cobrir-se antes de encar-lo novamente.
	Voc no nos quer. Esse casamento s foi criado para livr-lo de suas responsabilidades.
	Isso foi antes.
Seria possvel que ele a amasse?
	Antes do qu?
	Voc e Mischa precisam das coisas que eu posso oferecer. Segurana. Josie e meu av. E voc quer essas coisas.
	Mas voc no.
Ele encolheu os ombros.
	Vamos permanecer casados.
Beth queria gritar de raiva e frustrao.
	Michael, algum j lhe disse que  impossvel carregar duas melancias com um s brao?
Ele gemeu.
	Por favor, no comece. Estou cansado. E irritado, tambm. No me obrigue a pensar.
	S quero dizer que ningum pode desejar duas coisas opostas. Vive dizendo que quer se livrar de suas responsabilidades, e agora insiste em assumir outra?
Ele se sentou de um salto.
	Acha que estou sendo irresponsvel por desejar sair da Oil Works?
	No. Sim. No sei.  Beth foi sentar-se na beirada da cama.
Michael esmurrou o travesseiro.
	No sabe!
Sabia que gostaria de livr-lo da raiva. Abrir o punho cerrado e beijar a palma da mo que antes a acariciara.
	Desabafe, Michael  sugeriu.
	Jack morreu. Ela engoliu em seco.
	Eu sei.
	E claro que sabe. No estaramos aqui, no teramos
feito nada do que fizemos se Jack no houvesse morrido.
Um momento de silncio se passou antes que ele voltasse a falar.
	Nunca quis trabalhar na companhia de petrleo. Nunca. Mas Jack dizia que a experincia seria proveitosa, e prometeu me apoiar quando eu quisesse sair de l.
	No assumiu o cargo na empresa por causa de seu av?
Ele suspirou.
	Sim, por isso tambm. Os dois me convenceram a fazer uma tentativa.
Era tpico de Michael. Fazer uma tentativa pela qual no tinha nenhum interesse s porque algum precisava dele. Permanecer casado com uma mulher que no amava s porque ela precisava de segurana e apoio.
	Mas agora?
Ele a encarou.
	Por que no posso abandonar os negcios? Por que no? Josie saiu de casa. Jack se foi. E quando ele morreu, percebi que no poderia mais contar com a ajuda que meu irmo havia prometido.
	Quer montar aquele rancho com Elijah, no ?
	Sim, eu quero. E meu av precisa estar no comando da Oil Works, embora se recuse a admitir essa necessidade.
	Voltamos  questo da necessidade. Michael faz aquilo de que todos necessitam.
	E voc entendeu tudo errado. Pela primeira vez estou fazendo exatamente aquilo que quero fazer. Quando Jack morreu, me dei conta de que era hora de viver a minha vida.
	Sem deixar de encontrar uma maneira de ajudar seu av  Beth lembrou.
Michael olhou para o teto.
	Voc fala como se eu fosse um escoteiro. Devia conversar com Elijah. Ele pode contar sobre o tipo de insgnias que recebi.
	Por que voc mesmo no conta?
	Sou o solteiro mais famoso de Freemont Springs. No pode imaginar?
Beth fechou os olhos e respirou fundo. Pensar nele com outras mulheres era doloroso demais. Mas no podia fugir do desafio.
	Ento colecionou experincias  arriscou.
	No como est imaginando. Um escoteiro no pode ser estpido. Nunca me comprometi com ningum antes. Nunca desejei criar laos.
O corao de Beth comeou a bater mais depressa. Por que Michael queria continuar casado com ela? Qual era a diferena entre a experincia que viviam e todas as outras que ele tivera no passado? Talvez a amasse. Seria isso que ele pretendia dizer?
Foi preciso engolir em seco duas vezes antes de sentir-se capaz de falar.
	Michael...
	Mas agora tudo mudou. As coisas so diferentes  ele a interrompeu, os olhos fixos nas mos cerradas sobre os joelhos.  Agora existe Sabrina. E voc.
	Sabrina?  Beth repetiu assustada.  Pensei que no soubesse quem  ela.
	No sabemos.  E encarou-a.  E  esse o grande problema. No vou deixar que repita os erros que aquela mulher est cometendo.
	No entendi.
	No vou fazer com voc o que Jack fez com Sabrina. Ele abandonou o filho e uma mulher que gostava dele. Isso no vai acontecer novamente.
A voz de Beth soou fraca.
	Mischa no  seu filho.
	Hoje eu o reclamei como meu filho. E ele tem meu nome.
	Seu primeiro nome  ela corrigiu, incapaz de conter um sorriso de ternura.
	Vou adot-lo.
O homem tinha todas as respostas. Como em todas as outras ocasies, a confiana de Michael quase a fez perder o senso de realidade.
	E...  Respirou fundo para reunir coragem.  E quanto ao amor?
	O que tem ele?
	Voc no...
	No acredito no amor.
	No?  Beth cruzou os braos para esconder o tremor das mos.
	Ouviu quando Elijah me chamou de playboy. Para ser honesto, tenho me relacionado com as mulheres h muito tempo. Se existisse esse sentimento que chamam de amor, no acha que eu j o teria descoberto?
A pergunta era o retrato do homem que a formulava. Razovel. Segura. Direta. E difcil de contestar.
	Mas...
	Sim, ouvi voc dizer a meu av que me ama. Pode dar o nome que quiser ao que sente por mim.
	Mas eu a...
	No precisa dizer. No  isso que eu quero de voc.
E era por isso que tinha de ir embora. Resignada, apesar
da tristeza, desviou os olhos do rosto de traos marcantes e respirou fundo.
	E uma pena, Michael, porque isso  tudo que tenho para oferecer.
Os ditados de Alice continuavam desfilando pela mente de Beth enquanto ela tentava dormir sob o cobertor fino do Freemont Springs Hotel.
Se quer evitar a fumaa, no se aproxime do fogo. Tarde demais para extrair algum proveito desse. O desejo por Michael j a queimara completamente.
No se pode emendar um ovo quebrado. Uma grande verdade. O desejo se transformara em amor e era intil desejar que o sentimento fosse embora.
Amor, dor e dinheiro no podem ser mantidos em segredo. Logo acabam por se trarem. Nesse, lema Alice se enganara. Perdera Michael no instante em que dissera a Joseph que o amava.
Esfregou os olhos e desejou poder dormir em vez de analisar os fatos. Mas continuava recordando aquele momento em que confessara seu amor. Michael encolhera-se, tenso, e sabia que fora ento que ele havia decidido que permaneceriam casados.
Devia ter ficado satisfeita. Talvez houvesse se contentado com isso h alguns meses.
Talvez se contentasse agora.
Levantou-se da cama para ir espiar o filho por entre as grades de metal do bero do hotel. Mischa dormia, as mos semicerradas perto do rosto rechonchudo, a boca se movendo como se sonhasse estar sugando seu seio.
Ele teria outros sonhos. A Liga Infantil de beisebol. Construir carros possantes. Coisas de meninos sobre as quais no sabia nada.
Ao deixar Michael teria negado ao filho a satisfao de alguma necessidade. Algo que ele merecia?
Pensou nos prprios pais. Nas mos, maternas ou paternas, que a enrolaram num cobertor to velho e rasgado que ningum se preocupara em guard-lo. Nas mos que a deixaram dentro de uma caixa na porta do hospital no centro de Los Angeles.
Qual teria sido a extenso da solido dessa pessoa?
E qual seria o tamanho de sua solido sem Michael?
A grade de metal comeava a absorver o calor de sua mo. Beth soltou-a, flexionou os dedos e pegou o beb do bero. Sem despertar, Mischa aninhou-se em seu peito. Ela voltou para a cama e puxou o cobertor para aquec-los.
Michael no a amava. Michael no acreditava no amor.
Teria sido essa caracterstica que tornara to fcil para aquelas mos desconhecidas a abandonarem? Por que o amor era apenas uma palavra sem sentido na mente que as comandava?
Mischa procurou seu calor enquanto dormia. O peso morno sobre seu corao desatou o n que se formara em seu peito. Amor. O sentimento preenchia seu ser como o ar dentro de um balco.
Beth encostou o rosto molhado na cabea do beb. Quem quer que a houvesse deixado na porta do Masterson Hospital cometera um erro. Michael estava errado. O amor existia. E merecia todos os esforos e sacrifcios.
Afastar-se de Michael havia sido a deciso acertada. Ela e Mischa encontrariam um meio de sobreviverem sozinhos. Rasgaria aquele estpido acordo pr-nupcial e recusaria tudo que viesse de Michael. No podia aceitar nada, porque a nica coisa que queria dele era amor. 
O silncio da casa era como a quietude depois de uma exploso. Michael ficara chocado e furioso ao descobrir que Beth fora para a cama com ele enquanto as malas esperavam no armrio, prontas para a partida. Em menos de quinze minutos ela sara levando tudo que tinha.
No dissera para onde ia. E estivera perturbado demais para perguntar. Agora estava sentado no sof da sala, ouvindo a escurido.
O telefone tocou. Como se possusse molas nos ps, ati-rou-se sobre o aparelho.
	Beth?
	Ela foi danar sem voc? Elijah.
	O que quer agora?
Respostas. Por exemplo, devo desistir da nossa sociedade?
Elijah sabia que seria preciso mais que um discurso franco para destruir dcadas de amizade.
	Devo admitir que tinha razo  Michael obrigou-se a confessar.
Ele riu.
	E eu admito que fico feliz por perceber que finalmente ouviu a voz da razo. O que aconteceu?
	Ela foi embora.  Um n formou-se em seu peito quando ele pronunciou as palavras.
	Bem ns dois sabamos que voc seria um pssimo marido. Mas por que ela partiu?   -
Porque no fui capaz de corresponder ao seu amor. Apesar do pensamento claro, no conseguiu dizer as palavras em voz alta.
	Alguma vez esteve... apaixonado, Elijah?
	Voc me conhece desde que eu tinha sete anos de idade, homem! Esqueceu Andrea Edwards?
Michael coou o nariz.
	Isso foi no primrio.
	E eu estava apaixonado por ela.  A voz de Elijah soava sincera.
	Eu nunca estive.
	Eu sei disso. Tambm o conheo h vinte anos.
	Ento acredita em mim.
	 claro que sim.
Michael rangeu os dentes.
	Quero permanecer casado com Beth. Isso no  suficiente? Disse a ela que no queria transform-la em outra Sabrina.
	Tentando ser melhor que o irmo mais velho? Ainda no desistiu de superar os esforos de Jack?
	No  nada disso!  Michael reagiu descontrolado.
	Ento devia ser capaz de deix-la partir em paz.
Outra emoo o roa por dentro.
	Voc acredita no amor.  Michael afirmou.  Por que no consigo acreditar nele?
O suspiro de Elijah pde ser ouvido claramente do outro lado da linha.
	No sei, meu amigo. Talvez por nunca ter visto seus pais juntos. Talvez porque nunca encontrou uma boa mulher.
	Conheci dezenas de boas mulheres.
	Refiro-me  mulher ideal. Algum em quem possa confiar.
	Confiar como? Ou o qu?
	Puxa, Michael, est tornando esta conversa difcil!  Elijah reclamou.  Algum a quem possa confiar seus sonhos. Algum que queria Michael, no Michael Wentworth. Ou...  A voz dele se tornou mais leve, menos tensa.  Algum que no d risada de suas perguntas idiotas.
Foi a vez de Michael suspirar.
	Disse que queria respostas. Qual  a outra pergunta?
	No se trata de uma pergunta. Liguei para falar sobre Joseph.
	O que tem ele? Aconteceu alguma coisa com o velho?
	No, no. Apenas... recebi um telefonema muito interessante de seu av.
	O que ele queria?
	Beth lhe contou que ele tentou suborn-la hoje?
	O qu?
	 isso mesmo. Joseph ofereceu quinhentos mil dlares alm de tudo que voc j prometeu em troca da verdade sobre seu casamento.
Michael deixou a cabea cair sobre o encosto do sof e fechou os olhos.
	Era s o que faltava. Por que meu av confiou uma informao to importante a voc?
	Porque tambm estava tentando me envolver para descobrir a verdade. Ele no conseguiu saber absolutamente nada atravs de Beth.
	Entendo.
	Parece que voc perdeu tudo, amigo.
	No sabe como consolar algum em dificuldades?  Michael perguntou com tom seco.  Eu devia esperar esse tipo de comentrio de algum frio como voc. Afinal, por que diz isso?
	No acha que Beth vai correr para contar tudo a seu av, agora que esto separados? J que no tem mais um marido, uma famlia e um casamento, talvez ela decida ficar com o dinheiro.

CAPITULO XI

Michael sabia que existiam coisas piores do que tornr-se recluso numa pequena casa de rancho no meio do nada, mas de pronto no conseguia pensar em nenhuma. Assim, trs dias depois de ter sido abandonado por Beth e um dia depois de ter recebido pelo correio o acordo nupcial rasgado em dezenas de pedaos, Michael decidiu retomar sua vida anterior.
Telefonou para Elijah e marcou um encontro para aquela noite no Route 3 Club. Era vspera do Dia dos namorados, em vez de vspera de Ano-Novo, mas a data era to boa quanto a outra, talvez melhor, se o propsito fosse recuperar a velha fama de playboy.
Michael vestiu uma cala jeans nova, uma camisa re-cm-tirada da embalagem e um novo par de botas. Esporas e chapu no faziam exatamente seu estilo, mas tudo que tinha no armrio da casa do rancho havia sido impregnado pelo perfume de Beth.
O fato de ainda estar usando o xampu que ela deixara no contribua para sentir-se melhor.
Mas esqueceria tudo naquela noite.
A mo dele encontrou a de Elijah com um som estalado quando executaram o ritual do cumprimento por volta das oito daquela noite. A vida nas casas noturnas s adquiria brilho algumas horas mais tarde, mas Michael no suportara o silncio da casa e marcara o encontro para o mais cedo possvel.
Vamos nos divertir muito esta noite _ disse com um sorriso forado.  Diremos adeus aos problemas
Elijah parecia ctico.
	Como quiser, amigo.  E apontou para as enfumaadas mesas de bilhar.  Que tal comearmos por ali?
Elijah sempre sabia como ajudar um amigo. Enquanto jogavam, os bancos de vinil da rea destinada aos jogos foram ocupadas por duas mulheres que Michael no conhecia. Uma delas parecia ser menor de idade, mas logo descobriram que havia completado vinte e um anos recentemente e era irm de um antigo colega de escola. Quando o vocalista da banda subiu ao palco, Michael tirou-a para danar.
	No  casado?  ela perguntou. Apresentara-se apenas como Randi.
Enrijecendo os cotovelos para impedi-la de chegar mais perto, pensou numa resposta breve e direta.
	No deu certo. Podemos falar sobre outra coisa?
	 claro.  Randi, que contara orgulhosa ser chefe de torcida da universidade local, tinha uma boca perfeita para mastigar goma de mascar.  Sobre o que vamos falar?
Sobre o que Mischa fez durante o dia. Sobre como a aliana parece ter sido cimentada em meu dedo. Michael suspirou.
	Esquea. Estou cansado de danar.
Ela retornou ao banco sem protestar. Michael encontrou o amigo sentado ao lado da outra mulher e tentou convenc-lo a jogar uma segunda partida de bilhar, mas Elijah o segurou pelo brao e o obrigou a se sentar.
	As moas foram gentis o bastante para aceitarem meu convite e nos fazer companhia  disse.  O mnimo que pode fazer  ser um pouco mais socivel.
Socivel. Sempre havia sido um homem socivel. O caula de ouro da famlia Wentworth. Patinando sobre a superfcie de dezenas de relacionamentos, nunca havia sequer chegado perto de colocar um anel no dedo de uma mulher. E sempre tivera o cuidado de afastar-se antes que a situao se tornasse sria demais. 
Dessa vez, acabara descobrindo que ser abandonado era uma pssima experincia.
Bebeu meia garrafa de cerveja sem tirar o gargalo da boca. As mulheres conversavam, comparando o baterista da banda ao ator Vai Kilmer. Michael tentou imaginar uma delas grvida, sozinha, atravessando o pas ao volante de um carro velho e depois obtendo o prprio sustento atrs de um balco de padaria. Impossvel... Nenhuma delas era Beth.
Para mudar a direo dos pensamentos, virou-se para Elijah e deixou a garrafa sobre a mesa.
	J chega de diverso para mim. Irei visit-lo amanh e discutiremos os planos para a expanso do rancho. No esquea que marcamos uma nova reunio com os banqueiros para a semana que vem.
Elijah encarou-o com ar surpreso.
	Pensei t-lo ouvido dizer que Beth havia rasgado o acordo pr-nupcial.
	 verdade.  Fingiria no ter percebido a pontada de dor em seu peito, porque assim seria mais fcil super-la.  E da?
	Esqueceu o que eu lhe contei h alguns dias? Joseph est tentando envolv-la para descobrir a verdade sobre seu casamento falso.
Michael teve a impresso de ouvir um eco distante da voz de Beth.
O que h de irreal nesse casamento?
	Sim, sim, sim. E da?
	Ei, ser que pode voltar  Terra. Pense bem, Michael. Beth j deve ter contado tudo a seu av. E nesse caso, pode dizer adeus ao dinheiro do fundo de penso, pelo menos pelos prximos trs anos.
Michael piscou. Ouvira o que Elijah havia dito sobre a tentativa de suborno do av, mas no parara para refletir sobre os fatos. Estivera ocupado demais tentando cicatrizar a ferida que a partida de Beth abrira em seu ego.
	O que est tentando dizer?  perguntou em voz baixa.
Elijah olhou para as duas mulheres e constatou que ainda estavam concentradas na discusso sobre o baterista.
	Quero dizer que Beth o vendeu.
Michael riu.
Elijah levantou as sobrancelhas.
	No se engane, Michael. Voc decidiu se casar com ela para oferecer a segurana, o dinheiro de que ela precisava. Por que acha que ela perderia uma oportunidade to boa?
Michael riu novamente.
	Voc no entendeu nada. Beth no  o tipo de mulher que est pensando.
Elijah cruzou os braos sobre o peito.
	Ah, no? E que tipo de mulher ela ?
	O tipo que consegue despertar o instinto protetor de um homem. Desde que a vi pela primeira vez, senti necessidade de proteg-la. No sei se foi aquela jaqueta velha, ou o sofrimento com as contraes...  Lembrou o momento em que ela havia agarrado sua mo antes de ter o beb.  Por alguma razo, senti-me responsvel por ela e pelo beb quase imediatamente.  Pensou nela em sua cama, os cabelos claros brilhando e a pele suada e quente.  E a desejei.
	O que isso tem a ver com o preo das batatas e a tentativa de suborno de Joseph?
	Estou dizendo que a conheo  Michael respondeu com tom seco.  Ela no faria isso, Elijah. Confio nela.
As ltimas palavras caram em um abismo de silncio.
Depois giraram na mente de Michael, colidindo com todas as outras que acabara de dizer a Elijah. Proteo, responsabilidade e desejo.
Confiana, tambm.
As duas mulheres o encaravam. Randi, a lder de torcida, exibia aquele sorriso estudado que parecia ter sido desenhado por um artista plstico. Imaginou-a no topo de uma pirmide humana, brandindo aqueles pompons coloridos nas cores do time local. "Diga P. Diga R. Diga D. Diga C. O que vamos formar?"
Proteo. Responsabilidade. Desejo. Confiana.
E o que isso formava?
Amor.
Sempre fora um pssimo torcedor. E muito lento para tirar algumas concluses, tambm. No reconhecera o que sentia por Beth. Ou, quando ela partira, qual era o significado do mpeto de beber dzias de cervejas e ouvir as msicas mais melanclicas de George Strait.
	Estou apaixonado por ela, Elijah  disse. O outro ria.
	Sabia que acabaria percebendo.
Evelyn recebeu Michael na porta da manso dos Wentworth. Embora devesse estar de folga quela hora da noite, ele no se mostrou surpreso em v-la.
	O sr. Wentworth est em seu escritrio  a governanta informou com a cortesia de sempre.
Michael subiu a escada, os passos abafados pelo carpete espesso. Sabia que o av o esperava. Evelyn j devia ter interfonado para inform-lo sobre a chegada do visitante.
Mesmo assim, bateu na porta e esperou ouvir a voz de Joseph.
	Entre, Michael.
Ele sorriu. Jamais havia passado por aquela soleira sem experimentar um certo nervosismo, como se temesse invadir um territrio sagrado. Mas era de ter uma conversa de homem para homem com o av.
O velho parecia to severo quanto antes atrs da imensa mesa de mogno. Michael balanou a cabea.
	Essa testa franzida quase me faz tremer  disse.
	Quase? Devo estar perdendo o jeito.
	No. Sabe que isso jamais vai acontecer, meu av.
Com o p, puxou a cadeira mais prxima e levou-a at bem perto da mesa. O couro rangeu quando ele se sentou. No era de se estranhar que aquela sala despertasse lembranas de dor.
Respirou fundo antes de comear a falar:
	No quero trabalhar na Wentworth Oil Works, vov. Casei-me para escapar da companhia, mas isso foi...
	Coisa de moleque.
Pretendia dizer que sua atitude fora covarde, mas uma coisa de moleque soava menos importante e desastrosa. Muito melhor. E talvez mais verdadeira.
	Quero voc no comando dos negcios, filho.
	Sim, eu sei que essa  a sua vontade, mas...
	E agora que Jack se foi, quem...
	Voc. Voc e uma segunda pessoa capaz de amar a empresa da mesma maneira.
	Mas com Jack...
Michael bateu a mo no brao da cadeira.
	Chega de falar sobre Jack! Isso diz respeito a mim e  minha vida! Fiquei furioso com ele por ter morrido, mas acho que j estou pronto para superar esse episdio triste da histria de nossa famlia.  E levantou-se para andar pelo escritrio.  Porque ao menos a morte de Jack ensinou-me algo importante. E melhor no ficar esperando pelo melhor momento para comear a viver.
E o que fizera antes havia sido brincar. Com o trabalho. Com as mulheres. Mesmo depois da morte de Jack, estivera to determinado a evitar os prprios problemas e sentimentos, que no fora capaz de reconhecer que o que sentia por Beth era amor.
	Ento acredita que cresceu, no ?  O av perguntou com tom seco.
Michael pensou no compromisso com Elijah e no rancho que construiriam. Na profundidade do que sentia por Mis-cha e Beth.
	O casamento costuma ter esse tipo de consequncia  respondeu em voz baixa.
	Talvez.  Os lbios no sorriam, mas Michael o conhecia h tempo suficiente para saber que, por dentro, Jo-seph sorria de satisfao.
	Como encontrar uma esposa fugitiva?
	Comece pelo lugar onde a conheceu. Teoricamente, esse lugar era a casa de seu av, mas Michael concluiu que a padaria era o ponto mais lgico por onde comear a busca. Beth trabalhara com Bea e Millie antes de se casarem e podia ter voltado para l, agora que o deixara.
O Dia dos Namorados era uma grande data para os comerciantes do ramo. Atravs da vitrine, Michael no conseguia sequer enxergar uma das proprietrias alm da multido de clientes.
E no interior do estabelecimento no era diferente. Droga! No vou conseguir me aproximar o bastante nem para gritar uma pergunta a Bea ou Millie! Quando j se preparava para deixar o lugar, o mar de frequentadores se abriu para dar mensagem a um enorme bolo em forma de corao com uma mensagem escrita em creme: Para o Pequeno BUI, de sua Mame. Atrs do bolo, segurando uma das bordas do tabuleiro da madeira, havia uma mulher de quase um metro e oitenta de altura.
Michael quase engoliu a lngua. A enfermeira da maternidade!
A fim de evitar os olhos atentos da mulher, fingiu um grande interesse pela multido. Houve outro movimento alm do grupo, e ento a viu. A viso mais linda. Cabelos louros, sorriso doce... Beth.
A parede humana voltou a se fechar. Michael respirou fundo. O que fazer? Tentar vencer a barreira formada por dezenas de pessoas era algo fora de questo. Gritar para atrair sua ateno seria ridculo.
Clientes! Sim, eram essas as pessoas que obtinham sua ateno. Michael puxou uma tira de papel do aparelho de senhas. Oitenta e oito.
	Nmero vinte e seis!  Beth chamou atrs do balco.
Era o que faltava...
Um homem muito agasalhado sorriu com ar solidrio.
	Sou o sessenta e dois  contou.
Michael sorriu, sem saber se o nmero correspondia  idade do desconhecido ou  senha que ele retirara ao entrar.
Qualquer que fosse a resposta, ambos estariam prontos para a aposentadoria quando fossem chamados.
Algum empurrou Michael para retirar uma senha. Ele deu um passo  frente e tropeou na mquina de goma de mascar. Uma mulher reclamou quando ele pisou em seu p. Michael segurou a mquina antes que ela casse. A mulher o envolveu num olhar gelado que mesclava censura e desprezo.
	Qual  o nmero de sua senha?  perguntou, tentando ser polido, apesar da irritao.
	Trinta  foi a resposta fria. Michael tirou a carteira do bolso.
	Estou disposto a pagar cinquenta dlares por ela.
	Ficou maluco?
	A minha  a vinte e sete.  Um adolescente usando bon e brinco o cutucou.
Michael mostrou uma nota de cem. O garoto agarrou-a e saiu apressado, talvez temeroso de que a generosa oferta fosse retirada.
O que ele no sabia era que Michael estava disposto a tudo para ter de volta a esposa.
	Nmero vinte e sete!
Ele se aproximou do balco e viu... Bea.
	Ol. O que vai querer hoje, Michael?
Ao lado dela, atendendo outro cliente, o de nmero vinte e seis, estava sua esposa.
	Vim falar com Beth.
Ela o encarou, fitou rapidamente a amiga e patroa e balanou a cabea com vigor.
	Se quer alguma coisa, vai ter de pedir para mim  Bea anunciou com firmeza.
	Nesse caso... quero minha esposa e meu filho de volta.
Beth ficou vermelha enquanto embrulhava uma caixa de biscoitos em forma de corao para o cliente nmero vinte e seis. Bea franziu a testa.
	Refiro-me ao que temos para vender aqui, meu rapaz. Bolos, tortas...
	S quero falar com ela, Bea. E onde est Mischa?
	Bem ali, dormindo como um anjo.
Alm do balco, ao lado de uma estante repleta de bolos e bombos alusivos  data, Michael viu o beb dormindo no carrinho. Uma das rodas permanecia torta, dando a impresso de que a criana poderia cair a qualquer momento.
Michael sentiu o corao apertado. Meu filho.
Olhou para Beth.
	Fui um idiota, est bem? Volte para mim.
Ela balanou a cabea.
	Agora no, Michael.  O cliente que ela atendia comeou a falar, solicitando sua ateno.
	Ento quando?  ele perguntou.  Quando? Bea parecia impaciente.
	Vai comprar alguma coisa, ou no? Ele passou a mo pelos cabelos.
	Uma torta. No... um bolo. Com uma inscrio.
	Esse tipo de produto deve ser encomendado com vinte e quatro horas de antecedncia.
	Qual  o problema com voc, Bea? No gosta de finais felizes?
Ela sorriu com recato.
	Desde que se esforce por eles...  Sua expresso se tornou mais suave.  O que gostaria que fosse escrito no bolo, afinal? Tenho certeza de que posso convencer Millie a acrescentar as palavras em um dos bolos j preparados.
Ele pensou depressa.
	Para Beth. Talvez isso tenha comeado apenas como uma convenincia. Talvez eu no tenha sabido ser um bom marido e um pai de verdade, mas...
	Espere!  Bea estava rindo.  Nosso maior bolo comporta apenas seis ou oito palavras. Vai ter de abreviar a mensagem. Prefere rosas ou confete sobre a cobertura?
Queria pensar em palavras curtas e convincentes. A tentativa no parecia nada promissora. Rosas ou confete? Queria a esposa em seus braos e o filho num carrinho decente, com uma roda que devia ter reparado h semanas.
	Tenha pena de mim, Bea.
	Michael.
Era a voz de Beth.
Ele se virou depressa, sentindo a esperana renascer.
	Sim?
Ela apontou para o cliente nmero vinte e seis. At ento estivera to concentrado em seu propsito que no prestava ateno  pessoa, e por isso no notara tratar-se de uma mulher.
	Esta  Jenny Campbell  Beth contou.
Apresentaes num momento como aquele? O que estava acontecendo?
	Ela foi minha instrutora no curso pr-natal.
E da. Michael encarou-a e notou algo diferente em seu rosto, uma espcie de excitao.
	Eu disse pr-natal  ela repetiu com tom enftico.
Sim, ouvira cada palavra.
Beth respirou fundo.
	Jenny acabou de me contar que uma das minhas com 
panheiras de curso acabou de ser internada no hospital em trabalho de parto.
Michael precisou de um momento para refletir. E ento entendeu. Sabrina. Em trabalho de parto. Agarrou a mo de Beth, pronta para pux-la por baixo do balco, nem que fosse  fora.
	Precisa vir comigo.  E olhou para Bea com um sorriso radiante.  E vamos precisar de outro bolo. Nesse quero que seja escrito: Bem-vindo ao mundo, beb Wentworth!
As mos de Beth agarravam o volante do carro. Michael estava sentado a seu lado, lidando com os controles do aquecedor. Mischa viajava tranquilo em sua cadeira de segurana, motivo pelo qual haviam decidido usar seu automvel, e no o dele.
E claro que devia ter ficado na padaria. Mas a mo de Michael na dela, a excitao por ter encontrado Sabrina e a ansiedade para conhecer o beb haviam sido contagiosas. 
Antes de sarem do estabelecimento de Bea e Millie, ele conseguiu falar com Joseph e Josie, que ainda estavam na cidade. Combinaram um encontro no hospital. Um sopro de ar morno brotou do aquecedor.
	Precisa de um carro novo. E de uma jaqueta nova.  Michael estava nervoso.  E tem de me deixar consertar a roda do carrinho de Mischa. Melhor ainda, compraremos um carrinho novo para ele.
O corao de Beth batia to depressa que ela podia senti-lo na garganta. Michael voltara a assumir o papel do salvador. E era a esse homem que tinha de resistir.
	Estamos bem com o que temos  disse.
Ele passou a mo pelo cabelo. Ao ver o gesto, lembrou-se de como havia sentido prazer ao tocar as mechas escuras e macias. Como os afagara quando aquela cabea havia repousado sobre seus seios. Um arrepio percorreu sua pele.
	Veja!  Ele apontou para a pequena poro de pele exposta entre sua orelha e a gola da jaqueta.  Voc est congelando!  Pousou a mo sobre sua coxa e executou uma massagem vigorosa.
Beth engoliu em seco. Michael havia sido o nico homem a observ-la com tanta ateno. Nenhum outro teria notado os sinais de um arrepio em menos de cinco centmetros de pele. E ningum mais teria se importado ou reagido com tanta doura. Mas ele no a amava. E precisava de amor.
A mo ainda massageava a perna sob a cala jeans. Oh, mas era capaz de aquec-la e seria muito fcil sucumbir.
No estacionamento do hospital, ela brecou o carro mas no desligou o motor.
	Meu lugar no  aqui  disse sem encar-lo.  Vou voltar para a padaria. Acha que pode conseguir uma carona de volta?
Michael estendeu a mo e girou a chave na ignio.
	Seu lugar  aqui comigo.
Nesse momento foi forada a encar-lo. Notou que ainda usava a aliana de casamento, como ela, e que seus olhos escuros ainda exibiam aquele brilho encantador que a fascinava. As mos comearam a tremer, e ela agarrou o volante para esconder a reao inoportuna.
	Michael, j passamos por isso antes.
Ele passou as duas mos na cabea.
	Droga. Pensei que pudssemos deixar para resolver esse problema mais tarde, depois da visita a Sabrina.
	De que problema est falando?
Mischa comeou a choramingar. Beth tentou se virar, mas Michael segurou seu brao.
	Eu cuido disso  anunciou.  Ele deve estar com frio.
Virando-se no assento, tirou o menino da cadeira de segurana e aproximou-o de seu corpo.
	Ei, rapazinho  disse sorrindo. Depois colocou-o dentro do casaco de forma que apenas os olhos e o nariz da criana pudessem ser vistos entre os botes.
Beth tinha a sensao de que o corao se partia. Liga infantil. Carros. Coisas de menino. Mas no podia voltar para Michael pelas razes erradas. Ele devia ter visto a dor em seu rosto, porque estendeu a mo e tocou-a sob o queixo.
	Lamento t-la feito infeliz.
	Deixe um tronco na gua por quanto tempo quiser. Ele jamais ser um jacar.
	Sabe de uma coisa? Estou comeando a detestar essa sua sabedoria ancestral em forma de lemas e ditados. O que quer dizer agora?
Ela encolheu os ombros.
	Apenas que no devia ter esperado que se transformasse em algo que no .
Michael respirou fundo. Uma vez... duas.
	O playboy no pode se tornar marido e pai.
Ela assentiu.
	E se o playboy crescer? E se perceber que esteve deslizando pela superfcie da vida e decidir finalmente comear a viver de verdade?
Mischa a fitava com a mesma seriedade grave que via nos olhos de Michael. O corao de Beth se tornava menor a cada instante, como se garras gigantescas o espremessem. A voz dele soou rouca.
	E se o playboy teve um irmo que morreu aos trinta e cinco anos? Se viu uma criana chegar ao mundo e conheceu uma mulher de coragem, fora e beleza? No acha que isso seria suficiente para faz-lo mudar?
Quando conseguiu falar, percebeu que a voz imitava a dele, rouca e profunda.
	Sim,  claro que tudo isso poderia mud-lo. Mas ele ainda no acreditaria no amor.
	Porque nunca o experimentou de verdade.  Michael segurou a mo dela.  Beth, fui um idiota. Todas as coisas que senti... que voc me fez sentir... no sei...
Parou e pressionou as mos entrelaadas contra o peito, como se assim pudesse comunicar todas as emoes usando outra linguagem que no fosse a verbal.
O corao batia to forte que Beth podia senti-lo nos dedos. Mas precisava ouvir as palavras. Tinha de ouvi-las antes que fosse tarde demais.
	Michael?
A pulsao se tornou ainda mais acelerada sob sua mo.
	Amo voc, Beth. Antes, no sabia que nome dar a esse sentimento, essa emoo poderosa e envolvente que  capaz de penetrar em cada pequeno recanto da alma de um homem, mas precisa acreditar em mim. Estou infeliz sem voc.
Agora eram dois os coraes acelerados.
	Tem meios quase diablicos de conseguir o que quer  disse. No podia ser. Era impossvel que ele a amasse de verdade.
Uma das mos afagou seus cabelos.
	Por favor, querida. No consegue acreditar que algum a quer? Porque eu a quero muito. Realmente.
Algum a queria? Michael? Talvez fosse mesmo difcil de acreditar. Beth Masterson, cujo nome havia sido herdado da enfermeira que a encontrara abandonada na porta do Masterson Hospital em Los Angeles, podia ser querida, amada por algum?
Era o que havia procurado durante toda a vida.
E l estava ele, como um brinquedo colorido que simplesmente no podia ser para ela.
Se quer alguma coisa mais que qualquer outra, esteja preparada para arriscar todas as coisas.
Alice tambm dizia isso. E aquele homem encantador sentado a seu lado no carro, segurando seu filho, era algo que desejava mais do que havia querido todos os brinquedos, todas as fantasias de Halloween e todos os coraes do Dia dos Namorados.
	Se eu lhe der meu amor...  Se desse tudo o que tinha, o que ele devolveria em troca? Carros novos, jaquetas caras, objetos valiosos... Como se isso pudesse faz-la feliz.
	Ter o meu amor em troca, dez vezes maior. Lgrimas de emoo queimavam seus olhos, mas ela sorriu.
	Voc me ama!
O rosto de Michael era srio.
	Oh, sim, eu a amo.  Ento ele riu e inclinou-se para beij-la nos lbios.  Viu?! O tronco virou um jacar. Acho que acabamos de criar uma nova verso para aquela histria sobre o sapo que vira prncipe.
Beth riu, depois chorou, depois secou as lgrimas no ombro de Michael quando ele a tomou nos braos. Quando Mischa protestou contra o papel de recheio no sanduche, afastaram-se e seguiram para o hospital. Mais um acontecimento importante marcaria aquele dia.
Abraados, correram para a recepo da maternidade. Joseph Wentworth e Josie estavam l, radiantes de felicidade.
Beth sorriu para eles. Sua famlia.
Virou-se para Michael, que ainda segurava Mischa. Seu homem.
	Gostei do sorriso  ele sussurrou.
	Amo voc  Beth respondeu.
O espocar de um flash acompanhou o beijo, mas nenhum dos dois deu importncia  luz intensa.
A edio do dia seguinte do Freemont Springs Daily Post exibia uma bela foto na primeira pgina. O Dia dos Namorados fora marcado por episdios muito excitantes para a famlia Wentworth.
Todos os leitores da cidade suspiravam diante do brilho apaixonado que iluminava os olhos do ex-playboy Michael Wentworth fixos no rosto de sua esposa Beth.
Bea e Millie apreciavam satisfeitas o final feliz para a histria da jovem que haviam tomado sob sua proteo.
O dr. Mercer Manning, odontopediatra, inspecionou as gengivas inchadas do pequeno beb de Michael e Beth que, na foto, sorria para a cmera. E pensar que outro beb Wentworth nascera naquele mesmo dia! Jack tambm deixara uma semente. O dr. Manning esfregou as mos e sorriu satisfeito. Outra gerao de clientes para o seu consultrio...
A vida era cheia de surpresas maravilhosas.

FIM
DICAS

AMAMENTAO NATURAL
COMO TIRAR LEITE COMAS MOS
A habilidade de extrair seu prprio leite facilita sua vida. Voc pode conserv-lo no freezer at um ms, e outra pessoa poder d-lo ao beb quando voc no puder. Tirar leite com as mos no  difcil, e o processo  indolor. Use equipamentos esterilizados e lave bem as mos. Estimule a descida do leite com um banho morno ou compressas com toalhas mornas no seio. Arranje um apoio de altura adequada para a tigela onde voc vai coletar o leite.
ORIENTAES
1.	Apoie o seio em uma das mos e massageie-o com a outra, de cima para baixo, na parte superior.
2.	Massageie o seio em toda a volta, tambm na parte de baixo. Faa ao menos dez voltas de massagem. Isso ajuda o leite a descer pelos dutos.
3.	Empurre os dedos para baixo em direo  aurola vrias vezes. Ao fazer isso, evite pressionar o tecido dos seios.
4.	Com os dedos, pressione delicadamente para baixo toda a regio da aurola.
5.	Esprema de leve com os polegares e os indicadores, e continue a pressionar os seios ao mesmo tempo. O leite deve jorrar pelo mamilo. Faa isso por alguns minutos.
Repita a mesma operao no outro seio.
COMO TIRAR O LEITE COMA BOMBINHA
Tirar o leite com a bombinha costuma ser mais rpido e menos cansativo. Porm talvez seja mais difcil obter uma quantidade razovel e haja dor. Se voc sentir dor, tire com as mos. A bombinha do tipo "seringa"  em geral mais fcil de manusear e mais eficiente do que a do tipo "cebola" (uma esfera de borracha). Existem hoje modelos em que o cilindro se converte em uma mamadeira. Se precisar de grandes quantidades, o melhor a fazer  tirar com as mos, procurando ter pacincia com o processo.
1.	Esterilize todo o equipamento e lave bem as mos. Monte a bombinha. Amolea os seios com gua morna e massageie-os como ao tirar o leite com as mos. Coloque o funil da bombinha sobre a aurola de modo a vedar bem a entrada de ar. A presso do funil deve ser a mesma que o beb faz com a boca quando mama.
2.	Mantenha o funil aderido ao seio e puxe o cilindro para baixo: a suco vai tirar o leite do seio.
3.	Tampe bem e refrigere ou congele at quando precisar usar.


CHRISTIE RIDGWAY nos diz: "Estou encantada de participar da srie Sabrina Cegonha. Adoro bebes e as confuses que eles provocam no dia-a-dia."

